Do fb pra cá (março 2018)

[15] Apesar de… apesar de… apesar de… temos seguido. Temos que seguir. Daqui a pouco tem aula sobre poesia e política. E o tema previsto é justamente poesia e feminismo, suas tensões. Se não fosse, seria. Certamente, Marielle Franco estará em nossas cabeças, em nossa conversa, em nossos silêncios. E tudo vai começar com esse vídeo de Adelaide Ivánova, na FLIP do ano passado. Marielle deve ter aplaudido esse poema incrível, talvez sem imaginar que em tão pouco tempo estaria morando dentro dele. Nossas tarefas aumentam a cada dia. Não nos afastemos.

https://www.youtube.com/watch?v=sameT-Ia618

 

[18] Ó, achar um absurdo que um(a) desembargador(a) seja escroto(a) normalmente é um erro na imagem que insistimos em ter de desembargadores e outras autoridades, como se o poder que detêm resultasse sempre de algum “mérito” ou superqualificação (técnica, ética etc.). Não, não resulta. A tal magistrada que despacha no atacado do facebook para dizer que, no caso de Marielle, há um esforço da esquerda para “agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”, infelizmente, não é exceção. Toda as vezes que o Judiciário finge não ver que, no geral, pune sempre os mesmos e absolve sempre os mesmos, é essa mesma mentalidade que está em ação. Ou alguém acha que ela se referiria ao cadáver dos seus parentes e amigos como “um cadáver tão comum quanto qualquer outro”?

 

[18] Tem uns caras que são foda no primeiro disco. Tem uns caras que são foda no segundo, terceiro e até no trigésimo disco. Tem uns caras que são foda para além de todos os discos foda que fizeram. E tem o Chico Buarque.

 

[20] Toda vez que me pergunto como se faz para ler e escrever ~ como se deve ~ em meio aos bombardeios do nosso tempo, abro a correspondência entre Adorno e Benjamin e lembro que é justamente em tempos assim (ou até piores, como no caso de Benjamin, que, entre um pedido de dinheiro para continuar trabalhando e um pedido de asilo para continuar vivo, escreve ali 3 ou 4 parágrafos incríveis sobre Goethe, Brecht ou seja lá o que for), é justamente em tempos assim que se deve ler e escrever como nunca: não apenas “apesar de”, mas contra. Sobre todas as coisas. Como denúncia, resistência, respiro. Mãos à obra.

 

[21] Ouvi dizer – e confio – que o Lula e o Papa ligaram para a família da Marielle Franco. O Chico Buarque estava na manifestação. Não sei se o Papa toma cerveja, mas taí uns meninos que dá vontade de juntar no bar. Com o Mujica, claro.

 

[22] Hoje vamos ver até onde vai a criatividade dos temperados supremos ministros para definir o significado das seguintes palavras: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (Constituição Federal, art. 5º, LVII).

 

[23] Brigas entre homens de toga? Jurisprudência que parece um chiclete mascado e cuspido por 11 bocas, não raro boquirrotas? Uma torcida rindo, outra torcida chorando, na distante arquibancada de um jogo em que, ao final, todos perdem, principalmente a bola? Prefiro pensar sobre o vídeo das pessoas em Montes Claros comprando coxinhas e sucos que a prefeitura iria apreender: o vendedor chorando, o guarda ao lado, o povão tirando os trocados do bolso para salvar o negócio. É isso. Não tenho dúvida de que só pode vir das ruas (em torno dessas coxinhas, não daquelas…) qualquer solução, cheia de afeto e solidariedade, contra a autoridade de um Estado que, como já disseram, só sabe ser forte contra os fracos e é cada vez mais fraco contra os fortes. É grande passo dizer NÃO, agir em razão desse NÃO, juntar-se a quem também diz NÃO, a quem precisa muito desse NÃO. Creio que assim comece a surgir uma outra forma de pensar nossos papéis nesse teatro e também os papéis que facilmente atribuímos a quem não merece. Respeitar menos, servir menos, cortejar menos: desobedecer. Não se esconder nem de um lado nem do outro dos “vossas excelências”, como aqueles seres supremos, afogados em tanta vaidade, ou autoridades que não seguram o próprio guarda-chuva (quem o faz, claro, é uma mulher negra, uma das tantas Marielles que matamos assim, silenciosamente, todos os dias). A coisa vai melhorar quando percebermos que quem merece toda nossa reverência, respeito e solidariedade é aquele que precisa vender coxinhas na rua para sobreviver, é aquela que está segurando o guarda-chuva, é aquele que encontramos na calçada, não nos salões que remetem ao peso do passado sobre nossas costas. De cima, normalmente, só vem mais e mais chicote (que, aliás, voltou às manchetes neste ano pesado). Alguém já disse por aí qual o caminho: de cada um de acordo com sua possibilidade, a cada um de acordo com sua necessidade. Este é o ponto. Tem que ser.

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