Dois tostões

drummond

(1)

 

«Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.»

 

Carlos Drummond de Andrade

 

(2)

 

Na política, vista na perspectiva do eleitor do Boçalnaro, tudo o mais é esquerda. Há uma explicação objetiva aí: de fato, tudo está à esquerda da extrema-direita. Mas há um componente subjetivo que é dos mais difíceis de enfrentar: o medo. Um medo incompreensível de que venha da esquerda o fim do mundo (de que mundo!?). Contra Haddad ou Ciro no segundo turno, não vejo grande diferença com relação à mistificação do “radical de esquerda”, do “comunista”, do “petista” (Ciro, aliás, foi governo com o PT e, num eventual segundo turno, será ainda mais “petista” ao ter o apoio do partido). Não leio quase nada do que circula entre os eleitores de Boçalnaro; o pouco que leio, no entanto, me faz perder qualquer esperança de convencimento, de apaziguamento, de composição. São tantas as irracionalidades dessa defesa da “tradição, família & porrada”, que, na comparação, Meirelles soa quase como uma esquerda libertária. Nesse meio em que se difunde a “ameaça” de que “o PT vai tomar as crianças dos pais”, chego a acreditar que, se Amoêdo fosse ao segundo turno, teria que lidar com acusações de bolivarianismo. Enfim, esse me parece ser o maior problema com que teremos que lidar não apenas num segundo turno (com Haddad ou Ciro), mas daqui para a frente. Ganhe quem ganhar, entraremos em 2019 com uma sociedade ainda mais dividida, embrutecida, intolerante. Tudo aquilo que parecia ser piada de mau gosto – do ator pornô virar liderança política conservadora até um STF cada vez menos disposto a dizer o óbvio sobre a Constituição – já está dado na realidade. Temos, já, uma sociedade que rejeita violentamente a informação, a reflexão, a ponderação. Uma sociedade de ouvidos tapados, xingamentos na ponta da língua e punhos em riste. A eleição é importante, meus caros, mas não vai varrer da realidade toda essa violência. As urnas podem potencializar isso (se Boçalnaro ganhar), mas infelizmente são incapazes de reverter esse quadro (se Haddad ou Ciro ganharem). Nosso trabalho é bem mais amplo do que mudar votos: é mudar corações e mentes para bem mais do que um domingo. Por isso, tente convencer seu amiguinho que é Haddad a virar Ciro e vice-versa, mas não é hora de rachar ainda mais o frágil teto da casinha em que vamos ter que nos proteger da chuva forte que vem por aí. E a chuva, vocês sabem, não pergunta de quem é a culpa. Apenas cai. Não nos afastemos muito.

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