Lula, outras notas

livros

[9/4] Estão divulgando o endereço para envio de correspondência para o Lula em Curitiba e, previsivelmente, já tem infeliz fazendo piada com isso… É claro que eu espero que o carteiro não o encontre lá, mas amanhã vão para o Correio esses dois livros e uma carta. O maior, sei que ele já tem: é a segunda edição reunida de dois livros sobre suas primeiras batalhas sindicais/políticas, escritos por um grande amigo seu, que, se estivesse vivo, certamente iria ao correio amanhã também. E o outro é uma antologia em que ao menos um poema liga o coração de Lula ao do Possidonio: “O operário em construção”. Para quem se animar também, o endereço é:

DIRETÓRIO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES

a/c Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Alameda Princesa Izabel, 160

São Francisco, Curitiba – PR, CEP 80410-110

 

[10/4] Já perdi a conta de quantas vezes ouvi, de formas pouco ou nada carinhosas, a pergunta: “como é que você ainda defende o Lula?”… Creio que essas pessoas veem na minha posição alguma incoerência que eu mesmo ainda não percebi, nem quero perceber, caso me obrigue a estar do mesmo lado dos que comemoraram a prisão de Lula (no Bahamas e noutras casas). Mas a questão é mais grave. Até pouco tempo, eu tenderia a ficar quieto se alguém dissesse que, não é por não terem sido punidos os políticos dos outros partidos (quero dizer: os tucanos), que Lula não deve ser punido. E poderia até evitar o debate se alguém dissesse que Lula foi condenado após um devido processo legal. Mas agora é muito mais evidente que as duas afirmações acima estão erradas e vão cobrar um preço muito caro de todos nós. Primeiro, é óbvio que Lula está sendo punido justamente para que todos os outros (tucanos, em especial) não venham a ser punidos – nos processos e, mais que tudo, nas urnas, pelos eleitores do país todo, juízes em última instância dessa parada toda. Segundo, é óbvio também que o processo tinha um objetivo determinado de antemão (a prisão de Lula) e que nada, nada, nada poderia mudar ou desacelerar esse rumo. Moro e seus amigos do TRF estavam com suas decisões tomadas desde o jardim de infância! Quem duvida pode dar uma olhada em outras decisões de Moro na própria Lava Jato ou na quantidade de condenados em segunda instância (na Lava Jato ou fora dela) que ainda não foram presos, nem mesmo incomodados pelo oficial de justiça. Diante disso, lembro daquela pergunta: “como é que você ainda defende o Lula?”… Defendo, sim, e cada vez mais tenho convicção de que é o melhor a ser feito. Por ele e, mais que tudo, por nós, como tenho repetido por aí. Vamos.

 

[11/4] Manter Lula vivo, manter Lula na política, manter Lula grande: temos que continuar diariamente nessa luta. Porque, do outro lado, após a prisão, toda a ofensiva será no sentido de apagar Lula (simbolicamente ou pior), circunscrever Lula ao noticiário policial, reduzir Lula a “um preso como qualquer outro”, porque todos ali sabem que Lula é um preso político e não terão pudores para inventar formas de reduzir sua força. E nossas forças. Temos que insistir em demonstrar que, dadas as circunstâncias de sua prisão, Lula não é um simples “político preso”. É um preso político. E nossa contraofensiva tem que ser urgente e persistente, porque o Judiciário, em diversos níveis, vai fazendo suas ações de apagamento de Lula: indefere um pedido de visita formulado por 11 governadores (Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe), alguns senadores, deputados e dirigentes políticos; bloqueia indevidamente os bens de Lula, Okamoto, Instituto Lula e LILS; suspende ações que podem impactar na ordem de prisão etc. O noticiário agora será cheio disso. Tudo para fragilizar e apequenar Lula e dificultar sua defesa jurídica e política. Uma tempestade de ataques para soterrar Lula, a que temos que reagir no limite de nossas forças: ocupando as ruas, disputando em todos os canais de comunicação, dando apoio a quem luta em outras trincheiras. Aliás, quando tudo parece desabar, tenho percebido aqui e ali, na conversa com amigos, uma vontade crescente de pertencer a partidos políticos e atuar mais diretamente nessas lutas. Muita gente já percebeu que, no fundo, a tentativa de apagamento de Lula tem objetivos maiores e piores: apagar o campo esquerdo da política. Contra isso, de fato, não há caminho melhor que a união: dentro da esquerda, dentro dos partidos de esquerda, entre os partidos de esquerda. Temos que seguir por aí. #LulaLivre

 

[11/4] Vocês já devem ter percebido que escrevo o tempo todo. Peço perdão, hehehe… É minha forma de reagir. A que está mais ao alcance da mão. E normalmente o que escrevo assume a forma da pancada recebida: posts, poemas, artigos, petições, mensagens… Isso significa dormir mais tarde do que deveria e acordar mais cedo do que poderia, esticar o dia e acelerar e atropelar suas rotinas, porque há palavras paradas na garganta e nas falanges, doendo, ardendo, que pedem para sair. Sinto-me, às vezes, como um estranho repórter, vivendo meu tempo, com a crescente necessidade de observar, ler e escrever sobre os assuntos ao redor. Então, perdão, escrevo. Quando uma pessoa ao menos se vê contemplada, a gente se sente menos idiota de ocupar o tempo assim. Sente até que foi melhor ter entrado nessas brigas. E continua entrando. § Por que tantos protestos, manifestos, desabafos, tomadas de partido, que muitas vezes nos custam caro? Porque é preciso se mexer. Entre as diversas formas assumidas pelo antipetismo e o antilulismo, além daquelas todas à direita, podemos catalogar algumas à esquerda (que, no fundo, dão quase na mesma que as da direita). Entre elas, há formas passivas, como o silêncio indiferente, a inação inabalável, o ócio político, mas há também formas ativas, como a crítica pura, o “bem feito” da revanche, o riso da cobrança, os beliscões do ressentimento. Não raro, há um nó muito forte e complexo entre todas essas (im)posturas, redundando noutras formas eficazes de indiferença ao destino de Lula e da “esquerda lulista”. É triste. Muitas vezes reconheço que eles têm razão, até porque normalmente estão teoricamente certos (e pouco adiantaria dizer que não estão). Mas prefiro estar teoricamente errado a estar politicamente sozinho, quieto ou parado. Mesmo que seja tão fácil perceber, teoricamente, como estou errado no que, politicamente, acabei de afirmar! § Não quero o fácil. Escrevo.

gulliver

[12/4] Vi essa charge do Luiz Gê e lembrei que, na sexta-feira, lá no Sindicato, também pensei em Gulliver e ia postar uma foto do filme com Jack Black. Por alguma razão, naquele agito, não o fiz, mas vendo agora esse desenho penso em outra coisa: há corpos políticos gigantes, mas nem todos pelas mesmas razões. Lula, sem dúvida, é um gigante, como bem explicou o Alberto Pucheu num texto lindo lá no perfil dele. Lula é gigante porque incorpora milhões de brasileiros que se identificam e confundem com ele. Prender Lula é prender tudo o que ele significa da porta para fora das instituições, e é por isso que, como eu já disse, todo o esforço de quem o prendeu é para reduzi-lo, fazendo-o caber nas tantas celas do direito. Mas há um outro gigante em que penso agora: Alckmin. Seu gigantismo não é da mesma natureza do de Lula: Alckmin é gigante das instituições para dentro. Um gigante sem corpo político popular, mas com um imenso corpo político elitista, conservador e corporativo. Toda essa articulação de mídia rica, Judiciário, Ministério Público e classe média-alta/alta que luta para apequenar Lula tem em Alckmin o seu gigante. É por isso que considero tão importante quanto manter o corpo político de Lula em suas dimensões colossais, ficar de olho nos movimentos do corpo político de Alckmin para se safar da Lava Jato. Aposto que, nesse paralelo, ficarão ainda mais escancaradas as entranhas do sistema e a que ponto são capazes de chegar para salvar seu gigante, sua grande aposta para voltar de vez ao poder em Brasília. Isso já está em marcha. O STJ já protegeu Alckmin da Lava Jato ontem. Seguindo assim, com nosso gigante preso, o gigante deles deve pisar sobre nossas cabeças em breve. Quero estar errado.

Anúncios

Contra eles

WhatsApp Image 2018-04-12 at 12.20.53

CONTRA ELES
[ode-ódio antifascista]

sim, eles existem
eles são eles
e são sempre os mesmos

eles riram ou dormiram indiferentes
quando souberam da execução da vereadora negra
porque era negra pobre homossexual e de esquerda
os mesmos que nunca entenderam porque nós
não aceitamos a caça aos favelados
não aceitamos a caça aos estudantes
não aceitamos a caça aos militantes

são eles que vão votar no candidato
que homenageia torturadores
discrimina mulheres ataca homossexuais
os mesmos que fazem piadas com direitos humanos
e dizem que agora tudo é “politicamente correto”

eles foram às ruas contra a mulher que era presidenta
e a chamaram de puta burra ladra bruxa vagabunda
os mesmos que não vão às ruas por nada nunca
porque temem as ruas e temem que nós estejamos nas ruas

eles batem panelas e soltam rojões para comemorar
a prisão do ex-presidente nordestino e metalúrgico
eles soltam rojões para comemorar golpes de estado
os mesmos que riram da festa no puteiro
e do cafetão que promete cerveja em troca da morte

eles adoram mandar para nossas caixas postais
suas opiniões violentas sobre todos os temas
mas querem moderação quando nós respondemos

eles nunca ligaram para a vida da maioria
dos venezuelanos dos norte-coreanos dos chineses
mas enchem a boca para falar desses países
quando é necessário atacar os adversários daqui

eles dizem que são contra a corrupção
mas não ligam quando são os seus que (se) corrompem
e jamais deixarão de votar em corruptos
quando for o melhor para eles mesmos

e são os mesmos que jamais irão às ruas xingar
quem não é negro pobre homossexual de esquerda
nordestino analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda
porque eles não xingam qualquer um

aliás, porque eles só xingam “qualquer um”
e qualquer um é apenas quem é negro
pobre homossexual de esquerda nordestino
analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda

na boca deles as palavras com que elogiamos
ou nos solidarizamos viram xingamentos
na mesma boca deles nós nunca é nós
e o eles que dizem nunca vai ao espelho

eles dizem que essa história
de nós contra eles
não leva a lugar algum
mas é mentira
eles não querem ir a lugar algum
com esses que chamamos de nós

nós sabemos quem

Na Cult: 30 anos da Constituição

《A Constituição, hoje, poderia cantar: “Meus inimigos estão no poder”, porque, se a Constituição é democrática, eles são golpistas. Se ela quer distribuir, eles querem concentrar. Se ela quer reduzir desigualdades, eles querem aprofundá-las. Se ela é laica, eles são religiosos intolerantes. Se ela quer o bem de todos, eles querem o bem de poucos – bem poucos! Mesmo quem acha que não passa de um texto como qualquer outro deve convir que a Constituição é importante demais para ser deixada nas mãos do STF, de todos os outros juízes, dos legisladores e demais políticos.》
Hoje tem texto novo na minha coluna no site da Revista CULT. A partir de agora, vou escrever lá a cada duas semanas (e quando for urgente!). Passem por lá.

https://revistacult.uol.com.br/home/a-constituicao-e-importante-demais-para-ser-deixada-na-mao-do-stf/

Lula, minha reportagem sentimental

FB_IMG_1523013953659

[quinta, 9/4/2018, 8h33] Lula deve estar tranquilo. Quem tem uma biografia tão rara e admirável, uma longa e intensa travessia dos mais baixos degraus da pobreza no Brasil até os mais cobiçados postos e reconhecimentos na política nacional e internacional, sabe que suas brigas não têm trégua: nem caído, nem preso, nem morto. Lula sabe bem disso. As caçadas que enfrenta desde os primeiros passos na política não lhe deixam ter surpresa mesmo diante de um STF esfarrapado para tentar dar conta de seu peso político e, claro, cumprir seus compromissos com o golpe. Lula segue. Até mesmo a cela é sede para fazer política, Lula sabe. Quem ergueu a cabeça tão alto certamente sabe que ela sempre esteve a prêmio. Lamentamos que ele tenha que enfrentar mais essa, mas sua travessia segue: por nós, conosco.

20180406_081218

[sexta, 8h15] São muitos os que querem uma fatia da fama de Lula. Babam de fome pelas migalhas que caem da mesa em que é servido o banquete dos verdadeiramente importantes. Há muitos anos é assim: bater em Lula é o atalho para os quinze minutos de fama de muita gente medíocre. “Jornalistas” que se projetam gritando horrores contra Lula, colunistas que penduram a melancia da polêmica no pescoço afirmando qualquer besteira sobre Lula, “escritores” de livros bombásticos sobre Lula, atores e atrizes cheios de medo e ódio, youtubers fanáticos por caretas e conspirações, políticos sem nada mais que ódio a oferecer e, claro, juízes que, sem Lula, arrastariam seu triste partidarismo pelos tribunais e perseguiriam ladrões de chinelo entre um recesso e outro. E tudo isso vai seguir assim: os policiais, os carcereiros, os delegados, todos que estiverem por perto de Lula vão caprichar na foto para mandar pra família, pros amigos e, quem sabe, até mesmo cacifar uma campanha a vereador. Ou uma fantasia de carnaval. Se fossem honestos, diriam, como nós, “Lula, muito obrigado”. Sem esperar tanta gratidão, Lula, gigante, vai seguir distribuindo esses farelos para a fome insaciável de quem o detesta, mas ama gritar seu nome e divulgar sua imagem. Sem problemas: tem pra todos. Sempre teve e terá.

 

[sexta, 9h58] MÃOS DADAS

Carlos Drummond de Andrade

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

 

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

____________________________________________

Ao fim de uma quinta-feira puxada, que começou antes das 7h em São Bernardo e terminou depois das 22h em Guarulhos, passando por São Paulo, salas de aula, trânsito, petições, textos etc., ninguém recomendaria seguir para uma manifestação política. Mas eu fui. Precisava ir. O cansaço desaparece, o ânimo ganha força. Estar ali no meio daquelas pessoas com suas camisetas vermelhas e olhos cheios de apreensão e esperança. Sim, apreensão e esperança, e esta esperança talvez só consiga aparecer ali no meio das outras pessoas apreensivas, mas dispostas a apoiar, resistir, cantar os mesmos cantos para o futuro. Dispostas a continuarem juntas, mesmo nas horas mais difíceis. Aliás, justamente nas horas mais difíceis! Como diz o poema de Drummond, meus companheiros “estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”. Nutrem grandes esperanças porque seguem de mãos dadas, não se afastam muito. É isso. Se puder, venha dar as mãos para os companheiros em São Bernardo. Hoje, encher aquelas ruas em volta do Sindicato é o que há de mais importante a ser feito. Por hoje e pelo amanhã. Por todos nós.

socialismo

[sexta, 12h45] Na luta por Lula hoje lutamos por bem mais. Lutamos pela possibilidade de lutar, de continuar lutando, que vai além de Lula e é fundamental para todos, para bem mais do que todas as pessoas que estão aqui em São Bernardo apoiando Lula. Não custa lembrar: «[…] se tal é a tendência das coisas neste sistema, quer isto dizer que a classe operária deva renunciar a defender-se contra os abusos do capital e abandonar seus esforços para aproveitar todas as possibilidades que se lhe ofereçam de melhorar em parte a sua situação? Se o fizesse, ver-se-ia degradada a uma massa informe de homens famintos e arrasados, sem probabilidade de salvação. […] Se em seus conflitos diários com o capital cedessem covardemente ficariam os operários, por certo, desclassificados para empreender outros movimentos de maior envergadura. […] Ao mesmo tempo, e ainda abstraindo totalmente a escravização geral que o sistema do salariado implica, a classe operária não deve exagerar a seus próprios olhos o resultado final destas lutas diárias. Não deve esquecer-se de que luta contra os efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que logra conter o movimento descendente, mas não fazê-lo mudar de direção; que aplica paliativos, mas não cura a enfermidade. Não deve, portanto, deixar-se absorver exclusivamente por essas inevitáveis lutas de guerrilhas […]» MARX, “Salário, preço e lucro” (1865)

lula

[sábado, 5h52] SER LULA É CRIME. Você tem certeza que está diante de uma prisão política quando alguém é processado e preso não por causa de algo que tenha feito (na esfera policial), mas principalmente para que não venha a fazer algo (na esfera política). Quando a prisão apenas finge se referir a fatos passados (crimes), mas na verdade se destina a evitar fatos futuros (eleição). É a exata situação de Lula: toda a articulação excepcional para condená-lo sai à rua/mídia maquiada de “justiça”, mas, descaradamente, é uma medida para interferir na disputa eleitoral. Só não vê quem não quer.

lulão

[sábado, 19h20] ESTA CELA

 

o país é uma cela

com infinitas celas dentro

e dentro de cada um de nós

há milhares de celas

 

quando a noite é mais triste

nos abraçamos e gritamos

juntos o que queremos

da vida que vem pela frente

 

por um instante no abraço

ouvimos se afastarem os passos

daqueles que vêm toda madrugada

colocar mais uma grade

entre nós e nossos sonhos

 

seus pés são frios e fogem

não temos mais porque temer

 

mal acabamos de saber

da nossa própria prisão

e estamos maiores

e mais livres do que nunca

 

[domingo, 11h29] Lula é foda. Enquanto todos seus adversários, inimigos e a turma do “eu detesto o Lula” acharam que sua prisão seria o ato final da história que ele protagoniza há cinco décadas, quem olhou para o Sindicato dos Metalúrgicos desde quinta-feira tem certeza que tudo ali era o ato inicial de uma outra história. O ato inicial de uma história a ser construída, mas que começa com esse abraço em Lula, com essa luta por Lula livre, que bem sabemos que é uma luta pela nossa liberdade. Ninguém mais tem dúvida de que, ao lado do objetivo de tirar Lula das eleições, há outro ainda mais terrivelmente antidemocrático: deixar nas mãos da elite medíocre de sempre a definição dos rumos do país. Na ótica dos antilulistas, o país não pode ter lideranças populares, não pode ter imprensa verdadeiramente livre, não pode ter pensamento crítico nas salas de aula, não pode ter movimentos sociais, não pode ter lutas por direitos fora dos tribunais, não pode ter partidos de esquerda. Na ótica deles, ninguém pode vestir vermelho, afirmar-se de esquerda, defender o socialismo. Na boca deles, “pobre”, “analfabeto”, “nordestino”, “preto”, “puta” são xingamentos. É por isso que não basta, para eles, prender Lula; precisam também criminalizar sua defesa, criminalizar seus apoiadores, criminalizar qualquer palavra de apoio a Lula e a suas lutas, que são nossas. Mas, assim como o Brasil não cabe nos seus esquemas, Lula não cabe em suas gavetas. Era evidente que prenderiam Lula, porque todo o espetáculo dos últimos anos precisava entregar sua atração principal. Mas em Curitiba, na Globo, no STF já devem ter percebido o óbvio: prender Lula foi possível, mas mantê-lo preso é um problema imenso. É e tem que ser. Porque Lula vai ser lembrado todos os dias daqui em diante, não apenas em manifestações em todo o país, mas também por lideranças políticas, religiosas, artísticas etc. de todo o mundo. Imaginem aí uma lista de visitas para Lula nos próximos dias e nela estarão nomes grandes demais para qualquer carceragem. Mesmo enquanto estiver preso, a voz e a imagem de Lula estarão levando suas ideias pelo país, pelo mundo. Já há alguns anos que a direita tem tentado impor um toque de recolher para nossas ideias. Temos que ouvir, no ambiente de trabalho ou no encontro com os amigos, as piadas mais estúpidas sobre os símbolos da esquerda, mas reagir a elas era sempre visto como uma radicalização de nossa parte, como uma outra prova de que os “esquerdistas” são intolerantes. Se a prisão de Lula for o último ato de alguma história, que seja da história do nosso silêncio cordial, do constrangimento que lançaram sobre nós. Para além disso, que tudo o mais seja começo. Que nossos gritos – de dor, de luta, de apoio – sejam ouvidos e respeitados. Guardem seus rojões que o jogo ainda não terminou.

heineken

Domingo [15h48] Ouvi dizer que comunistas estão espalhando por aí uma cerveja que tem uma estrela vermelha e que isso tem a ver com a alegria do Lula na final do Paulistão.

 

Domingo [18h18] É pra você, Lula!

lula sócrates

Domingo [20h30] LUÍS INÁCIO NA CELA

Manuel Bandeira [adaptação]

 

Luís Inácio preto

Luís Inácio bom

Luís Inácio sempre de bom humor

 

Imagino Luís Inácio entrando na cela:

— Licença, meu branco!

E o carcereiro bonachão:

— Entra, Luís Inácio. Você não precisa pedir licença.

 

Segunda [7h58] Primeira segunda-feira da era #lulalivre. Tempo de manter a calma, a concentração e a atuação perseverante. Tempo de reflexão e de reforçar posições. Tempo de luta. Os últimos dias foram muito intensos, saímos cansados, mas melhor orientados sobre os caminhos a seguir. As palavras e imagens que circularam aqui (mesmo quando eram mais provocativas…) cumpriram a função de unir quem estava sofrendo em todos os cantos e transformar a angústia em energia para a luta. E cumpriram também a função de demarcar o território: desfazer amizades com quem não apenas comemora a prisão de Lula, mas quer tripudiar sobre quem pensa diferente, espalhando ofensas que vão bem além de Lula. E, de outro lado, fazendo amizades novas no meio da luta. É disso que mais precisamos agora: afinar, dentro do nosso campo, as ideias que vão nos manter unidos e possibilitar que saiamos dessa tempestade mais fortes. Não é hora de gastar energia respondendo a provocações, piadas, mentiras. É hora de impor nossas pautas. Manter a atenção na liberdade de Lula, mas não esquecer que ela é o primeiro passo de uma caminhada longa. Bora lá. Boa semana a todos.