Lula Livre Lula Livro

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Escritores e cartunistas lançam
livro-manifesto pela liberdade de Lula

 

Organizada pelos escritores Ademir Assunção e Marcelino Freire, antologia Lula Livre / Lula Livro reúne autores como Augusto de Campos, Chico Buarque, Raduan Nassar, Aldir Blanc, Alice Ruiz, Chico César, Frei Betto, Laerte, Eric Nepomunceno, Noemi Jaffe, Chacal, Caco Galhardo, Marcia Denser, Gero Camilo, Raimundo Carrero e Xico Sá, entre outros. O livro será lançado dia 28 no circuito Off Flip em Paraty.

 

Oitenta e seis escritores e cartunistas brasileiros, de todas as regiões do país integram o livro-manifesto Lula Livre / Lula Livro, coletânea de contos, poemas, crônicas e cartuns pela liberdade do ex-Presidente Lula.

Segundo os organizadores Ademir Assunção e Marcelino Freire a publicação manifesta o inconformismo dos autores, “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme o texto de introdução (leia a íntegra a seguir).

Ainda conforme os organizadores, “o propósito do livro é criar mais um fato de repercussão, a partir da tomada de posição dos escritores, poetas e cartunistas, para engrossar os movimentos nacionais e internacionais contra a farsa da prisão do ex-presidente – e o golpe anti-democrático que representa a sua exclusão do processo eleitoral de 2018.”

Além da versão impressa, com 184 páginas, Lula Livre / Lula Livro terá um site na internet com os contos, poemas, crônicas e cartuns e a disponibilização do PDF da publicação.

“Fazia muito tempo que os escritores não tomavam um posicionamento conjunto tão vigoroso. Os descalabros que estão acontecendo no País desde o golpe de 2016 é que criaram a necessidade dessa manifestação político-literária”, dizem Ademir e Marcelino.

Estão sendo planejadas ações junto aos movimentos sociais para divulgar e repercutir o livro-manifesto em todo o Brasil e também no exterior.

 

Segue o texto de apresentação:

 

LULA LIVRE / LULA LIVRO

 

“Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.”

Camões

 

Joseph K., o conhecidíssimo personagem de Franz Kafka, se vê enredado em um processo judicial cujas origens desconhece e cujo desenrolar vai se tornando cada vez mais obscuro, sórdido e absurdo.

O processo que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis.

Travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça (com J maiúsculo), ele obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória.

Orquestrado sob o pretexto de combate à corrupção – combate sempre bem-vindo e necessário – sua utilização camufla, porém, objetivos maiores: barrar as mudanças significativas que estavam em curso no país – muitas delas resultantes de demandas seculares –, principalmente a mais significativa, mas não a única: a retirada de 36 milhões de brasileiros do cinturão de miséria, através de políticas, programas e investimentos sociais reconhecidos e valorizados internacionalmente.

Como já visto em outros momentos da história recente, sob os mesmos pretextos e com métodos semelhantes, o que se concretiza é um golpe contra os interesses da maioria da população, para manter os privilégios de uma minoria.

Basta verificar que, logo após a consolidação da primeira etapa do golpe, uma das medidas aprovadas pelo Congresso Nacional foi a reforma trabalhista, que retira direitos históricos dos trabalhadores e agudiza ainda mais a crônica desigualdade socioeconômica brasileira.

É nesse contexto que surge este livro-manifesto. Mais do que um documento literário, o que se pretende é um documento claramente político, com as armas que os autores utilizam em seu fazer criativo: poemas, contos, crônicas, ensaios e cartuns.

Os 86 poetas, prosadores e cartunistas aqui reunidos – de todas as regiões do país – atenderam ao chamado, na urgência dos fatos em curso no Brasil, para manifestar seu inconformismo com a prisão política do ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

Em um prazo curto, de poucas semanas, autores “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme consignado no texto-convite enviado a cada um deles, fizeram questão de levantar a voz e enviar suas colaborações inéditas em livro.

O título é uma clara tomada de posição de todos os autores pela liberdade de Lula, mas a temática dos poemas, contos, crônicas e cartuns vai além: em rápidas pinceladas, determinadas pela urgência da iniciativa, procura manifestar o descontentamento com as mazelas de um país massacrado pela histórica e brutal desigualdade socioeconômica, e pelo retrocesso social, político, cultural e mental representado pelo golpe de 2016, quando a presidente Dilma Rousseff, eleita por 54.501.118 brasileiros, foi destituída através de uma manobra orquestrada por setores políticos, jurídicos e midiáticos, a pretexto de prosaicas e já esquecidas “pedaladas fiscais”.

O ódio abertamente fomentado na população por grande parte dos meios de comunicação de massa, o cinismo de acusações generalizadas, muitas vezes disparadas por notórios personagens aviltantes, e o escárnio com as regras do jogo democrático, manipuladas ao bel prazer de interesses obscuros, repetiram uma liturgia já vista em outros momentos históricos do Brasil, posta em prática sempre que se procura uma ordenação mais justa na vida social e econômica do país.

O propósito deste livro, portanto, é o de unir as vozes destes autores aos movimentos nacionais – e até mesmo internacionais – contra a farsa da prisão do ex-Presidente Lula, e contra a continuidade do golpe anti-democrático representado por sua exclusão do processo eleitoral de 2018.

Pelo fim da prisão política de Luiz Inácio Lula da Silva; pelo direito dos eleitores votarem –  ou não –  em sua candidatura para a Presidência da República; pelo retorno do Brasil à normalidade democrática, é que se deve a existência deste Lula Livro.

 

Ademir Assunção / Marcelino Freire

 

LISTA COMPLETA DOS AUTORES

 

ademir assunção * ademir demarchi * adriane garcia * afonso henriques neto * alberto lins caldas * aldir blanc * alice ruiz * andréa del fuego * antonio thadeu wojciechowski * artur gomes * augusto de campos * augusto guimaraens cavalcanti * beatriz azevedo * bernardo vilhena * binho * caco galhardo * carlos moreira * carlos rennó * celso borges * chacal * chico buarque * chico césar * claudio daniel * diana junkes * douglas diegues * edmilson de almeida pereira * edvaldo santana * eltânia andré * eric nepomuceno * evandro affonso ferreira * fabio giorgio * fabrício marques * fernando abreu * ferréz * frei betto * gero camilo * gil jorge * glauco mattoso * jessé andarilho * jorge ialanji filholini * josely vianna baptista * jotabê medeiros * juvenal pereira * karen debértolis * laerte * lau siqueira * linaldo guedes * lucas afonso * luciana hidalgo * luiz roberto guedes * manoel herzog * marcelino freire * márcia barbieri * márcia denser * maurício arruda mendonça * noemi jaffe * patrícia valim * paulinho assunção * paulo césar de carvalho * paulo de toledo * paulo lins * paulo moreira * paulo stocker * pedro carrano * raduan nassar * raimundo carrero * ricardo aleixo * ricardo silvestrin * roberta estrela d’alva * rodrigo garcia lopes * ronaldo cagiano * rubens jardim * sandro saraiva * sebastião nunes * seraphim pietroforte * sérgio fantini * sérgio vaz * sidney rocha * susanna busato * tarso de melo * teo adorno * vanderley mendonça * waldo motta * wellington soares * wilson alves bezerra * xico sá

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Covardes, Covards

marcus

COVARDES


Tarso de Melo

 

 

admiro

a fina coragem

dos covardes

 

quando cercam

com um bando de línguas

a língua da moça

e fazem os lábios dela

rirem de si próprios

para seu gozo

em alta resolução

 

quando se escondem

na multidão

que grita xinga ataca

em arquibancadas

e no conforto

sem nome

de novíssimos

e espertos telefones

 

quando passam

lá no alto

com suas hélices

e grossos calibres

apagando miseráveis

e manchando vidas

uniformes

 

quando se juntam

em rodas vivas

para matar mulheres

que tentam falar

que eles estão errados

 

quando passam

blindados

no céu ou no asfalto

sobre corpos esquálidos

 

quando cavam

com suas canetas douradas

infinitas covas

de setenta palmos

em folhas de sulfite

pagas pelo erário

 

quando quebram

com golpes de ódio e aço

os ossos frágeis

em que veem ameaças

 

é que mais admiro

a fina coragem

dos covardes

 

 

COVARDS

Trad. Josep Domènech Ponsatí

 

admiro

la delicada valentia

dels covards

 

quan envolten

amb un ardat de llengües

la llengua de la noia

i fan que els llavis d’ella

se n’enriguin de si mateixos

per al seu gaudi

en alta resolució

 

quan s’amaguen

entre la multitud

que crida insulta ataca

a les graderies

i en la comoditat

sense nom

de telèfons novíssims

i astuts

 

quan passen

allà dalt

amb les seves hèlixs

i grans calibres

eliminant miserables

i tacant vides

uniformes

 

quan s’ajunten

en cercles viciosos

per matar dones

que intenten dir

que ells s’equivoquen

 

quan passen

vehicles blindats

pel cel o per l’asfalt

sobre cossos esquàlids

 

quan caven

amb els seus bolígrafs daurats

infinites coves

de setanta pams

en fulls de paper offset

pagats per l’erari públic

 

quan trenquen

a cops d’odi i acer

els ossos fràgils

on veuen amenaces

 

és llavors quan més admiro

la delicada valentia

dels covards

A luta continua

APS

A luta continua? Sim. Estava lendo “A verdade vencerá”, livrão que a Boitempo lançou há pouco com uma longa entrevista de Lula, e me deparei com essa foto. Lula saindo do Sindicato dos Metalúrgicos em 1979. A foto já é forte o bastante para quem está hoje, quase quatro décadas depois, vendo o mesmo personagem no centro da convulsão política do país, mas, para mim, bateu ainda mais forte ver aquela cabecinha ali atrás: o advogado e escritor Antonio Possidonio Sampaio, que nos deixou, aos 84 anos, em junho de 2016. Trabalhar quase 20 anos numa mesa há poucos metros da sua deve ter me marcado mais do que imagino. E, mais do que podíamos imaginar, a história se repete por aqui. Pois é… os amigos vão embora, mas seus exemplos e suas lutas seguem conosco. No dia seguinte à intervenção, a Folha de S. Paulo publicou a seguinte nota:

«LULA, O FIM DE UM LÍDER?
Luíz Inácio da Silva, 33 anos, casado, três filhos, torneiro mecânico da Villares, Cr$ 18 mil cruzeiros mensais, está perpetuamente excluído de qualquer participação em cargos diretivos de entidades de classe, se literalmente obedecido o artigo 530 da CLT. Como Benedito Marcílio, de Santo André, e João Lins Pereira, de São Caetano, Lula foi substituído ontem, na direção do Sindicato de São Bernardo e Diadema, por um interventor federal.
A intervenção já era esperada por Lula, que surgiu como dirigente sindical em 1972, quanto ocupou cargo ao qual estavam afeitas as questões de previdência social na diretoria de seu Sindicato. Em 1975, elegeu-se pela primeira vez presidente, e em abril do ano passado foi confirmado no posto com 97,3% dos votos. Este seu segundo mandato deveria terminar em abril de 1981.
Ontem, Lula afirmou que deixava a presidência do sindicato com a consciência tranquila, pois “não traíra a classe dos trabalhadores”. Disse que o movimento grevista continuaria, porque era uma decisão de 80 mil trabalhadores em assembléia e não apenas dele: “Se hoje ainda não chegamos à vitória, tenho absoluta certeza de que a classe trabalhadora saberá lutar para conquistar o seu lugar na sociedade”.»

Que assim seja. Continuemos na luta.

No centro da roda viva, Lula

lula boulos

Muito importante ver Guilherme Boulos no centro da roda. Não só dessa Roda Viva infelizmente tão apequenada na hora de escolher os entrevistadores, mas das rodas de debate sobre como deve ser um Brasil mais justo, em todos os campos.
Já estamos acostumados a ver as ideias mais relevantes da esquerda colocadas para fora do debate político nas arenas da direita. Falar em superação do capitalismo e defender o socialismo são posturas que nunca couberam nos esquadros da “grande” imprensa.
E, também por isso, até mesmo as figuras que se destacam à esquerda são levadas a um debate que, normalmente, é circunscrito às pautas e possibilidades mais ou menos admissíveis no centro e até na direita. O raio da discordância é pré-determinado.
Boulos, no entanto, sabe dessas ciladas e, por isso, teve tanta desenvoltura ontem. Não se deixou prender nos limites do debate que interessa aos entrevistadores. E a gente sabe: o discurso que tem feito sucesso à(s) direita(s) não tem a menor condição de se contrapor ao de quem pensa as questões do país a partir da e contra a desigualdade social.
Enquanto falamos de Boulos aqui, a notícia do lado de lá é o encontro entre uma atriz de quinta categoria e o procurador jejuno do powerpoint… Mesmo a cartilha anticorrupção, que arrastaram até aqui, não é mais capaz de esconder seu uso parcial contra o PT. Salvo nos casos mais patológicos de antipetismo e paixão destrutiva por Lula, já há bastante silêncio no apoio à Lava Jato.
Diante disso, não podemos deixar de desqualificar esse debate “constragido” pela direita (em que até opiniões criminosas são admitidas!) e, de outra parte, qualificar cada vez mais à esquerda a pauta que importa para a maioria dos brasileiros. Boulos vai ser fundamental nesse processo, mas o nó a desatar ainda é o destino do presidente Lula.
Se o golpe conseguir tirá-lo completamente da disputa, não temos porque acreditar que uma candidatura até mesmo mais radical, como a do Boulos, vai ser tolerada. O golpe, no caso de Boulos, vai se antecipar às urnas (já coloque nessa conta os ataques à luta por moradia que temos assistido), como era com Lula nas suas primeiras candidaturas, quando seu discurso também eriçava os cabelos de outras rodas de entrevista.
Boulos nos anima, claro, mas ainda é cedo para tirar Lula do baralho, por mais complicada que seja a situação atual. Boulos mesmo disse: “Lula está vivo e é candidato”, porque até mesmo suas chances passam por aquela cela em Curitiba. Se Lula não estiver livre, é pouco provável que alguém na esquerda esteja. No mínimo, em termos eleitorais.

Vozes Versos | Quelônio

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Meu xodó! Essa coleção das plaquetes do Vozes Versos, feita nas oficinas da Editora Quelônio, está cada dia mais linda. E vai se tornando uma bela mostra do que anda acontecendo na poesia brasileira em nosso tempo. Até dezembro, serão 49 poetas. Já temos 8 plaquetes já lançadas, com poemas de Cide Piquet; Júlia Studart; Manoel Ricardo de Lima; Alberto Bresciani, Ana Estaregui e Marceli Andresa Becker; Thiago Ponce de Moraes, Micheliny Verunschk e Marcos Siscar; Marília Garcia, Paulo Ferraz e Joana Barossi, traduzindo Nicanor Parra; Francesca Cricelli, Marcelo Sandmann e Reynaldo Damazio; Ademir Assunção, Diana Junkes e Matheus Guménin Barreto; no encontro de 19 de maio, chegam André Luiz Pinto, Guilherme Gontijo Flores e Mônica de Aquino. Além delas, está no forno, para breve, a plaquetona “Primeiras Vozes”, reunindo os 13 poetas que participaram dos encontros anteriores à parceria com a Quelônio: Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen, Reuben Da Rocha, Iago Passos, Julia de Souza, Ruy Proença, Dalila Teles Veras, Renan Nuernberger, Lilian Aquino, Annita Costa Malufe, Fabiano Calixto e Rita Barros. Se você é de São Paulo, compareça aos encontros na Tapera Taperá para ouvir os poetas e adquirir as plaquetes. Se não puder, entre em contato com o Bruno e a Silvia da Quelônio (quelonioeditora@gmail.com) para adquirir as plaquetes anteriores e/ou fazer assinatura da coleção completa com 15 plaquetes. 🙂

São Paulo, Edifício Wilton

1

[1/5/2018, 6h53] Ainda não sabemos o que causou o incêndio num prédio de 26 andares no centro de São Paulo. Não sabemos quantas e quem são as vítimas do desabamento. Talvez nunca saibamos bem. Famílias em busca de moradia. Muitas famílias, como tantas outras espalhadas pela cidade. São Paulo é uma das cidades mais ricas do mundo, mas em São Paulo algumas das pessoas mais pobres do mundo lutam para sobreviver. Morrem lutando por qualquer coisa parecida com uma casa, alguma comida, o que der pra fazer. Há quem ache isso normal, há quem culpe os miseráveis pela miséria. O governador diz que era uma “tragédia prevista” e já indica que vai usar essa tragédia para combater outras ocupações. É sempre assim. E é inevitável relacionar essas cenas de incêndio e desabamento, atingindo famílias pobres, com a situação vivida pelo país neste momento. Um país em chamas. Um país desabando. Um país em que aqueles que estão nas piores condições são vítimas de tragédias ainda maiores. Em que toda a pobreza, a precariedade e a insegurança cobram sua conta em mortes. Nesse fogo, nesses escombros, há um retrato do país. Um retrato terrível.

 

[15h39] Era 11 de julho de 2017. Eu estava com Carlos Augusto Lima andando por São Paulo e tirei esta foto de dentro da Galeria do Rock. O prédio estava lá. Como um monumento contra as injustiças da cidade. Um monumento feito com as injustiças da cidade. E agora se foi.

2

[18h23] Michel Miguel Elias Temer Lulia. Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho. Márcio Luiz França Gomes. João Agripino da Costa Doria Jr. Bruno Covas Lopes. Sabemos que, antes deles, outros também têm sua parte de responsabilidade pela tragédia de hoje. Sabemos que, depois deles, outros continuarão indiferentes ao destino da maior e mais pobre parcela da população. Não me importa o nome-fantasia que usam nas eleições, as mentiras que contam, as caras e bocas que fazem. O que me importa agora é registrar esses nomes. Por inteiro. Nomes de homens brancos e ricos que grande parte de nós tem escolhido para – ou tolerado – que sejam nossos representantes. Nomes que nunca vão aparecer na lista de mortos em situação de vulnerabilidade. Ou na lista das pessoas que correram de suas casas de madrugada deixando tudo – roupas, documentos, parentes – para arder no fogo. Nenhum nome deveria aparecer nessas listas. É o que eu acredito. Mas aqueles senhores, na primeira oportunidade que têm, tripudiam das vítimas. Culpam as vítimas. Dizem um sonoro “bem feito, eu te disse”. Em nenhum lugar em que eu leia esses nomes ficarei feliz e concordarei com a presença deles. Muito menos numa urna. Muito menos na lista dos eleitos. Temos sido, desde muito tempo, falsamente representados por gente que, na verdade, representa poucos, bem poucos. Michel Miguel Elias Temer Lulia, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, Márcio Luiz França Gomes, João Agripino da Costa Doria Jr. e Bruno Covas Lopes, no entanto, me parecem representar ainda menos pessoas – e rir, sem dó, de todas as demais.

 

[22h23] Sequer esfriaram os escombros, a GloboNews já mostra suas garras: está passando uma matéria sobre outras ocupações e “seus riscos”… A estratégia é simples: colocar a população (ainda mais) contra os movimentos de luta por moradia, agora com o discurso de que as ocupações são precárias e, portanto, irresponsavelmente perigosas. Não podemos acusar ninguém de dar causa ao incêndio e desabamento de hoje, mas temos o dever de acusar esses usos escrotos de uma tragédia para reforçar os ataques da elite ao povo em defesa de seus interesses. A Globo, como de costume, é a voz dessa elite sem escrúpulos.

3

[2/5, 12h28] SEM TETO

 

são cerca de 500

quinhentos mil

mil vezes quinhentos

imóveis desocupados

vazios vagos sem ninguém

na grande – grande –

são paulo

 

toda vez que passar

por alguém que mora

mora, digo, vive

digo, sobrevive, submora

nas ruas, digo, nas calçadas

digo, nas ocupações

sob lona, cama de papelão

 

lembre-se

 

são 500 mil imóveis

digo, quinhentas mil

possíveis casas

sem ninguém

na região metropolitana

mais rica do país

 

toda vez que ouvir

o prefeito dizer

que não foi nada

toda vez que ouvir

o governador dizer

favas contadas

toda vez que ouvir

os jornalistas dizendo

que “imóveis sofrem

invasões”, deixe-se invadir

pela memória de que

há mais casas sem gente

do que gente sem casa

 

(e gente sem casa

é quase como não ser gente

e casa sem gente

é quase como não ser casa)

 

mas as portas estão

tristemente trancadas

Lula, outras notas

livros

[9/4] Estão divulgando o endereço para envio de correspondência para o Lula em Curitiba e, previsivelmente, já tem infeliz fazendo piada com isso… É claro que eu espero que o carteiro não o encontre lá, mas amanhã vão para o Correio esses dois livros e uma carta. O maior, sei que ele já tem: é a segunda edição reunida de dois livros sobre suas primeiras batalhas sindicais/políticas, escritos por um grande amigo seu, que, se estivesse vivo, certamente iria ao correio amanhã também. E o outro é uma antologia em que ao menos um poema liga o coração de Lula ao do Possidonio: “O operário em construção”. Para quem se animar também, o endereço é:

DIRETÓRIO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES

a/c Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Alameda Princesa Izabel, 160

São Francisco, Curitiba – PR, CEP 80410-110

 

[10/4] Já perdi a conta de quantas vezes ouvi, de formas pouco ou nada carinhosas, a pergunta: “como é que você ainda defende o Lula?”… Creio que essas pessoas veem na minha posição alguma incoerência que eu mesmo ainda não percebi, nem quero perceber, caso me obrigue a estar do mesmo lado dos que comemoraram a prisão de Lula (no Bahamas e noutras casas). Mas a questão é mais grave. Até pouco tempo, eu tenderia a ficar quieto se alguém dissesse que, não é por não terem sido punidos os políticos dos outros partidos (quero dizer: os tucanos), que Lula não deve ser punido. E poderia até evitar o debate se alguém dissesse que Lula foi condenado após um devido processo legal. Mas agora é muito mais evidente que as duas afirmações acima estão erradas e vão cobrar um preço muito caro de todos nós. Primeiro, é óbvio que Lula está sendo punido justamente para que todos os outros (tucanos, em especial) não venham a ser punidos – nos processos e, mais que tudo, nas urnas, pelos eleitores do país todo, juízes em última instância dessa parada toda. Segundo, é óbvio também que o processo tinha um objetivo determinado de antemão (a prisão de Lula) e que nada, nada, nada poderia mudar ou desacelerar esse rumo. Moro e seus amigos do TRF estavam com suas decisões tomadas desde o jardim de infância! Quem duvida pode dar uma olhada em outras decisões de Moro na própria Lava Jato ou na quantidade de condenados em segunda instância (na Lava Jato ou fora dela) que ainda não foram presos, nem mesmo incomodados pelo oficial de justiça. Diante disso, lembro daquela pergunta: “como é que você ainda defende o Lula?”… Defendo, sim, e cada vez mais tenho convicção de que é o melhor a ser feito. Por ele e, mais que tudo, por nós, como tenho repetido por aí. Vamos.

 

[11/4] Manter Lula vivo, manter Lula na política, manter Lula grande: temos que continuar diariamente nessa luta. Porque, do outro lado, após a prisão, toda a ofensiva será no sentido de apagar Lula (simbolicamente ou pior), circunscrever Lula ao noticiário policial, reduzir Lula a “um preso como qualquer outro”, porque todos ali sabem que Lula é um preso político e não terão pudores para inventar formas de reduzir sua força. E nossas forças. Temos que insistir em demonstrar que, dadas as circunstâncias de sua prisão, Lula não é um simples “político preso”. É um preso político. E nossa contraofensiva tem que ser urgente e persistente, porque o Judiciário, em diversos níveis, vai fazendo suas ações de apagamento de Lula: indefere um pedido de visita formulado por 11 governadores (Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe), alguns senadores, deputados e dirigentes políticos; bloqueia indevidamente os bens de Lula, Okamoto, Instituto Lula e LILS; suspende ações que podem impactar na ordem de prisão etc. O noticiário agora será cheio disso. Tudo para fragilizar e apequenar Lula e dificultar sua defesa jurídica e política. Uma tempestade de ataques para soterrar Lula, a que temos que reagir no limite de nossas forças: ocupando as ruas, disputando em todos os canais de comunicação, dando apoio a quem luta em outras trincheiras. Aliás, quando tudo parece desabar, tenho percebido aqui e ali, na conversa com amigos, uma vontade crescente de pertencer a partidos políticos e atuar mais diretamente nessas lutas. Muita gente já percebeu que, no fundo, a tentativa de apagamento de Lula tem objetivos maiores e piores: apagar o campo esquerdo da política. Contra isso, de fato, não há caminho melhor que a união: dentro da esquerda, dentro dos partidos de esquerda, entre os partidos de esquerda. Temos que seguir por aí. #LulaLivre

 

[11/4] Vocês já devem ter percebido que escrevo o tempo todo. Peço perdão, hehehe… É minha forma de reagir. A que está mais ao alcance da mão. E normalmente o que escrevo assume a forma da pancada recebida: posts, poemas, artigos, petições, mensagens… Isso significa dormir mais tarde do que deveria e acordar mais cedo do que poderia, esticar o dia e acelerar e atropelar suas rotinas, porque há palavras paradas na garganta e nas falanges, doendo, ardendo, que pedem para sair. Sinto-me, às vezes, como um estranho repórter, vivendo meu tempo, com a crescente necessidade de observar, ler e escrever sobre os assuntos ao redor. Então, perdão, escrevo. Quando uma pessoa ao menos se vê contemplada, a gente se sente menos idiota de ocupar o tempo assim. Sente até que foi melhor ter entrado nessas brigas. E continua entrando. § Por que tantos protestos, manifestos, desabafos, tomadas de partido, que muitas vezes nos custam caro? Porque é preciso se mexer. Entre as diversas formas assumidas pelo antipetismo e o antilulismo, além daquelas todas à direita, podemos catalogar algumas à esquerda (que, no fundo, dão quase na mesma que as da direita). Entre elas, há formas passivas, como o silêncio indiferente, a inação inabalável, o ócio político, mas há também formas ativas, como a crítica pura, o “bem feito” da revanche, o riso da cobrança, os beliscões do ressentimento. Não raro, há um nó muito forte e complexo entre todas essas (im)posturas, redundando noutras formas eficazes de indiferença ao destino de Lula e da “esquerda lulista”. É triste. Muitas vezes reconheço que eles têm razão, até porque normalmente estão teoricamente certos (e pouco adiantaria dizer que não estão). Mas prefiro estar teoricamente errado a estar politicamente sozinho, quieto ou parado. Mesmo que seja tão fácil perceber, teoricamente, como estou errado no que, politicamente, acabei de afirmar! § Não quero o fácil. Escrevo.

gulliver

[12/4] Vi essa charge do Luiz Gê e lembrei que, na sexta-feira, lá no Sindicato, também pensei em Gulliver e ia postar uma foto do filme com Jack Black. Por alguma razão, naquele agito, não o fiz, mas vendo agora esse desenho penso em outra coisa: há corpos políticos gigantes, mas nem todos pelas mesmas razões. Lula, sem dúvida, é um gigante, como bem explicou o Alberto Pucheu num texto lindo lá no perfil dele. Lula é gigante porque incorpora milhões de brasileiros que se identificam e confundem com ele. Prender Lula é prender tudo o que ele significa da porta para fora das instituições, e é por isso que, como eu já disse, todo o esforço de quem o prendeu é para reduzi-lo, fazendo-o caber nas tantas celas do direito. Mas há um outro gigante em que penso agora: Alckmin. Seu gigantismo não é da mesma natureza do de Lula: Alckmin é gigante das instituições para dentro. Um gigante sem corpo político popular, mas com um imenso corpo político elitista, conservador e corporativo. Toda essa articulação de mídia rica, Judiciário, Ministério Público e classe média-alta/alta que luta para apequenar Lula tem em Alckmin o seu gigante. É por isso que considero tão importante quanto manter o corpo político de Lula em suas dimensões colossais, ficar de olho nos movimentos do corpo político de Alckmin para se safar da Lava Jato. Aposto que, nesse paralelo, ficarão ainda mais escancaradas as entranhas do sistema e a que ponto são capazes de chegar para salvar seu gigante, sua grande aposta para voltar de vez ao poder em Brasília. Isso já está em marcha. O STJ já protegeu Alckmin da Lava Jato ontem. Seguindo assim, com nosso gigante preso, o gigante deles deve pisar sobre nossas cabeças em breve. Quero estar errado.