A luta continua

APS

A luta continua? Sim. Estava lendo “A verdade vencerá”, livrão que a Boitempo lançou há pouco com uma longa entrevista de Lula, e me deparei com essa foto. Lula saindo do Sindicato dos Metalúrgicos em 1979. A foto já é forte o bastante para quem está hoje, quase quatro décadas depois, vendo o mesmo personagem no centro da convulsão política do país, mas, para mim, bateu ainda mais forte ver aquela cabecinha ali atrás: o advogado e escritor Antonio Possidonio Sampaio, que nos deixou, aos 84 anos, em junho de 2016. Trabalhar quase 20 anos numa mesa há poucos metros da sua deve ter me marcado mais do que imagino. E, mais do que podíamos imaginar, a história se repete por aqui. Pois é… os amigos vão embora, mas seus exemplos e suas lutas seguem conosco. No dia seguinte à intervenção, a Folha de S. Paulo publicou a seguinte nota:

«LULA, O FIM DE UM LÍDER?
Luíz Inácio da Silva, 33 anos, casado, três filhos, torneiro mecânico da Villares, Cr$ 18 mil cruzeiros mensais, está perpetuamente excluído de qualquer participação em cargos diretivos de entidades de classe, se literalmente obedecido o artigo 530 da CLT. Como Benedito Marcílio, de Santo André, e João Lins Pereira, de São Caetano, Lula foi substituído ontem, na direção do Sindicato de São Bernardo e Diadema, por um interventor federal.
A intervenção já era esperada por Lula, que surgiu como dirigente sindical em 1972, quanto ocupou cargo ao qual estavam afeitas as questões de previdência social na diretoria de seu Sindicato. Em 1975, elegeu-se pela primeira vez presidente, e em abril do ano passado foi confirmado no posto com 97,3% dos votos. Este seu segundo mandato deveria terminar em abril de 1981.
Ontem, Lula afirmou que deixava a presidência do sindicato com a consciência tranquila, pois “não traíra a classe dos trabalhadores”. Disse que o movimento grevista continuaria, porque era uma decisão de 80 mil trabalhadores em assembléia e não apenas dele: “Se hoje ainda não chegamos à vitória, tenho absoluta certeza de que a classe trabalhadora saberá lutar para conquistar o seu lugar na sociedade”.»

Que assim seja. Continuemos na luta.

Anúncios

No centro da roda viva, Lula

lula boulos

Muito importante ver Guilherme Boulos no centro da roda. Não só dessa Roda Viva infelizmente tão apequenada na hora de escolher os entrevistadores, mas das rodas de debate sobre como deve ser um Brasil mais justo, em todos os campos.
Já estamos acostumados a ver as ideias mais relevantes da esquerda colocadas para fora do debate político nas arenas da direita. Falar em superação do capitalismo e defender o socialismo são posturas que nunca couberam nos esquadros da “grande” imprensa.
E, também por isso, até mesmo as figuras que se destacam à esquerda são levadas a um debate que, normalmente, é circunscrito às pautas e possibilidades mais ou menos admissíveis no centro e até na direita. O raio da discordância é pré-determinado.
Boulos, no entanto, sabe dessas ciladas e, por isso, teve tanta desenvoltura ontem. Não se deixou prender nos limites do debate que interessa aos entrevistadores. E a gente sabe: o discurso que tem feito sucesso à(s) direita(s) não tem a menor condição de se contrapor ao de quem pensa as questões do país a partir da e contra a desigualdade social.
Enquanto falamos de Boulos aqui, a notícia do lado de lá é o encontro entre uma atriz de quinta categoria e o procurador jejuno do powerpoint… Mesmo a cartilha anticorrupção, que arrastaram até aqui, não é mais capaz de esconder seu uso parcial contra o PT. Salvo nos casos mais patológicos de antipetismo e paixão destrutiva por Lula, já há bastante silêncio no apoio à Lava Jato.
Diante disso, não podemos deixar de desqualificar esse debate “constragido” pela direita (em que até opiniões criminosas são admitidas!) e, de outra parte, qualificar cada vez mais à esquerda a pauta que importa para a maioria dos brasileiros. Boulos vai ser fundamental nesse processo, mas o nó a desatar ainda é o destino do presidente Lula.
Se o golpe conseguir tirá-lo completamente da disputa, não temos porque acreditar que uma candidatura até mesmo mais radical, como a do Boulos, vai ser tolerada. O golpe, no caso de Boulos, vai se antecipar às urnas (já coloque nessa conta os ataques à luta por moradia que temos assistido), como era com Lula nas suas primeiras candidaturas, quando seu discurso também eriçava os cabelos de outras rodas de entrevista.
Boulos nos anima, claro, mas ainda é cedo para tirar Lula do baralho, por mais complicada que seja a situação atual. Boulos mesmo disse: “Lula está vivo e é candidato”, porque até mesmo suas chances passam por aquela cela em Curitiba. Se Lula não estiver livre, é pouco provável que alguém na esquerda esteja. No mínimo, em termos eleitorais.

Vozes Versos | Quelônio

20180503_101542

Meu xodó! Essa coleção das plaquetes do Vozes Versos, feita nas oficinas da Editora Quelônio, está cada dia mais linda. E vai se tornando uma bela mostra do que anda acontecendo na poesia brasileira em nosso tempo. Até dezembro, serão 49 poetas. Já temos 8 plaquetes já lançadas, com poemas de Cide Piquet; Júlia Studart; Manoel Ricardo de Lima; Alberto Bresciani, Ana Estaregui e Marceli Andresa Becker; Thiago Ponce de Moraes, Micheliny Verunschk e Marcos Siscar; Marília Garcia, Paulo Ferraz e Joana Barossi, traduzindo Nicanor Parra; Francesca Cricelli, Marcelo Sandmann e Reynaldo Damazio; Ademir Assunção, Diana Junkes e Matheus Guménin Barreto; no encontro de 19 de maio, chegam André Luiz Pinto, Guilherme Gontijo Flores e Mônica de Aquino. Além delas, está no forno, para breve, a plaquetona “Primeiras Vozes”, reunindo os 13 poetas que participaram dos encontros anteriores à parceria com a Quelônio: Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen, Reuben Da Rocha, Iago Passos, Julia de Souza, Ruy Proença, Dalila Teles Veras, Renan Nuernberger, Lilian Aquino, Annita Costa Malufe, Fabiano Calixto e Rita Barros. Se você é de São Paulo, compareça aos encontros na Tapera Taperá para ouvir os poetas e adquirir as plaquetes. Se não puder, entre em contato com o Bruno e a Silvia da Quelônio (quelonioeditora@gmail.com) para adquirir as plaquetes anteriores e/ou fazer assinatura da coleção completa com 15 plaquetes. 🙂

São Paulo, Edifício Wilton

1

[1/5/2018, 6h53] Ainda não sabemos o que causou o incêndio num prédio de 26 andares no centro de São Paulo. Não sabemos quantas e quem são as vítimas do desabamento. Talvez nunca saibamos bem. Famílias em busca de moradia. Muitas famílias, como tantas outras espalhadas pela cidade. São Paulo é uma das cidades mais ricas do mundo, mas em São Paulo algumas das pessoas mais pobres do mundo lutam para sobreviver. Morrem lutando por qualquer coisa parecida com uma casa, alguma comida, o que der pra fazer. Há quem ache isso normal, há quem culpe os miseráveis pela miséria. O governador diz que era uma “tragédia prevista” e já indica que vai usar essa tragédia para combater outras ocupações. É sempre assim. E é inevitável relacionar essas cenas de incêndio e desabamento, atingindo famílias pobres, com a situação vivida pelo país neste momento. Um país em chamas. Um país desabando. Um país em que aqueles que estão nas piores condições são vítimas de tragédias ainda maiores. Em que toda a pobreza, a precariedade e a insegurança cobram sua conta em mortes. Nesse fogo, nesses escombros, há um retrato do país. Um retrato terrível.

 

[15h39] Era 11 de julho de 2017. Eu estava com Carlos Augusto Lima andando por São Paulo e tirei esta foto de dentro da Galeria do Rock. O prédio estava lá. Como um monumento contra as injustiças da cidade. Um monumento feito com as injustiças da cidade. E agora se foi.

2

[18h23] Michel Miguel Elias Temer Lulia. Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho. Márcio Luiz França Gomes. João Agripino da Costa Doria Jr. Bruno Covas Lopes. Sabemos que, antes deles, outros também têm sua parte de responsabilidade pela tragédia de hoje. Sabemos que, depois deles, outros continuarão indiferentes ao destino da maior e mais pobre parcela da população. Não me importa o nome-fantasia que usam nas eleições, as mentiras que contam, as caras e bocas que fazem. O que me importa agora é registrar esses nomes. Por inteiro. Nomes de homens brancos e ricos que grande parte de nós tem escolhido para – ou tolerado – que sejam nossos representantes. Nomes que nunca vão aparecer na lista de mortos em situação de vulnerabilidade. Ou na lista das pessoas que correram de suas casas de madrugada deixando tudo – roupas, documentos, parentes – para arder no fogo. Nenhum nome deveria aparecer nessas listas. É o que eu acredito. Mas aqueles senhores, na primeira oportunidade que têm, tripudiam das vítimas. Culpam as vítimas. Dizem um sonoro “bem feito, eu te disse”. Em nenhum lugar em que eu leia esses nomes ficarei feliz e concordarei com a presença deles. Muito menos numa urna. Muito menos na lista dos eleitos. Temos sido, desde muito tempo, falsamente representados por gente que, na verdade, representa poucos, bem poucos. Michel Miguel Elias Temer Lulia, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, Márcio Luiz França Gomes, João Agripino da Costa Doria Jr. e Bruno Covas Lopes, no entanto, me parecem representar ainda menos pessoas – e rir, sem dó, de todas as demais.

 

[22h23] Sequer esfriaram os escombros, a GloboNews já mostra suas garras: está passando uma matéria sobre outras ocupações e “seus riscos”… A estratégia é simples: colocar a população (ainda mais) contra os movimentos de luta por moradia, agora com o discurso de que as ocupações são precárias e, portanto, irresponsavelmente perigosas. Não podemos acusar ninguém de dar causa ao incêndio e desabamento de hoje, mas temos o dever de acusar esses usos escrotos de uma tragédia para reforçar os ataques da elite ao povo em defesa de seus interesses. A Globo, como de costume, é a voz dessa elite sem escrúpulos.

3

[2/5, 12h28] SEM TETO

 

são cerca de 500

quinhentos mil

mil vezes quinhentos

imóveis desocupados

vazios vagos sem ninguém

na grande – grande –

são paulo

 

toda vez que passar

por alguém que mora

mora, digo, vive

digo, sobrevive, submora

nas ruas, digo, nas calçadas

digo, nas ocupações

sob lona, cama de papelão

 

lembre-se

 

são 500 mil imóveis

digo, quinhentas mil

possíveis casas

sem ninguém

na região metropolitana

mais rica do país

 

toda vez que ouvir

o prefeito dizer

que não foi nada

toda vez que ouvir

o governador dizer

favas contadas

toda vez que ouvir

os jornalistas dizendo

que “imóveis sofrem

invasões”, deixe-se invadir

pela memória de que

há mais casas sem gente

do que gente sem casa

 

(e gente sem casa

é quase como não ser gente

e casa sem gente

é quase como não ser casa)

 

mas as portas estão

tristemente trancadas