Na Cult: “Império da mentira”

Diante desse “império da mentira”, em que os requintes do convencimento são dos mais criativos e inescrupulosos, nossos cuidados individuais com os conteúdos que consumimos, produzimos e divulgamos têm que ser cada vez maiores. Se um dos grupos políticos mais alardeados e influentes dos últimos anos está disposto a atacar com mentiras um cadáver que sequer havia esfriado; se uma empresa que é símbolo das inovações da nossa relação com a produção cinematográfica atual se empenha assim em ecoar o noticiário político mais enviesado, não podemos esperar nada muito melhor dos pretensos – e prováveis – protagonistas da próxima eleição.”

https://revistacult.uol.com.br/home/o-imperio-da-mentira-uma-reflexao-sobre-a-crise-politica-e-o-mecanismo/

Lula é o (único) alvo?

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Lula paga um preço absurdo por ter sido o presidente mais popular da nossa história. Popular: por ter alta popularidade, claro, mas também por ter realizado diversas políticas sociais que, de fato, chegaram até o povo nos diversos cantos do país.
É atacado pela imprensa de modo sistemático e sem quaisquer pudores. É perseguido pelo Ministério Público e pelo Judiciário de modo absolutamente descarado. É o principal alvo das campanhas de difamação que lotam as redes sociais (e também a Netflix!). O segundo mandato de Dilma, que se devia em grande parte à popularidade de Lula, foi bloqueado por um golpe que envolveu Legislativo, Judiciário, grande imprensa e empresariado.
A estratégia é clara e suas razões são evidentes: já que não se pode ganhar de Lula nas urnas, é preciso tirá-lo do páreo. Mas a escala dos esforços tem subido desde então: depois de esgotar todas as formas de desmoralização, deram início a uma verdadeira caçada judicial que deve culminar com sua prisão no ano eleitoral.
No entanto, não há surpresa ao constatar que resulta dessa estratégia um grau ainda mais alto de violência contra Lula e sua militância. Xingamentos, faixas e bonecos infláveis converteram-se em chicotadas, pedradas e, hoje, tiros. Lamentavelmente, é um fruto esperado de tanto ódio.
E é inevitável relacionar essa violência com aquela que tem atingido diversas lideranças de esquerda e militantes dos direitos humanos pelo país, também para perceber uma crescente.
Enfim, se isso aconteceu contra o mais importante ator da curta novela da nossa democracia, podemos até não saber ou ligar para o que vai acontecer com ele, mas temos que ser muito ingênuos para não ver que as vítimas dos próximos capítulos seremos todos nós.

Lafetá e Graciliano

O prof. João Luiz Lafetá (1946-1996) morreu bem novo. Não o conheci (alguém aqui deve ter tido aulas com ele!), mas sempre gostei bastante de todos os seus textos. Ontem, por acaso, encontrei esse vídeo longo em que ele fala sobre Graciliano Ramos. Uma coisa bonita demais. Antonio Candido, que foi seu orientador, disse: “João Luiz Lafetá era discreto, mas participante, reservado e cordial, cumpridor estrito do dever, capaz de concentrar-se a fundo nas tarefas, procurando sempre produzir o melhor. Como professor, era incomparável, desde a presença serena e magnética até a voz admiravelmente impostada, que lhe permitia falar em tom normal e ser ouvido no fundo dos anfiteatros; sem contar o essencial, isto é, a capacidade de expor a matéria de modo perfeito e seguro, depois de ter preparado a aula com aplicação quase angustiada, como quem duvida de si e por isso acha-se moralmente obrigado a fornecer o máximo. E de fato era o máximo que fornecia sempre – na aula, na palestra, no ensaio, no livro –, manifestando em cada uma dessas atividades a sua grande e sólida inteligência”. Pois é. Acho que Antonio Candido tinha essa aula em mente.

Paulinho e a madeira

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“Mexer com madeira ajuda a criar uma certa ordem interior”. Pego, por acaso, a meio caminho, o documentário sobre Paulinho da Viola. Meu tempo é hoje. Já vi dezenas de vezes. Mas, a cada vez, Paulinho salva o dia. Salva a noite. Penso no peso que o passado joga sobre todas as noites. Penso no peso que o futuro joga sobre todos os dias. Paulinho vem e instaura outro tempo: um outro hoje. Um vão. Paulinho vem com seu elogio da madeira. Do trabalho com a madeira. A paixão por tirar música da madeira e a paixão por tirar outras coisas úteis da madeira. Outras: porque a música ali se faz como um polimento da madeira, como um aperfeiçoamento da e pela madeira. O samba como uma das ferramentas a serviço da madeira. Dar vida ao samba na madeira. Dar vida à madeira no samba. E para além dele. Ajustar a vida à madeira. Ajustar-se no ajuste da madeira. E no ajuste das cordas à madeira. Fazer notas da madeira, deslizar pelos nós da madeira, encontrar-nos na madeira. Não é só cuidar da madeira porque violão. Não só cuidar da madeira porque útil: gaveta, porta, martelo, taco, samba. Cuidar-se no cuidar de algo, criar seu veio no tempo: lição de mestre.

Muita treta pra Vinicius de Moraes

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Não lembro onde e quando ouvi os Racionais MC´s pela primeira vez, mas certamente foi em meados da década de 1990, porque me lembro de saber as letras de “Fim de semana no parque” e “Homem na estrada”, ambas do álbum Raio X do Brasil (1993), quando eles lançaram Sobrevivendo no Inferno (1997) e passei a cantar de cor “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, entre outras. E foi assim de lá pra cá: juntando na memória as letras imensas, mas também toda a sonoridade dos discos e o eco que há entre todas as músicas, do primeiro ao mais recente trabalho.

Vocês sabem: a expressão “de cor” e o verbo “decorar”, que usamos para falar que algo está guardado na memória, significam originalmente “de coração”, ou seja, algo que está guardado com nossos afetos mais profundos. E os Racionais, para mim, são exatamente isso: desde as primeiras letras que decorei, a paixão pelos Racionais influenciou todos os meus outros interesses. Aliás, a segunda metade dos anos 1990 era a época em que eu estava estudando Direito e, ao mesmo tempo, mergulhando cada vez mais na leitura de poesia, de sua teoria e crítica, e também buscando meus próprios caminhos na escrita. A trilha sonora de tudo isso para mim sempre foi marcada pelos Racionais, pela batida forte e a voz violenta de Mano Brown. Cada estudo sobre as formalidades do Direito se deparava com a radiografia do país que os “quatro pretos mais perigosos de São Paulo” cantavam. Cada leitura das minúcias da poesia se contaminava pela riqueza bruta que aqueles rapazes mal-encarados extraíam de tudo: batidas, rajadas, samplers, palavrões, gírias e o português talhado nas ruas.

Esta não é a primeira vez que tento explicar o que sinto quando ouço os discos dos Racionais. E nunca é fácil. Nem com os amigos tomados pela mesma paixão, porque a conversa sobre os Racionais migra logo para a cantoria, os olhos brilham, achamos que tudo que precisa ser dito já está dito nas letras e a vida segue. Em outras situações, é ainda mais difícil. A mais recente foi no caixa do supermercado. Enquanto a moça passava minhas compras, contou para seu amigo, do caixa ao lado, que ia a um festival de rap no fim de semana e que até os Racionais iam. O cara falou na lata: “não gosto mais dos Racionais, viraram modinha; o último disco é uma porcaria”. Fiquei perplexo e não tive coragem de entrar na conversa. Voltei pra casa arrastando os chinelos e me perguntando como seria se eu, tiozão branquelo com cara de nerd, tentasse convencer aqueles jovens de que Cores & Valores (2014) é tão ou mais incrível quanto os demais trabalhos do grupo e começasse ali a recitar, por exemplo, “Quanto vale o show” e o mercado parasse pra ouvir coisas assim: “83 era legal, sétima série, eu tinha 13 e pá e tal/ Tudo era novo em um tempo brutal/ O auge era o Natal, beijava a boca das minas/ Nas favelas de cima tinha um som e um clima bom/ O kit era o Faroait, o quente era o Patchouli/ O pica era o Djavan, o hit era o Billie Jean/ Do rock ao black as mais top/ Nos dias de mais sorte ouvia no Soul Pop/ Moleque magro e fraco invisível na esquina/ Planejava a chacina na minha mente doente/ Sem pai, nem parente nem… sozinho entre as feras/ Os malandro que era, na miséria fizeram mal/ Meu primo resolve ter revólver/ Em volta outras revoltas, envolve-se fácil/ Era guerra com a favela de baixo/ Sem livro nem lápis e o Brasil em colapso”. E convencê-los de que não há mais ninguém que passeie assim entre nossos delírios de consumo e nossas carências profundas, e de que não é todo dia que aparece alguém que tira tanta poesia dessa vida dura e ressequida a que a maior parcela dos brasileiros é condenada. E de que não pode chamar de porcaria a grande ópera do nosso tempo, porque Cores & Valores, em menos de trinta minutos divididos em quinze faixas, é uma música só, uma porrada só, um grande baile em que as agonias do nosso tempo são colocadas na mesa, estiradas no chão da Praça da Sé e, depois, tiradas pra dançar, já acenando para as outras praias que os discos solos de Edi Rock e Mano Brown vão multiplicar. Mas fiquei quieto, engolindo a seco as sílabas todas.

Assisti uma vez apenas a um show dos Racionais. Em Santo André, num parque a céu aberto. Um amigo estava trabalhando na organização do show e eu fiquei em cima do palco, num canto, vendo de frente aquela multidão cantando com tanta paixão quanto Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock todas as letras dos Racionais, entregues ao ritmo que KL Jay cismava de dar aos nossos corpos. Milhares de corações entregues ao pé do palco, vidrados naquilo tudo, num misto de culto e protesto em que se reverencia a força daquelas palavras para desocultar verdades escondidas nos fundões da cidade e, ao mesmo tempo, se apresenta a possibilidade de uma força coletiva que em todas as outras esferas é sabotada e desestimulada.

Sonho há tempos em fazer um documentário sobre “Fim de semana no parque”. Andar pelas periferias do Brasil fazendo uma mesma pergunta: onde você estava quando ouviu “Fim de semana no parque”? Acho que é o divisor de águas da coisa toda. Numa entrevista do Mano Brown li algo que me deu ainda mais certeza dessa chave. Perguntaram a ele quando percebeu que os Racionais tinham estourado, quando ele viu que se tornaram grandes. E Brown disse que foi num dia em que andava pelas quebradas de sempre e ouviu vários barracos tocando “Fim de semana no parque”. Entendo perfeitamente. Imagino a porrada que foi, para quem vivia em situações parecidas com a dos quase adolescentes Pedro Paulo, Edivaldo, Kleber Geraldo e Paulo Eduardo, ouvir algo assim: “No último natal Papai Noel escondeu um brinquedo/ Prateado, brilhava no meio do mato/ Um menininho de dez anos achou o presente/ Era de ferro com doze balas no pente/ E o fim de ano foi melhor pra muita gente”. Acho que é a chance de contar uma história do Brasil sem as distorções, as ocultações, os falsos heroísmos e glamoures que a história oficial costuma destacar. No seu conjunto, os discos dos Racionais contam a história de milhares de brasileiros que nunca haviam visto sua realidade gravada com nitidez em estudos e obras de arte. E é por isso que incomodam tanto, inclusive a seus eventuais personagens.

Há um verso de “Da ponte pra cá”, última música do segundo cd de Nada como um dia após o outro dia (2002), que me tirou especialmente o sono: “muita treta pra Vinicius de Moraes”. Sempre achei que Brown estava dando um recado para poetinhas como eu, cheios de lirismo e bossa nova. Depois de passar por “Negro Drama”, “Jesus chorou”, as duas partes de “Vida Loka” (1 e 2), Mano Brown termina o álbum com uma letra que considero ser das mais ricas e complexas de toda a obra dos Racionais. “Da ponte pra cá” é uma espécie de passeio pela vida que se leva do outro lado da ponte em São Paulo, marcando assim uma distinção geográfica, política, econômica, cultural etc. entre centro/bairros nobres e periferia da cidade em que “Deus é uma nota de 100”, como diz em “Vida Loka, pt. 2”. O refrão marcando que “o mundo é diferente da ponte pra cá” em meio a uma floresta de referências de consumo que identificam o mundo do lado rico da ponte – Nike, Tag Heuer, Honda, TAM, JB, triplex, ouro, diamante, relógio e corrente – e contrasta com a imagem cruel da vida sem esperança que a cidade joga para o outro lado dos seus rios podres. E Brown sai sob a neblina que cobre a Estrada de Itapecerica com a câmera ligada e nos leva para dentro do seu universo espinhoso: os manos lavando o ódio no sereno, cada um na sua solidão, a maconha que dilui a raiva e solta na atmosfera. Brown crava: “cada favelado é um universo em crise”. E vai dando uma pancada em cima da outra: “eu nunca tive bicicleta e videogame/ agora eu quero o mundo igual Cidadão Kane”. Depois de enumerar os nomes das vilas e favelas em que circula (“Jardim Rosana, Três Estrela e Imbé/ Santa Tereza, Valo Velho e Dom José/ Parque, Chácara, Lídia Vaz, Fundão”), Brown dá a pista sobre sua poética como quem dá uma martelada nas nossas mãos limpinhas: a poesia desse lugar do mundo é “muita treta pra Vinicius de Moraes”. Não há bossa nova que dê conta do Capão Redondo. A garota do Fundão não é a de Ipanema: ela é “a mãe solteira de um promissor vagabundo” (“Negro Drama”) e merece uma poesia à sua altura. E eu só consigo pensar que poucos poetas do meu tempo sabem tão bem a que querem que seus versos sirvam.

 

Depoimento publicado em revista Grampo-Canoa, n. 4, janeiro de 2018, pp. 29-33

Do fb pra cá (março 2018)

[15] Apesar de… apesar de… apesar de… temos seguido. Temos que seguir. Daqui a pouco tem aula sobre poesia e política. E o tema previsto é justamente poesia e feminismo, suas tensões. Se não fosse, seria. Certamente, Marielle Franco estará em nossas cabeças, em nossa conversa, em nossos silêncios. E tudo vai começar com esse vídeo de Adelaide Ivánova, na FLIP do ano passado. Marielle deve ter aplaudido esse poema incrível, talvez sem imaginar que em tão pouco tempo estaria morando dentro dele. Nossas tarefas aumentam a cada dia. Não nos afastemos.

https://www.youtube.com/watch?v=sameT-Ia618

 

[18] Ó, achar um absurdo que um(a) desembargador(a) seja escroto(a) normalmente é um erro na imagem que insistimos em ter de desembargadores e outras autoridades, como se o poder que detêm resultasse sempre de algum “mérito” ou superqualificação (técnica, ética etc.). Não, não resulta. A tal magistrada que despacha no atacado do facebook para dizer que, no caso de Marielle, há um esforço da esquerda para “agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”, infelizmente, não é exceção. Toda as vezes que o Judiciário finge não ver que, no geral, pune sempre os mesmos e absolve sempre os mesmos, é essa mesma mentalidade que está em ação. Ou alguém acha que ela se referiria ao cadáver dos seus parentes e amigos como “um cadáver tão comum quanto qualquer outro”?

 

[18] Tem uns caras que são foda no primeiro disco. Tem uns caras que são foda no segundo, terceiro e até no trigésimo disco. Tem uns caras que são foda para além de todos os discos foda que fizeram. E tem o Chico Buarque.

 

[20] Toda vez que me pergunto como se faz para ler e escrever ~ como se deve ~ em meio aos bombardeios do nosso tempo, abro a correspondência entre Adorno e Benjamin e lembro que é justamente em tempos assim (ou até piores, como no caso de Benjamin, que, entre um pedido de dinheiro para continuar trabalhando e um pedido de asilo para continuar vivo, escreve ali 3 ou 4 parágrafos incríveis sobre Goethe, Brecht ou seja lá o que for), é justamente em tempos assim que se deve ler e escrever como nunca: não apenas “apesar de”, mas contra. Sobre todas as coisas. Como denúncia, resistência, respiro. Mãos à obra.

 

[21] Ouvi dizer – e confio – que o Lula e o Papa ligaram para a família da Marielle Franco. O Chico Buarque estava na manifestação. Não sei se o Papa toma cerveja, mas taí uns meninos que dá vontade de juntar no bar. Com o Mujica, claro.

 

[22] Hoje vamos ver até onde vai a criatividade dos temperados supremos ministros para definir o significado das seguintes palavras: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (Constituição Federal, art. 5º, LVII).

 

[23] Brigas entre homens de toga? Jurisprudência que parece um chiclete mascado e cuspido por 11 bocas, não raro boquirrotas? Uma torcida rindo, outra torcida chorando, na distante arquibancada de um jogo em que, ao final, todos perdem, principalmente a bola? Prefiro pensar sobre o vídeo das pessoas em Montes Claros comprando coxinhas e sucos que a prefeitura iria apreender: o vendedor chorando, o guarda ao lado, o povão tirando os trocados do bolso para salvar o negócio. É isso. Não tenho dúvida de que só pode vir das ruas (em torno dessas coxinhas, não daquelas…) qualquer solução, cheia de afeto e solidariedade, contra a autoridade de um Estado que, como já disseram, só sabe ser forte contra os fracos e é cada vez mais fraco contra os fortes. É grande passo dizer NÃO, agir em razão desse NÃO, juntar-se a quem também diz NÃO, a quem precisa muito desse NÃO. Creio que assim comece a surgir uma outra forma de pensar nossos papéis nesse teatro e também os papéis que facilmente atribuímos a quem não merece. Respeitar menos, servir menos, cortejar menos: desobedecer. Não se esconder nem de um lado nem do outro dos “vossas excelências”, como aqueles seres supremos, afogados em tanta vaidade, ou autoridades que não seguram o próprio guarda-chuva (quem o faz, claro, é uma mulher negra, uma das tantas Marielles que matamos assim, silenciosamente, todos os dias). A coisa vai melhorar quando percebermos que quem merece toda nossa reverência, respeito e solidariedade é aquele que precisa vender coxinhas na rua para sobreviver, é aquela que está segurando o guarda-chuva, é aquele que encontramos na calçada, não nos salões que remetem ao peso do passado sobre nossas costas. De cima, normalmente, só vem mais e mais chicote (que, aliás, voltou às manchetes neste ano pesado). Alguém já disse por aí qual o caminho: de cada um de acordo com sua possibilidade, a cada um de acordo com sua necessidade. Este é o ponto. Tem que ser.

Marielle: duas notas

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(1) Temos – tenho – falado muito de poesia aqui e por aí. Ontem, no debate sobre poesia e política, falei que me incomodava muito esse momento de “sinal trocado”: uma animação tremenda na poesia, na poesia mais francamente política e em todas as outras, e um desânimo terrível com a política mesmo, sem qualquer esperança que venha do campo político, principalmente institucional e partidário. Lá pelas tantas, Alice Ruiz usou uma expressão que me ajudou a pensar um pouco melhor tudo isso: a poesia como legítima defesa. Um florescimento da poesia como reação à barbárie. Mas não temos mais direito à metáfora: a morte, agora, é morte mesmo. Corpo no chão. Sem rima, sem dó. A legítima defesa também tem que ser outra. Vamos precisar, sempre precisamos, ir além da militância da poesia, dos livros, das ideias e dos sonhos. A barbárie vai fechando o cerco.

 

(2) Uma morte brutal e brutalmente significativa neste momento. Marielle Franco simbolizava um desses respiros democráticos construídos com imensa dificuldade e atacados diariamente. Mulher, negra, jovem, mãe, nascida na Maré, Marielle venceu o caminho difícil (ainda mais difícil para mulheres e negras e jovens e mães e pobres) de estudar, trabalhar, militar, ser eleita vereadora com 46.502 votos por um partido de esquerda, pequeno, que geralmente está na contramão de tudo que é podre na política deste país. Lamentavelmente, sua execução é uma vitória do que é podre. Um ataque a tudo que ela representava e fazia: mulher, negra, pobre, de esquerda, em defesa dos direitos humanos. Sua morte é mais que um recado. É um outro golpe. É um apagamento. Espécie de retomada de território por aqueles que não admitem que Marielles possam existir politicamente. Aqueles que não admitem que Marielles possam existir fora dos papéis que eles mesmos definam. Aqueles que não admitem que Marielles possam existir. Ponto.