Chico ri

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Chico ri, ri muito, ri largo, desde sempre. Chico está sempre sério. Batendo em coisas sérias, mas ri. A capa antiga que virou meme no nosso tempo tem Chico rindo. Tem Chico sério ao lado, claro, mas a dupla de Chicos – um sério e um rindo – nos faz rir. É uma capa engraçada, enfim. Porque Chico ri e quer fazer rir, rir das coisas sérias, rir nervoso às vezes. Da mesma forma que dá para atravessar os álbuns todos de Chico contando sua relação com sonhos e pesadelos (e que belo trabalho seria!), é possível contar a história de Chico rindo. Desde a primeira música de seu primeiro disco, “A banda”, ele joga com o poder que as “coisas de amor” têm para abrir nosso sorriso, para desfazer a nossa cara fechada. Quando a banda vai embora, voltamos a ser tristes, e é por isso que a banda tem que voltar sempre. É por isso que temos que ir atrás da banda. E todos os discos do Chico, de lá pra cá, nos fizeram rir. Foram “a banda” que passou pela nossa vida. Chico sabe, como os velhos latinos, que rir pode ser a nossa forma mais eficaz de abalar a rigidez dos costumes: “ridendo castigat mores”. Estou tentando parar de falar do disco novo, mas é difícil. Ontem arranquei mais duas ou três camadas de algumas canções enquanto estava no ônibus. Hoje, no banho, me peguei rindo com o Chico. E como o Chico ri em “Caravanas”. Começando pelas imagens divulgadas durante a gravação do disco: Chico ri com o neto, ri com a neta, ri com a banda, ri sozinho. Chico parece se divertir demais enquanto prepara o disco. E tem muitas razões para rir. A cada faixa do disco, enquanto constrói melodias riquíssimas e letras com um acabamento e força admiráveis, no seu mais alto nível, Chico ri. As letras riem, castigam nossos tempos e suas tantas aberrações. E, certamente, Chico ria ao pensar na forma como suas canções seriam recebidas. Faixa a faixa, Chico ri. Já de cara, em “Tua cantiga”, Chico coloca juras exageradas de amor extraconjugal, que culminam em “largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”. Chico sabia que isso ia dar confusão, ainda mais vindo de alguém que passou por algo parecido há pouco. Mas Chico vai lá, rindo, e começa assim o disco mais “família” que já fez, com neto e neta participando com destaque. Em “Blues para Bia”, Chico fala de um cara apaixonado por uma moça cujo coração não tem lugar para meninos, mas promete virar “menina pra ela me namorar”. Daí ele vem com “A moça do sonho”, em que o cantor se apaixona por uma moça que lhe aparece no sonho e não quer mais sair de lá. E o disco segue, passa pela canção que ele dedica ao futebol, “Jogo de bola”, em que brinca com as palavras como quem brinca com a bola no futebol moleque a que a música rende homenagem (“vivas às marias chuteiras cujos corações encandecias/ outrora quando em priscas eras/ um Puskas eras/ a fera das feras da esfera”) e depois, em “Massarandupió”, revira os versos como criança cavucando o mundaréu de areia à beira-mar (“cavuca daqui, cavuca de lá, cavuca com fé”). “Dueto”, então, é uma longa risada: em defesa do amor, Chico e sua neta mandam se danar o calendário, a ciência, o evangelho, os búzios, tudo, se ousarem negar o amor entre os dois que falam na canção. No final, quando fala o nome de diversas redes sociais, Chico ri mesmo ao lembrar do Orkut! Lembram daquela turma que mandava o Chico pra Cuba? Pois bem, ele foi e voltou de lá com “Casualmente”, a sétima faixa, misturando português e espanhol, zanzando pelas ruas de Havana. Mas o Chico ia responder pra esses boçais? Sim, com leveza, falando de amor, falando de amor e rindo. E à turma toda que o chamou de vagabundo e que o atacou nas ruas e em restaurantes? Ele dedicou o tapa suave que é “Desaforos”: “Alguém me disse/ Que tu não me queres/ E que até proferes desaforos pro meu lado/ Fico admirado por incomodar-te assim/ Jamais pensei/ Que pensasses em mim // Nunca bebemos do mesmo regato/ Sou apenas um mulato que toca boleros / Custo a crer que meros lero-leros de um cantor/ Possam te dar tal dissabor // Vejo-te a flanar pela avenida/ Como dama florescida num viveiro/ E em salões que nunca vi/ Serei o primeiro a duvidar/ Que em horas vagas/ Os teus lábios delicados/ Roguem pragas por aí// Ouço dizer, mas deve ser mentira/ Nem a tua ira eu acredito que mereça/ Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu/ Um vagabundo como eu”. E sai assoviando. Pra fechar, ele vem com a mais-que-comentada “As caravanas”, em que escarnece da “gente ordeira e virtuosa” que é a sua vizinhança na zona sul do Rio de Janeiro, apavorada por esses terroristas que descem para o asfalto no domingo ensolarado: “Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ Que estoura as veias, o suor/ Que embaça os olhos e a razão”. E Chico deve rir lá agora no seu canto sabendo que fez boa parte dos seus fãs sisudos sentir a batida do funk forçando o esqueleto. Chico deve rir muito. E a gente precisava tanto desse disco. A gente precisa tanto rir. Obrigado, Chico.

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Chico é isso tudo?

CHICO

Alguém tem que ter coragem de falar algumas verdades sobre esse disco do Chico Buarque. Pode pegar mal diante da empolgação generalizada dos meus amigos, mas alguém tem que ter coragem de dizer: não é isso tudo. Pego uma música ao acaso, “As caravanas”. Já começo a achar estranha a opção pelo “as” no título da canção que não aparece no título do disco. Falta de capricho, quem sabe? Mas vou ouvir a faixa. O violão vai puxando a música e, aos 7 segundos, já entra a voz estranha do cantor. Por que não tem aquele tempinho no início da faixa pra gente relaxar? Por que não cria primeiro o clima, espalha o arranjo com calma, pra depois começar a cantar? Não sei, mas achei que parece que ele quer dar a impressão de que há uma urgência nessa história de caravanas, aliás, nem de caravanas ele está falando: qualquer um percebe que é de arrastões que ele quer falar, mas não tem coragem, talvez. E por isso ele já canta logo, canta rápido, e o violão vai sendo engolido por um monte de instrumentos refinados, uma verdadeira orquestra, que depois sucumbe ao beat-box do mais impuro funk. À sombra dessas sonoridades todas, o que diz a letra? Ora, uma mistureba só! Primeiro, para que essas referências todas ao universo dos muçulmanos (a começar por “caravana”, palavra que vem do árabe; o jogo entre turco e turquesa reforçado pela referência a Istambul, com sua incomparável história de conflitos culturais, políticos etc.; as rimas de “estranhos suburbanos tipo muçulmanos”; até achar uma divindade escondida no Jardim de Alá, entre Ipanema e Leblon)? Será que ele quer dizer que a Zona Sul vê naqueles arrastões o terrorismo que o Ocidente pintou em todas as referências culturais do Oriente Médio? E, depois, por que insistir que os negros de hoje em dia têm a ver com os negros que chegaram aqui escravizados, espalhando pela letra um vocabulário que só faria sentido para falar do Brasil colonial, desde o “realeza” escondido no “real grandeza” do primeiro verso, para depois opor a “gente ordeira e virtuosa” aos “negros torsos nus”, e o exagero de falar que se pede à polícia não apenas que mande o “populacho” de volta para a favela ou para a prisão, mas para Benguela e Guiné, não só outro lugar no mapa, mas também um canto desconfortável da nossa história? Coisa antiga essa de “crioulos empilhados no porão de caravelas”! E essa coisa do “sol [de] torrar os miolos”, de dizer que “a culpa deve ser do sol/ que bate na moleira, o sol/ que estoura as veias, o suor/ que embaça os olhos e a razão”? É pra lembrar aquele debate também colonial sobre a (im)possibilidade de instalar a civilização num país tão quente, a cera das perucas da corte derretendo pra desdourar os bailes? E, de quebra, lembrar aquele poeta ex-estranho, o Paulo Leminski, que, no tortuoso “Catatau”, inventa a história de um Descartes perdido na selva tropical, louco de ervas e fluidos que não se dobram às suas regras e réguas? Não sei, tudo meio confuso, meio atropelado, meio em guerra, ainda mais em guerra na nossa cabeça por conta do que vai acontecendo na música… Repare no vocabulário esquisito para um cantor que até já fez letras refinadas: “pinta”, “bicho”, “buchicho”, “charanga”, “malocam”, “sungas estufadas”, “zoeira”… Até à mítica das “picas enormes” ele se refere (com “sacos [que] são granadas”), parecendo apontar para a conversa desses “supremacistas” que atribuem características “animalescas” aos negros para alimentar suas teses racistas. E há muitas outras insinuações, como se uma outra realidade viesse nessas palavras rasteiras que marcam a geografia do Rio de Janeiro – Arará, Caxangá, Chatuba, Irajá, Penha, Maré – e, no passar da letra, fossem se sobrepondo à bela Copacabana, que, depois da primeira estrofe, é apenas um eco, um som sufocado nas repetições de “caravana”. Na última estrofe, então, parece que ele escorregou mesmo. Além de apelar para um lema exagerado na boca da gente ordeira da zona sul – “tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria” – e de dizer que, nessas pessoas, “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, ele coloca tudo em dúvida ao admitir que talvez o doido seja ele mesmo, que escuta vozes, vê gente insana e até caravanas vindas de lugares com nomes estranhos. Sinceramente, não achei tudo isso, mas não vou falar mais nada para não chatear os fãs.

Carlos Felipe Moisés (1942-2017)

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(1)

Carlos Felipe Moisés foi embora. Foi encontrar novamente Margarida. Hoje cedo, mas eu soube agora. Quando o conheci, ele era um livro, depois outro, depois outros, até virar um amigo que parecia estar desde sempre por perto, uma espécie de mestre, Mestre, um monge dessa religião sem deus chamada poesia, que agora virou livros novamente, infinitos livros e textos e ideias e gestos, muitos gestos de afeto que nada vai apagar. Falamos há algumas semanas e ficou no ar a felicidade com a campanha do Corinthians, o próximo encontro na Urca, um livro novo na sua infinita gaveta. Ele me contou de seu “calo na aorta”, eu disse que não havia nada mais apropriado para um poeta, rimos, mas agora eu queria que aquilo fosse apenas uma metáfora. Ontem, no lançamento do livro de que participamos juntos, sua ausência era o assunto. Sabíamos que estava lutando, mas não havia tristeza porque sabíamos que Carlão era o mais forte de nós. E vai continuar assim, titular absoluto.

 

(2)

NOITE NULA

 

no sonho eu andava

sobre um tapete

que os livros com seu nome formavam pela casa

rebeldes saltados da estante

inconformados com sua morte

 

não havia mais palavras neles

e para onde eu olhava

via correr os seus versos

na pele viva da parede

no mármore da minha pele

no olho intenso do céu

 

e naquele momento

era como se todas as letras já escritas

girassem a milhões de quilômetros

por segundo para dizer

simplesmente: siga

 

seguimos, seus amigos,

e nosso mantra

era um poema-abismo

que roubamos de você:

 

«Eu me arquipélago

tu te maravilhas

ele se istma

nós nos montanhamos

vós vos espraiais

eles se eclipsam. »

 

no sonho não há adeus

não há deus não há dores

e as distâncias do mundo

e do além

cabem todas no abraço

 

não sei se é preciso acordar

 

(3) A gente normal, às vezes com 40, 50 anos, já parece, na vida, aquele funcionário que, 30 minutos antes do fim do expediente, já está arrumando a mesa para sair, fechando as gavetas, desligando o computador. Aos 40, 50 anos, já não atendemos mais as ligações da vida, porque podem atrasar nossa saída. Ontem, no velório do Carlão, falei para vários amigos que ele, aos 75, parecia estar chegando. Carlos Felipe Moisés, com tudo que já tinha trabalhado, parecia estar nas primeiras horas do dia que é nossa vida. Com o cabelo ainda arrumado no espelho da manhã e a leveza de quem teve uma ótima noite de sono. Nesse belo perfil na Revista Caliban, Ronaldo Cagiano fala que Carlão “nos deixa no auge de sua produção e vitalidade” – é exatamente a impressão que eu tinha. Ele tinha muito ainda para nos ensinar, muito mesmo, em todos os campos. Por isso a porta bateu tão forte.

https://revistacaliban.net/depoimento-um-intelectual-agudo-e-um-poeta-refinado-5dac231f467d

Doni: comigo, conosco

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Relendo os livros do poeta Donizete Galvão (1955-2014), para uma tarefa que divido feliz com Paulo Ferraz (em breve!), me peguei fazendo contas: quando nossa amizade começou, eu tinha pouco mais de 20 anos e, portanto, ele tinha pouco mais que a idade que tenho hoje. E desde sempre o interesse e o reconhecimento dele pelo que fazíamos eram admiráveis, verdadeiramente contagiantes, a ponto de nunca ter reparado essa diferença de idade antes. A generosidade dele (somada talvez à minha pretensão…) nunca deixou pousar qualquer distância geracional em nossa conversa. Mas Doni foi embora aos 58 – e como 58 é pouco para alguém como o Doni! Sua presença e sua falta estão ainda emaranhadas na cabeça e na agenda dos amigos que herdei dele, assim como nas minhas. De vez em quando, falamos do Doni ainda no presente. Se distrair, incluo seu email nas conversas coletivas. Nos últimos meses, por exemplo, ando numa febre de interesse por um desses universos que os duendes da leitura parecem deixar reservados para quando estivermos prontos, e tenho certeza que uma ou duas cervejas com o Doni seriam suficientes para que ele me indicasse o que ler nesse universo, assim como fez em tantos outros. Por falar em livros, encontrei aqui agora entre os que ele escreveu alguns que curiosamente não estão autografados para mim. E é estranho demais constatar que continuarão assim. Mas não fico triste, não posso. É um imenso privilégio ter sido amigo de alguém que passou pela vida perseguindo as palavras desses poemas e deixou tanto assim para seus amigos-leitores. Foi sua maneira de ficar um pouco mais. Uma vida entre livros que se eterniza nos livros que só ele poderia ter escrito. Só mais uma de suas generosidades. Comigo, conosco.

>>> E já anotem aí na agenda que, em 29/08, às 19h, na Casa das Rosas, haverá um encontro dedicado à poesia de Donizete Galvão, sob coordenação de Vera Lucia de Oliveirahttp://www.casadasrosas.org.br/agenda/poeta-da-carne-e-do-tempo

Íntimo desabrigo

Leia abaixo o texto de Carolina Serra Azul e Renan Nuernberger sobre meu novo livro de poemas, Íntimo Desabrigo, que sai em breve.

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«Contra nossos dias nebulosos, Íntimo desabrigo propõe um recuo estratégico: muitos poemas da primeira seção, “Não sei”, estabelecem uma rede de afetos, reforçada nas dedicatórias a familiares e amigos, que garante algum alívio e esperança nessas páginas. Há um desejo explícito de restaurar as vidas danificadas (“Eu queria ver as fotos em que Verônica está linda”), de reduzir a poluição sonora (“… acredito mesmo/ na eloquência/ do silêncio”), de transfigurar o cotidiano sufocante (“… a mágica de multiplicar o que importa”) – desejo que se instaura a partir do cultivo de lições simples, com certa feição oriental, como no poema “Nota para quando eu for um sábio chinês de um século distante”.

Por outro lado, esse cultivo da intimidade é atravessado pela violência objetiva, sinalizando o horror já entranhado nos sujeitos (“… soldados inimigos/ patrulhando/ suas veias”). Aqui, os elementos da natureza são corrompidos pelos signos da civilização (“céu de concreto”, “mar de desprezo”, “ondas do asfalto”, “tanto sol na tela fria”), apontando que, nas relações diárias, aquilo que acontece “não é da ordem dos astros. É desastre”. Há, com isso, um questionamento sobre o alcance da própria poesia, talvez escondida “sempre no avesso” dos lugares onde a procuramos – o que revela, ainda, a outra face do almejado silêncio (“soterrada sua pretensão/ de saber dizer tudo”).

Se, no recuo inicial, o sujeito se aparta do mundo (“daqui ouço a voz…”), no decorrer do livro percebe-se o entrelaçamento de ambos (“(e o mundo é mim mesmo)”), engendrando uma concepção de poema que, no limite, ambiciona desaparecer enquanto poema, como em “Feitio de oração”, para revelar a matéria de nosso tempo. Tal gesto fica evidente na seção dois do livro, “Novos poemas [2013-2014]”, e, sobretudo, na seção final, “Outros desabrigos”, nas quais os efeitos reais do horror social (“…Outro país se esvaiu, mais alguns foram linchados”) são reconstituídos esteticamente com incisiva crueza.

Não pense o leitor, entretanto, que o poeta abdica assim de seus instrumentos: o senso construtivo da poesia de Tarso de Melo reaparece, aqui, para ampliar o alcance político de seu gesto. Isso é evidente, por exemplo, na disposição dos versos de “Toda sentença é um antipoema”, cuja dimensão de ready made – trata-se da transcrição literal da sentença condenatória de Rafael Braga – é tensionada pela exposição sombria do funcionamento da justiça. A condenação de Braga, resultado da violência do Estado durante as manifestações de junho de 2013, é um documento revelador do racismo estrutural no Brasil (“a sua personalidade é voltada para a criminalidade”), como os textos do século XIX que justificavam “racionalmente” a escravidão. No futuro, quem sabe, seremos lidos com o mesmo espanto com o qual lemos o passado. Mas também seremos lidos por nossa capacidade de indignação frente à barbárie, como nesse Íntimo desabrigo

 

Para comprar o livro, é só clicar no link a seguir. Os exemplares, numerados e assinados, serão enviados a partir do início de agosto. Coedição Alpharrabio e Dobradura, 104 págs., R$ 25 [+ frete]. Clique aqui: https://pag.ae/bhmd6b2

A CLT e o triplex: notas sobre duas condenações

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O golpe segue golpeando: a vergonhosa publicação da sentença condenando Lula horas depois de ser aprovada a “reforma” trabalhista é apenas e tão-somente a prova escancarada da natureza político-eleitoral da Lava Jato, que tantos perceberam e acusaram desde seu início. Só não vê quem não quer a estratégia grosseira de abafar o noticiário e qualquer mobilização da classe trabalhadora com os plantões espalhafatosos dessa condenação em primeira instância, que, ao punir Lula sem provas, pode ser considerado como o ato final dessa encenação toda. Pouco importa o que virá depois: a condenação, a prisão ou até mesmo a reeleição de Lula, depois de tudo que está sendo feito sob as asas do golpe, passam a ser quase que tão-somente simbólicas. Se os Tribunais mantiverem ou não essa condenação, se Lula, por conta disso, for ou não candidato em 2018, o que temos que manter em mente é que a briga não se resolve mais na solução que vier daí. O buraco é muito mais embaixo, o poço é muito mais fundo e foi cavado com uma velocidade incrível enquanto olhávamos para o “juiz-herói” e o “japonês da Federal”. E continua sendo cavado enquanto ficamos vendo os fantasmas da nossa esperança girarem no ar.

 

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Tenho uma gaveta aqui em que arquivo arrependimentos. Numa das pastas guardo o que deixei de dizer por educação ou, se preferirem, cordialidade besta. Um desses arrependimentos diz respeito ao tempo que perdi, quando começou o processo bizarro que chamavam de impeachment, ouvindo pessoas falarem “veja bem, tem um tripé na acusação, pedaladas, decretos etc., o impeachment é previsto na Constituição, está sendo garantido o direito de defesa etc.” Enquanto eu ouvia isso, meio constrangido diante da fé jurídica (que, eu sei, é um bom lugar para esconder fé e má-fé políticas de todos os tipos) de meus interlocutores, a voz de Jucá saía de um áudio ensurdecedor e tomava os quatro cantos da casa. Na mesma gaveta guardo o que deixei de dizer para os entusiastas da Lava Jato, para o aluno que entrou na sala de aula com uma camiseta “In Moro We Trust”, para quem fala demais sobre uma sentença e calou e calará sobre todas as outras decisões que beneficiam políticos e seus parentes e sócios flagrados em situações absolutamente criminosas, mesmo quando escritas pelo mesmo juiz. O país, que nunca foi grande coisa, vai virando coisa menor ainda, esfregando na nossa cara suas tripas (repito: a sentença de Lula foi publicada horas depois da aprovação da morte da CLT e é impossível separar essas duas coisas e não ver a estratégia partidária/midiática/judicial que move esse moinho podre), e nós vamos ficar discutindo as filigranas disso e daquilo? De minha parte, não. Tudo o que o golpe quer é que eu acorde nesta quinta-feira e fique discutindo os detalhes da decisão. Veja bem isso, veja bem aquilo, veja bem… Do ponto de vista jurídico, o que tenho a dizer é simples: não pode haver sentença sem processo. Se todo o processo é uma farsa, o que resulta dele é farsa também. Mas não espero que da mentalidade majoritária do meio jurídico venha algo além de citações de artigos e brocardos e folhas e teses e todo um leque de mistificações para evitar dizer o nome verdadeiro do jogo que estamos assistindo. Arbustos carcomidos com que nos distraímos para não ver a floresta em que estamos perdidos. Enfim, não vai ser o direito que vai conseguir olhar de modo amplo e complexo para o que estamos vivendo, para colocar as coisas no seu devido lugar, para colocar esse processo e sua sentença e seus atores no lugar nanico que lhes cabe na História. Só um povo que não aceite ser nada menos do que protagonista da sua própria História será capaz de perceber e acabar com a farsa em que o barulho da tevê e a cantilena dos especialistas o enredam. Não quero abrir minha gaveta de arrependimentos hoje. Vou ali tomar um café.

Escreverpublicar

kane

De tempos em tempos, normalmente em meses um pouco mais tranquilos, lembro que tenho um blog. Então, volto para ver como andam as coisas. Olho para aquela ferramenta com carinho, fico pensando nas possibilidades que existem ali, na calma que aquilo oferece se comparado às redes sociais… e prometo que vou retomar. Ou ao menos cuidar melhor dele, ainda que em paralelo com o desespero do facebook. Daí passo a copiar para o blog as postagens que faço no facebook (a maior parte delas), organizando longos posts que reúnem o que escrevi durante meses (desta vez, fiz um para cada mês, de fevereiro a junho deste ano).

São saladas de assuntos, que eu bem poderia descartar, mas algo que diz que devo conservar todas essas linhas: as oscilações de humor e de opinião, os silêncios que eu posso reconhecer, a forma como me lembram dos fatos vividos em atropelo, as ideias que surgiram a partir dos debates que ocorreram nos comentários de amigos, a mescla-bagunça de preocupações com política, direito, cultura, poesia etc. (em que me reconheço plenamente), as razões de arrependimento e de algum orgulho.

Aliás, jogar fora essa versão transparente que faço de mim mesmo – leitor-vivente no meio do redemoinho – seria aceitar um excesso de orgulho que talvez acabasse me fazendo deixar de escrever ou, ao menos, deixar de expor o que penso/sinto. Isso poderia ser ótimo para os eventuais leitores (e até mesmo para que eu me dedicasse mais a tantas outras coisas que me interessam), mas me faria perder a chance de participar, de alguma maneira, de debates que são cruciais para nossa época. E, quem sabe, perderia também a chance de me autoanalisar a partir do que digo e do que não digo no calor do minuto. E, no fundo, seria também uma traição ao que mais gosto e quero da escrita: escrever é o nó mais forte entre intimidade e sociabilidade, entre controle e descontrole, entre a dor e a alegria mais pessoais e aparentemente intransferíveis e o acervo de dores e alegrias da vida comum. O poema, o conto, o romance, a peça, a crônica, o ensaio… são o lugar em que o “meu mundo” de alguém se desfaz no nosso mundo ou o nosso mundo se revela no “meu mundo” de alguém.

Por isso, escrevo. Por isso, publico. Por isso, cada vez mais repenso as mediações entre escrever e publicar. (E apresso, atropelo, salto sobre elas!) Por isso, aceito com felicidade o risco do ridículo de reler o que acabei de escrever quando outras tantas pessoas já tiveram a oportunidade de ler o meu ridículo. É o risco. Diria: um risco constitutivo. Por quê? Porque acredito que há uma instância da reflexão e da intervenção sobre o presente que tem que ser feita assim. Até pouco tempo, isso se chamava jornalismo, mas agora vai se convertendo cada vez mais numa teia em que temos não apenas a oportunidade, mas a urgência de participar. É uma loucura, é angustiante, triste, mas também excitante viver nessa espécie de sala de redação gigante do Jornal do Mundo, recebendo, checando, produzindo e trocando informações, entre mensagens, telefonemas, furos, cafés e cigarros. É muito otimismo? Talvez seja.

No livro de poemas que lançarei em breve, Íntimo desabrigo, essas ideias foram incorporadas ao processo de escrita. A maior parte dos poemas já foi escritapublicada. Assim, sem um espaço sequer entre os dois momentos. Ou seja, num momento só. Não sei se é o que se espera da poesia, mas, sinceramente, não faço questão de saber. Alguém já disse que poetas não são apenas pessoas que escrevem de uma determinada maneira, mas sim que estão condenados a escrever daquela maneira. Deve ser por aí…