MP da devastação

MP

Bolsonaro publicou, na noite do domingo, uma MP que, além de outras medidas de precarização das condições de trabalho, autoriza a suspensão do contrato de trabalho por até quatro meses, sem pagamento de salários. Diz o jornal: “No período, o empregado deixa de trabalhar, assim como o empregador não pagará salário. A empresa é obrigada a oferecer curso de qualificação online ao trabalhador e a manter benefícios, como plano de saúde.”

Desde sempre, nesse governo, a ideia era clara: criar mecanismos que jogassem o risco da atividade econômica nas costas dos trabalhadores, melhorar as condições de lucratividade do capital e, assim, garantir uma concentração de riqueza ainda maior e mais violenta. Ao chegar a pandemia, os rumos não mudaram, pelo contrário.

Enquanto Bolsonaro faz seu discurso bizarro, minimizando a pandemia e dizendo estar preocupado com desemprego, Guedes acelera contra os trabalhadores. Na cabeça dele, desde o início, só havia uma preocupação: fazer os trabalhadores pagarem pela crise e, ao mesmo tempo, aproveitar para mudar agora regras que permaneçam castigando a classe trabalhadora e premiando seus amigos (grandes investidores internacionais) daqui em diante. Acho até que essa MP já estava redigida há bastante tempo. Só faltava o carimbo da pandemia. Agora ele tem.

Tomara que o Congresso ou o STF façam Guedes e Bolsonaro engolirem imediatamente esse sapo repleto de inconstitucionalidades. É urgente.

Destaco ainda dois pontos para o debate sobre essa MP que autoriza o corte de salários. Em primeiro lugar, é claro que a situação das empresas, da economia em geral, é preocupante. No entanto, quem vai tirar proveito dessa MP, caso ela fique em pé por alguns dias (espero muito que não!), não será o pequeno empresário.

Uma das estratégias do discurso neoliberal sempre foi encobrir todas as diferenças que existem entre “empresas” de todos os tamanhos, fazendo parecer que Abílio Diniz, o Véio da Havan, o motorista de aplicativo e o vendedor de brigadeiros artesanais pertencem a uma mesma categoria, ou pior, a uma mesma classe.

Ao embaralhar tudo, ao nublar as diferenças, muita gente que é diretamente atingida por medidas contra os trabalhadores, seja porque essa é sua clientela imediata, seja porque sua família se compõe, no melhor dos casos, também de assalariados, passou a formar uma parcela imensa da população que repete o discurso de interesse do empresariado e é incapaz de ver de qual grupo, de fato, estão mais próximos os “empreendedores” nessa forma de sociedade.

Bolsonaro e Guedes atendem, com essa MP, o interesse de grandes empresários, de quem quer lucrar durante a crise, não o do pequeno empresário, com 5 ou 10 funcionários, que quer sobreviver. Para este, deixar de pagar os salários, sem outras medidas que permitam a economia continuar funcionando, não muda a sentença de morte que a pandemia lança sobre seus negócios.

O governo deveria se preocupar em fazer o país continuar girando, apesar da pandemia, na medida do possível, sem punir ninguém, ainda mais os trabalhadores, para quem a sentença de morte é real caso o salário seja cortado por um mês, imaginem por quatro!

E aí vem o segundo ponto: é claro também que nenhum governo enfrentará com facilidade essa pandemia e seus múltiplos efeitos. No entanto, enquanto nossa preocupação tentava abraçar mais gente (os informais, os desempregados, as pessoas em situação de rua), porque a questão do assalariado estava, em tese, “resolvida”, o governo vai para cima justamente da parte mais estável das relações de trabalho e da sociedade, trabalhador empregado, com carteira assinada e direito a salário mínimo (quem são esses trabalhadores que poderão ficar 4 meses sem salário, fazendo curso online em casa???).

Há uma grande crueldade aí, a começar pelo fato de que não soluciona nada, mas sim complica ainda mais a situação de famílias em que a renda, por exemplo, ou vem totalmente de empregos formais ou se compõe, em parte, de renda formal e informal, e contavam agora com essa garantia de salário para sustentar minimamente as contas durante a pandemia. E tem mais: sem a circulação dos salários, não é apenas a frágil economia da casa dos trabalhadores que vai para o ralo, mas sim toda a economia dos bairros, das cidades.

Um governo que, entre as diferentes alternativas para lidar com a crise (todas difíceis, sei), escolhe logo atacar os trabalhadores, atacar os salários, é um governo cruel, um governo da morte, da devastação. Some-se a isso que é um governo de duas caras, porque, de um lado, Bolsonaro insiste em minimizar a pandemia, mas, de outro, não hesita em tomar justamente a medida mais dura contra a população, tirando seu sustento.

Que caia logo essa MP e tudo que estiver vinculado a ela, a começar por quem a assinou. Ou vocês ouviram falar de alguma medida de austeridade e sacrifício direcionada ao próprio governo, à elite do serviço público com seus penduricalhos, à elite do empresariado, aos banqueiros que lucram bilhões, ano após ano, e agora nos dizem que está tudo bem, porque podemos resolver tudo pelo aplicativo? O vírus não tem lado, não escolhe classe, mas é bem provável que, assim como as medidas desse governo, matará mais os pobres e os trabalhadores.

Mas viveremos

Josoaldo CDA
«Já não há mãos dadas no mundo./ Elas agora viajarão sozinhas./ Sem o fogo dos velhos contatos,/ que ardia por dentro e dava coragem.» Dias atrás, meu amigo Josoaldo me enviou essa foto da primeira estrofe do poema “Mas viveremos”, do Drummond, publicado em “A rosa do povo”, de 1945. Já nesses quatro versos era impressionante o eco das nossas preocupações atuais, como tantas vezes em Drummond. E a esperança que se oferecia timidamente no poema, a começar pelo título adversativo (dentro de um livro que tantas vezes denuncia as formas estúpidas que os homens encontram para morrer), vinha em muito boa hora. Voltei ao livro para ler o poema todo, longo, denso. Drummond planta um espanto em cada palavra, erguendo a voz desde um tempo de abraços desfeitos, dificuldade de falar, noites completas, em que somos “muitos e sós”, “prisioneiros de uma cidade estreita e sem ventanas”. E podemos ouvir bem daqui, de nosso lugar, de nosso tempo. É uma alegria – uma urgência – mesmo que um poeta assim tenha passado pela nossa língua. Devolvo essa alegria digitando o poema para que vocês também possam ler e, quem sabe, dizer com ele: “mas viveremos”. (Obrigado, Josô.)
 
MAS VIVEREMOS
Carlos Drummond de Andrade
 
Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.
 
Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.
 
Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e de esperança.
 
Já não distinguirei na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos…) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.
 
Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.
 
Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.
 
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas,
oceanos e oceanos e oceanos.
 
Mas um livro, por baixo do colchão,
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.
 
Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.
 
No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
 
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.
 
Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.
 
Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.
 
Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.
 
Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.
 
Pouco importa que dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.
 
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.
 
Ele caminhará nas avenidas,
Entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavra.

FLUXAS, edição especial

anac

Quem disse que o FLUXOS, seu microjornal de poesia predileto, andava sumido? Muita gente! Então estamos de volta, agora numa edição especial para o 8 de Março, a FLUXAS, sob curadoria preci(o)sa da Camila Assad. Ficou muito bom! E vocês já sabem como funciona: é só baixar, imprimir, dobrar, ler, distribuir, infernizar o povo por aí.

Clique aqui: Fluxos 8M 2020_1

E se quiser ver as edições anteriores, está tudo aqui no blog também. Passeie.

Rastros (antologia poética 1999-2018)

Rastros capa

Rastros, de Tarso de Melo, é uma antologia poética que reúne 155 poemas (e algumas séries), por ocasião dos 20 anos da publicação de seu primeiro livro, A lapso, de 1999. O próprio autor selecionou poemas de todos os seus livros, além de textos publicados esparsamente, reunindo-os sob um novo “princípio de (des)organização”. Como afirma na nota que abre o livro: “Ao embaralhar para este volume grande parte dos poemas escritos durante 20 anos, minha intenção era abrir novamente meu caderno à atenção dos leitores, mas agora explorando novas possibilidades de leitura desses poemas ao desarticular as relações em que se encontravam dentro dos livros originais e, de algum modo, propor novas relações entre eles. […] Arranquei todas as páginas do caderno múltiplo, descartei algumas, juntei outras. O que o leitor tem agora em mãos, sem dúvida, é um livro novo, em que poemas escritos em épocas diferentes se encontram para mudar uns aos outros e, mais que tudo, para se abrirem novamente aos leitores”.

 

O livro tem orelha assinada por Dalila Teles Veras, poeta e primeira editora do autor, e prefácio de Sérgio Alcides, poeta e professor da UFMG. Como posfácio, também apresenta as orelhas originalmente publicadas nos livros A lapso (escrita por Júlio Castañon Guimarães), Carbono (por Carlito Azevedo), Caderno inquieto (por Heitor Ferraz Mello) e Íntimo desabrigo (por Carolina Serra Azul e Renan Nuernberger). O desenho da capa é de Hallina Beltrão.

 

«[…] “baralhados” pelo autor em sua ordem cronológica, não consegui ligar a maioria dos poemas ao conjunto original. O que li foi uma sólida obra, construída com o sentido de ser exatamente isto: uma Obra. Não uma obra encerrada num propósito meramente estético, mas uma obra aberta, compromissada, pronta a receber novas inserções que a ampliarão, sem modificá-la, porque já É o que É, ou seja, uma poética inconfundível, inserida na centralidade da literatura brasileira da atualidade.» (Dalila Teles Veras, na orelha)

 

«Rastros é uma antologia experimental, como a Antologia poética de Vinicius de Moraes, de 1954, e a de Carlos Drummond de Andrade, de 1962. Como foi o caso desses precedentes veneráveis, este é um livro a mais na bibliografia do seu autor. Não entra na cota subsidiária, à parte da obra. Forma um acréscimo. […] No caso de Tarso, o título já diz, em letras embaralhadas, o procedimento seguido, mais à mineira. Porém, com maior discrição, ele retira os tapumes, não deixa anteparos para trás. A lógica das aproximações se apaga do sumário, e o leitor fica livre para jogar, ele também, com recombinações possíveis, especulando, especulando-se igualmente, formando seus próprios rastros.» (Sérgio Alcides, no prefácio)

Rastros capa aberta

Tarso de Melo (Santo André, 1976) é poeta, ensaísta e advogado, doutor em Filosofia do Direito pela Universidade de São Paulo. Curador dos projetos “Vozes Versos” (na Tapera Taperá, com Heitor Ferraz Mello), “Passaporte: Literatura” (Goethe-Institut SP, com Marcelo Lotufo) e “Algaravia!” (Biblioteca Mário de Andrade). Autor, colaborador e organizador de diversos livros, seus títulos de poesia são: A lapso (Alpharrabio, 1999), Carbono (Nankin, Alpharrabio, 2002), Planos de fuga e outros poemas (7Letras, CosacNaify, 2005), Lugar algum (Alpharrabio, 2007), Exames de rotina (Editora da Casa, 2008), Caderno inquieto (Dobra, 2012), Poemas 1999-2014 (Dobra, 2015; com edição digital pela E-galáxia, 2015), Íntimo desabrigo (Alpharrabio, Dobradura, 2017), Dois mil e quatrocentos quilômetros, aqui (com Carlos Augusto Lima; Luna Parque, 2018) e Alguns rastros (Martelo Casa Editorial, 2018).

 

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO: Rastros será lançado em São Paulo no dia 12/12/2019, quinta, às 19h30, na Tapera Taperá (av. São Luís, 187, 2º andar, loja 29, Galeria Metrópole). Na ocasião, será lançado também o livro Poesia + (antologia 1985-2019), de Edimilson de Almeida Pereira, pela Editora 34. Haverá um bate-papo e leitura de poemas pelos autores.

ConvP+

Leia artigo de Casé Lontra Marques sobre Rastros:

https://revistacult.uol.com.br/home/rastros-de-tarso-de-melo/

 

Rastros, de Tarso de Melo [Martelo Casa Editorial, 272 páginas, R$ 55,00]

Quando a delicadeza é uma afronta

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Dizem as boas línguas que o segundo número da antologia poética da CULT já está chegando às bancas e livrarias, bem como às casas de quem comprou pelo site. Fiz a curadoria dos poemas: Adelaide Ivánova, Alberto Pucheu, Ana Estaregui, Ana Martins Marques, Andreev Veiga, Bianca Gonçalves, Carlos Augusto Lima, Casé Lontra Marques, Chantal Castelli, Dalila Teles Veras, Diana Junkes, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Fabiano Calixto, Fabrício Marques, Fernanda Marra, Izabela Leal, Jeanne Callegari, Júlia Studart, Leonardo Fróes, Leonardo Gandolfi, Luci Collin, Luna Vitrolira, Manoel Ricardo de Lima, Marcelo Ariel, Marcelo Montenegro, Matheus Guménin Barreto, Micheliny Verunschk, Renan Nuernberger, Reynaldo Damazio, Sara Síntique e Simone Brantes. E o Fernando Saraiva cuidou do projeto gráfico e da seleção dos artistas que ilustram o volume: Amanda Copstein, Elisa Carareto, Jade Marra, Julia Coppa, Karen Hofstetter, Leandersson (capa e cartaz), Marcela Cantuária, Mayra Martins Redin. Sou suspeito, mas ficou muito bonito e forte mesmo. Muito feliz de ajudar a seguir em frente essa história, movida pela paixão da Daysi Bregantini por poesia, iniciada pelo Alberto Pucheu e, se vocês ajudarem comprando e divulgando (hehehe), a ser continuada por mais curadores, autores e artistas deste estranho país. Muito obrigado a todos vocês!

Livres?

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Diante da decisão correta do STF, é no mínimo curioso que a “grande” imprensa e seus “especialistas” repitam que, segundo números do CNJ, quase 5000 presos podem ser “beneficiados”. Que “benefício” é esse de ser solto depois do reconhecimento de que parte da sua vida (meses, anos) se passou indevidamente dentro de uma cela? Um minuto de prisão indevida é um absurdo, um prejuízo irreparável, para qualquer pessoa. Falar em “benefício” e esquecer desse prejuízo é não apenas impróprio, mas cruel. No caso do presidente Lula, então, a crueldade não para por aí, muito menos se restringe à pessoa dele. O que significa esse “benefício” de soltá-lo agora diante dos 579 dias preso com base numa decisão agora reconhecida como inconstitucional e oriunda de um processo absolutamente viciado pela suspeição do juiz, como o STF também vai reconhecer em breve (ou terá que fazer uma ginástica imensa para dizer que o atual ministro Moro, não apenas pelo que The Intercept vazou, era imparcial na condução dos processos contra Lula, adversário do seu novo chefe)? E qual o peso desse “benefício” para compensar tudo o que foi e tem sido feito neste país por um governo que, para se eleger, precisou da prisão de Lula? Qual o poder curativo desse “benefício” diante dos danos causados à vida pessoal de Lula, que não pode enterrar um dos seus irmãos e foi escoltado pela polícia no enterro de seu neto? Chamar essa soltura tão tardia de “benefício” é uma tentativa de apagar todos os significados da prisão de Lula, para ele e para a democracia brasileira, bem como para as condições de vida do povo, que agora tem que lidar com um governo destruidor. A soltura de Lula, claro, é importante, é justa, é urgente. A decisão do STF, no entanto, será um benefício real se aproveitarmos para reconhecer que tudo o que se fez depois da prisão de Lula – não apenas contra ele, mas contra o país – deve ser revisto, porque a liberdade e a dignidade de que precisamos vai bem além de tudo que o STF garantiu hoje.