Quando a delicadeza é uma afronta

IMG_20191128_101234_958

Dizem as boas línguas que o segundo número da antologia poética da CULT já está chegando às bancas e livrarias, bem como às casas de quem comprou pelo site. Fiz a curadoria dos poemas: Adelaide Ivánova, Alberto Pucheu, Ana Estaregui, Ana Martins Marques, Andreev Veiga, Bianca Gonçalves, Carlos Augusto Lima, Casé Lontra Marques, Chantal Castelli, Dalila Teles Veras, Diana Junkes, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Fabiano Calixto, Fabrício Marques, Fernanda Marra, Izabela Leal, Jeanne Callegari, Júlia Studart, Leonardo Fróes, Leonardo Gandolfi, Luci Collin, Luna Vitrolira, Manoel Ricardo de Lima, Marcelo Ariel, Marcelo Montenegro, Matheus Guménin Barreto, Micheliny Verunschk, Renan Nuernberger, Reynaldo Damazio, Sara Síntique e Simone Brantes. E o Fernando Saraiva cuidou do projeto gráfico e da seleção dos artistas que ilustram o volume: Amanda Copstein, Elisa Carareto, Jade Marra, Julia Coppa, Karen Hofstetter, Leandersson (capa e cartaz), Marcela Cantuária, Mayra Martins Redin. Sou suspeito, mas ficou muito bonito e forte mesmo. Muito feliz de ajudar a seguir em frente essa história, movida pela paixão da Daysi Bregantini por poesia, iniciada pelo Alberto Pucheu e, se vocês ajudarem comprando e divulgando (hehehe), a ser continuada por mais curadores, autores e artistas deste estranho país. Muito obrigado a todos vocês!

Livres?

lula-nos-bracos-do-povo120718

Diante da decisão correta do STF, é no mínimo curioso que a “grande” imprensa e seus “especialistas” repitam que, segundo números do CNJ, quase 5000 presos podem ser “beneficiados”. Que “benefício” é esse de ser solto depois do reconhecimento de que parte da sua vida (meses, anos) se passou indevidamente dentro de uma cela? Um minuto de prisão indevida é um absurdo, um prejuízo irreparável, para qualquer pessoa. Falar em “benefício” e esquecer desse prejuízo é não apenas impróprio, mas cruel. No caso do presidente Lula, então, a crueldade não para por aí, muito menos se restringe à pessoa dele. O que significa esse “benefício” de soltá-lo agora diante dos 579 dias preso com base numa decisão agora reconhecida como inconstitucional e oriunda de um processo absolutamente viciado pela suspeição do juiz, como o STF também vai reconhecer em breve (ou terá que fazer uma ginástica imensa para dizer que o atual ministro Moro, não apenas pelo que The Intercept vazou, era imparcial na condução dos processos contra Lula, adversário do seu novo chefe)? E qual o peso desse “benefício” para compensar tudo o que foi e tem sido feito neste país por um governo que, para se eleger, precisou da prisão de Lula? Qual o poder curativo desse “benefício” diante dos danos causados à vida pessoal de Lula, que não pode enterrar um dos seus irmãos e foi escoltado pela polícia no enterro de seu neto? Chamar essa soltura tão tardia de “benefício” é uma tentativa de apagar todos os significados da prisão de Lula, para ele e para a democracia brasileira, bem como para as condições de vida do povo, que agora tem que lidar com um governo destruidor. A soltura de Lula, claro, é importante, é justa, é urgente. A decisão do STF, no entanto, será um benefício real se aproveitarmos para reconhecer que tudo o que se fez depois da prisão de Lula – não apenas contra ele, mas contra o país – deve ser revisto, porque a liberdade e a dignidade de que precisamos vai bem além de tudo que o STF garantiu hoje.