Muita treta pra Vinicius de Moraes

racionais

Não lembro onde e quando ouvi os Racionais MC´s pela primeira vez, mas certamente foi em meados da década de 1990, porque me lembro de saber as letras de “Fim de semana no parque” e “Homem na estrada”, ambas do álbum Raio X do Brasil (1993), quando eles lançaram Sobrevivendo no Inferno (1997) e passei a cantar de cor “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, entre outras. E foi assim de lá pra cá: juntando na memória as letras imensas, mas também toda a sonoridade dos discos e o eco que há entre todas as músicas, do primeiro ao mais recente trabalho.

Vocês sabem: a expressão “de cor” e o verbo “decorar”, que usamos para falar que algo está guardado na memória, significam originalmente “de coração”, ou seja, algo que está guardado com nossos afetos mais profundos. E os Racionais, para mim, são exatamente isso: desde as primeiras letras que decorei, a paixão pelos Racionais influenciou todos os meus outros interesses. Aliás, a segunda metade dos anos 1990 era a época em que eu estava estudando Direito e, ao mesmo tempo, mergulhando cada vez mais na leitura de poesia, de sua teoria e crítica, e também buscando meus próprios caminhos na escrita. A trilha sonora de tudo isso para mim sempre foi marcada pelos Racionais, pela batida forte e a voz violenta de Mano Brown. Cada estudo sobre as formalidades do Direito se deparava com a radiografia do país que os “quatro pretos mais perigosos de São Paulo” cantavam. Cada leitura das minúcias da poesia se contaminava pela riqueza bruta que aqueles rapazes mal-encarados extraíam de tudo: batidas, rajadas, samplers, palavrões, gírias e o português talhado nas ruas.

Esta não é a primeira vez que tento explicar o que sinto quando ouço os discos dos Racionais. E nunca é fácil. Nem com os amigos tomados pela mesma paixão, porque a conversa sobre os Racionais migra logo para a cantoria, os olhos brilham, achamos que tudo que precisa ser dito já está dito nas letras e a vida segue. Em outras situações, é ainda mais difícil. A mais recente foi no caixa do supermercado. Enquanto a moça passava minhas compras, contou para seu amigo, do caixa ao lado, que ia a um festival de rap no fim de semana e que até os Racionais iam. O cara falou na lata: “não gosto mais dos Racionais, viraram modinha; o último disco é uma porcaria”. Fiquei perplexo e não tive coragem de entrar na conversa. Voltei pra casa arrastando os chinelos e me perguntando como seria se eu, tiozão branquelo com cara de nerd, tentasse convencer aqueles jovens de que Cores & Valores (2014) é tão ou mais incrível quanto os demais trabalhos do grupo e começasse ali a recitar, por exemplo, “Quanto vale o show” e o mercado parasse pra ouvir coisas assim: “83 era legal, sétima série, eu tinha 13 e pá e tal/ Tudo era novo em um tempo brutal/ O auge era o Natal, beijava a boca das minas/ Nas favelas de cima tinha um som e um clima bom/ O kit era o Faroait, o quente era o Patchouli/ O pica era o Djavan, o hit era o Billie Jean/ Do rock ao black as mais top/ Nos dias de mais sorte ouvia no Soul Pop/ Moleque magro e fraco invisível na esquina/ Planejava a chacina na minha mente doente/ Sem pai, nem parente nem… sozinho entre as feras/ Os malandro que era, na miséria fizeram mal/ Meu primo resolve ter revólver/ Em volta outras revoltas, envolve-se fácil/ Era guerra com a favela de baixo/ Sem livro nem lápis e o Brasil em colapso”. E convencê-los de que não há mais ninguém que passeie assim entre nossos delírios de consumo e nossas carências profundas, e de que não é todo dia que aparece alguém que tira tanta poesia dessa vida dura e ressequida a que a maior parcela dos brasileiros é condenada. E de que não pode chamar de porcaria a grande ópera do nosso tempo, porque Cores & Valores, em menos de trinta minutos divididos em quinze faixas, é uma música só, uma porrada só, um grande baile em que as agonias do nosso tempo são colocadas na mesa, estiradas no chão da Praça da Sé e, depois, tiradas pra dançar, já acenando para as outras praias que os discos solos de Edi Rock e Mano Brown vão multiplicar. Mas fiquei quieto, engolindo a seco as sílabas todas.

Assisti uma vez apenas a um show dos Racionais. Em Santo André, num parque a céu aberto. Um amigo estava trabalhando na organização do show e eu fiquei em cima do palco, num canto, vendo de frente aquela multidão cantando com tanta paixão quanto Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock todas as letras dos Racionais, entregues ao ritmo que KL Jay cismava de dar aos nossos corpos. Milhares de corações entregues ao pé do palco, vidrados naquilo tudo, num misto de culto e protesto em que se reverencia a força daquelas palavras para desocultar verdades escondidas nos fundões da cidade e, ao mesmo tempo, se apresenta a possibilidade de uma força coletiva que em todas as outras esferas é sabotada e desestimulada.

Sonho há tempos em fazer um documentário sobre “Fim de semana no parque”. Andar pelas periferias do Brasil fazendo uma mesma pergunta: onde você estava quando ouviu “Fim de semana no parque”? Acho que é o divisor de águas da coisa toda. Numa entrevista do Mano Brown li algo que me deu ainda mais certeza dessa chave. Perguntaram a ele quando percebeu que os Racionais tinham estourado, quando ele viu que se tornaram grandes. E Brown disse que foi num dia em que andava pelas quebradas de sempre e ouviu vários barracos tocando “Fim de semana no parque”. Entendo perfeitamente. Imagino a porrada que foi, para quem vivia em situações parecidas com a dos quase adolescentes Pedro Paulo, Edivaldo, Kleber Geraldo e Paulo Eduardo, ouvir algo assim: “No último natal Papai Noel escondeu um brinquedo/ Prateado, brilhava no meio do mato/ Um menininho de dez anos achou o presente/ Era de ferro com doze balas no pente/ E o fim de ano foi melhor pra muita gente”. Acho que é a chance de contar uma história do Brasil sem as distorções, as ocultações, os falsos heroísmos e glamoures que a história oficial costuma destacar. No seu conjunto, os discos dos Racionais contam a história de milhares de brasileiros que nunca haviam visto sua realidade gravada com nitidez em estudos e obras de arte. E é por isso que incomodam tanto, inclusive a seus eventuais personagens.

Há um verso de “Da ponte pra cá”, última música do segundo cd de Nada como um dia após o outro dia (2002), que me tirou especialmente o sono: “muita treta pra Vinicius de Moraes”. Sempre achei que Brown estava dando um recado para poetinhas como eu, cheios de lirismo e bossa nova. Depois de passar por “Negro Drama”, “Jesus chorou”, as duas partes de “Vida Loka” (1 e 2), Mano Brown termina o álbum com uma letra que considero ser das mais ricas e complexas de toda a obra dos Racionais. “Da ponte pra cá” é uma espécie de passeio pela vida que se leva do outro lado da ponte em São Paulo, marcando assim uma distinção geográfica, política, econômica, cultural etc. entre centro/bairros nobres e periferia da cidade em que “Deus é uma nota de 100”, como diz em “Vida Loka, pt. 2”. O refrão marcando que “o mundo é diferente da ponte pra cá” em meio a uma floresta de referências de consumo que identificam o mundo do lado rico da ponte – Nike, Tag Heuer, Honda, TAM, JB, triplex, ouro, diamante, relógio e corrente – e contrasta com a imagem cruel da vida sem esperança que a cidade joga para o outro lado dos seus rios podres. E Brown sai sob a neblina que cobre a Estrada de Itapecerica com a câmera ligada e nos leva para dentro do seu universo espinhoso: os manos lavando o ódio no sereno, cada um na sua solidão, a maconha que dilui a raiva e solta na atmosfera. Brown crava: “cada favelado é um universo em crise”. E vai dando uma pancada em cima da outra: “eu nunca tive bicicleta e videogame/ agora eu quero o mundo igual Cidadão Kane”. Depois de enumerar os nomes das vilas e favelas em que circula (“Jardim Rosana, Três Estrela e Imbé/ Santa Tereza, Valo Velho e Dom José/ Parque, Chácara, Lídia Vaz, Fundão”), Brown dá a pista sobre sua poética como quem dá uma martelada nas nossas mãos limpinhas: a poesia desse lugar do mundo é “muita treta pra Vinicius de Moraes”. Não há bossa nova que dê conta do Capão Redondo. A garota do Fundão não é a de Ipanema: ela é “a mãe solteira de um promissor vagabundo” (“Negro Drama”) e merece uma poesia à sua altura. E eu só consigo pensar que poucos poetas do meu tempo sabem tão bem a que querem que seus versos sirvam.

 

Depoimento publicado em revista Grampo-Canoa, n. 4, janeiro de 2018, pp. 29-33

2 comentários sobre “Muita treta pra Vinicius de Moraes

  1. RODRIGO MALACHIAS 22 de agosto de 2018 / 04:10

    Cara, texto sensacional esse seu! Falando de ‘Da Ponte pra cá’, eu acho a coisa mais fodástica a parte que diz: ‘De classe A da TAM, tomando JB ou viajar de Blazer pro 92 DP.’ Tipo a tênue linha que separa o cara que se deu bem na fita, daquele que rodou. E continua, ‘guarda meus irmãos nesse horizonte cinzento, nesse Capão Redondo frio sem sentimento, os mano é sofrido e fuma um sem dar guela, é o estilo favela e o respeito por ela, os moleque tem instinto e ninguém amarela, os coxinha cresce o zóio na função e gela.’ Cara isso é fora de série. Sem palavras pra descrever o que significa uma sequência de idéias dessa. Forte abraço!

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