Contra eles

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CONTRA ELES
[ode-ódio antifascista]

sim, eles existem
eles são eles
e são sempre os mesmos

eles riram ou dormiram indiferentes
quando souberam da execução da vereadora negra
porque era negra pobre homossexual e de esquerda
os mesmos que nunca entenderam porque nós
não aceitamos a caça aos favelados
não aceitamos a caça aos estudantes
não aceitamos a caça aos militantes

são eles que vão votar no candidato
que homenageia torturadores
discrimina mulheres ataca homossexuais
os mesmos que fazem piadas com direitos humanos
e dizem que agora tudo é “politicamente correto”

eles foram às ruas contra a mulher que era presidenta
e a chamaram de puta burra ladra bruxa vagabunda
os mesmos que não vão às ruas por nada nunca
porque temem as ruas e temem que nós estejamos nas ruas

eles batem panelas e soltam rojões para comemorar
a prisão do ex-presidente nordestino e metalúrgico
eles soltam rojões para comemorar golpes de estado
os mesmos que riram da festa no puteiro
e do cafetão que promete cerveja em troca da morte

eles adoram mandar para nossas caixas postais
suas opiniões violentas sobre todos os temas
mas querem moderação quando nós respondemos

eles nunca ligaram para a vida da maioria
dos venezuelanos dos norte-coreanos dos chineses
mas enchem a boca para falar desses países
quando é necessário atacar os adversários daqui

eles dizem que são contra a corrupção
mas não ligam quando são os seus que (se) corrompem
e jamais deixarão de votar em corruptos
quando for o melhor para eles mesmos

e são os mesmos que jamais irão às ruas xingar
quem não é negro pobre homossexual de esquerda
nordestino analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda
porque eles não xingam qualquer um

aliás, porque eles só xingam “qualquer um”
e qualquer um é apenas quem é negro
pobre homossexual de esquerda nordestino
analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda

na boca deles as palavras com que elogiamos
ou nos solidarizamos viram xingamentos
na mesma boca deles nós nunca é nós
e o eles que dizem nunca vai ao espelho

eles dizem que essa história
de nós contra eles
não leva a lugar algum
mas é mentira
eles não querem ir a lugar algum
com esses que chamamos de nós

nós sabemos quem

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Na Cult: 30 anos da Constituição

《A Constituição, hoje, poderia cantar: “Meus inimigos estão no poder”, porque, se a Constituição é democrática, eles são golpistas. Se ela quer distribuir, eles querem concentrar. Se ela quer reduzir desigualdades, eles querem aprofundá-las. Se ela é laica, eles são religiosos intolerantes. Se ela quer o bem de todos, eles querem o bem de poucos – bem poucos! Mesmo quem acha que não passa de um texto como qualquer outro deve convir que a Constituição é importante demais para ser deixada nas mãos do STF, de todos os outros juízes, dos legisladores e demais políticos.》
Hoje tem texto novo na minha coluna no site da Revista CULT. A partir de agora, vou escrever lá a cada duas semanas (e quando for urgente!). Passem por lá.

https://revistacult.uol.com.br/home/a-constituicao-e-importante-demais-para-ser-deixada-na-mao-do-stf/

Lula, minha reportagem sentimental

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[quinta, 9/4/2018, 8h33] Lula deve estar tranquilo. Quem tem uma biografia tão rara e admirável, uma longa e intensa travessia dos mais baixos degraus da pobreza no Brasil até os mais cobiçados postos e reconhecimentos na política nacional e internacional, sabe que suas brigas não têm trégua: nem caído, nem preso, nem morto. Lula sabe bem disso. As caçadas que enfrenta desde os primeiros passos na política não lhe deixam ter surpresa mesmo diante de um STF esfarrapado para tentar dar conta de seu peso político e, claro, cumprir seus compromissos com o golpe. Lula segue. Até mesmo a cela é sede para fazer política, Lula sabe. Quem ergueu a cabeça tão alto certamente sabe que ela sempre esteve a prêmio. Lamentamos que ele tenha que enfrentar mais essa, mas sua travessia segue: por nós, conosco.

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[sexta, 8h15] São muitos os que querem uma fatia da fama de Lula. Babam de fome pelas migalhas que caem da mesa em que é servido o banquete dos verdadeiramente importantes. Há muitos anos é assim: bater em Lula é o atalho para os quinze minutos de fama de muita gente medíocre. “Jornalistas” que se projetam gritando horrores contra Lula, colunistas que penduram a melancia da polêmica no pescoço afirmando qualquer besteira sobre Lula, “escritores” de livros bombásticos sobre Lula, atores e atrizes cheios de medo e ódio, youtubers fanáticos por caretas e conspirações, políticos sem nada mais que ódio a oferecer e, claro, juízes que, sem Lula, arrastariam seu triste partidarismo pelos tribunais e perseguiriam ladrões de chinelo entre um recesso e outro. E tudo isso vai seguir assim: os policiais, os carcereiros, os delegados, todos que estiverem por perto de Lula vão caprichar na foto para mandar pra família, pros amigos e, quem sabe, até mesmo cacifar uma campanha a vereador. Ou uma fantasia de carnaval. Se fossem honestos, diriam, como nós, “Lula, muito obrigado”. Sem esperar tanta gratidão, Lula, gigante, vai seguir distribuindo esses farelos para a fome insaciável de quem o detesta, mas ama gritar seu nome e divulgar sua imagem. Sem problemas: tem pra todos. Sempre teve e terá.

 

[sexta, 9h58] MÃOS DADAS

Carlos Drummond de Andrade

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

 

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

____________________________________________

Ao fim de uma quinta-feira puxada, que começou antes das 7h em São Bernardo e terminou depois das 22h em Guarulhos, passando por São Paulo, salas de aula, trânsito, petições, textos etc., ninguém recomendaria seguir para uma manifestação política. Mas eu fui. Precisava ir. O cansaço desaparece, o ânimo ganha força. Estar ali no meio daquelas pessoas com suas camisetas vermelhas e olhos cheios de apreensão e esperança. Sim, apreensão e esperança, e esta esperança talvez só consiga aparecer ali no meio das outras pessoas apreensivas, mas dispostas a apoiar, resistir, cantar os mesmos cantos para o futuro. Dispostas a continuarem juntas, mesmo nas horas mais difíceis. Aliás, justamente nas horas mais difíceis! Como diz o poema de Drummond, meus companheiros “estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”. Nutrem grandes esperanças porque seguem de mãos dadas, não se afastam muito. É isso. Se puder, venha dar as mãos para os companheiros em São Bernardo. Hoje, encher aquelas ruas em volta do Sindicato é o que há de mais importante a ser feito. Por hoje e pelo amanhã. Por todos nós.

socialismo

[sexta, 12h45] Na luta por Lula hoje lutamos por bem mais. Lutamos pela possibilidade de lutar, de continuar lutando, que vai além de Lula e é fundamental para todos, para bem mais do que todas as pessoas que estão aqui em São Bernardo apoiando Lula. Não custa lembrar: «[…] se tal é a tendência das coisas neste sistema, quer isto dizer que a classe operária deva renunciar a defender-se contra os abusos do capital e abandonar seus esforços para aproveitar todas as possibilidades que se lhe ofereçam de melhorar em parte a sua situação? Se o fizesse, ver-se-ia degradada a uma massa informe de homens famintos e arrasados, sem probabilidade de salvação. […] Se em seus conflitos diários com o capital cedessem covardemente ficariam os operários, por certo, desclassificados para empreender outros movimentos de maior envergadura. […] Ao mesmo tempo, e ainda abstraindo totalmente a escravização geral que o sistema do salariado implica, a classe operária não deve exagerar a seus próprios olhos o resultado final destas lutas diárias. Não deve esquecer-se de que luta contra os efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que logra conter o movimento descendente, mas não fazê-lo mudar de direção; que aplica paliativos, mas não cura a enfermidade. Não deve, portanto, deixar-se absorver exclusivamente por essas inevitáveis lutas de guerrilhas […]» MARX, “Salário, preço e lucro” (1865)

lula

[sábado, 5h52] SER LULA É CRIME. Você tem certeza que está diante de uma prisão política quando alguém é processado e preso não por causa de algo que tenha feito (na esfera policial), mas principalmente para que não venha a fazer algo (na esfera política). Quando a prisão apenas finge se referir a fatos passados (crimes), mas na verdade se destina a evitar fatos futuros (eleição). É a exata situação de Lula: toda a articulação excepcional para condená-lo sai à rua/mídia maquiada de “justiça”, mas, descaradamente, é uma medida para interferir na disputa eleitoral. Só não vê quem não quer.

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[sábado, 19h20] ESTA CELA

 

o país é uma cela

com infinitas celas dentro

e dentro de cada um de nós

há milhares de celas

 

quando a noite é mais triste

nos abraçamos e gritamos

juntos o que queremos

da vida que vem pela frente

 

por um instante no abraço

ouvimos se afastarem os passos

daqueles que vêm toda madrugada

colocar mais uma grade

entre nós e nossos sonhos

 

seus pés são frios e fogem

não temos mais porque temer

 

mal acabamos de saber

da nossa própria prisão

e estamos maiores

e mais livres do que nunca

 

[domingo, 11h29] Lula é foda. Enquanto todos seus adversários, inimigos e a turma do “eu detesto o Lula” acharam que sua prisão seria o ato final da história que ele protagoniza há cinco décadas, quem olhou para o Sindicato dos Metalúrgicos desde quinta-feira tem certeza que tudo ali era o ato inicial de uma outra história. O ato inicial de uma história a ser construída, mas que começa com esse abraço em Lula, com essa luta por Lula livre, que bem sabemos que é uma luta pela nossa liberdade. Ninguém mais tem dúvida de que, ao lado do objetivo de tirar Lula das eleições, há outro ainda mais terrivelmente antidemocrático: deixar nas mãos da elite medíocre de sempre a definição dos rumos do país. Na ótica dos antilulistas, o país não pode ter lideranças populares, não pode ter imprensa verdadeiramente livre, não pode ter pensamento crítico nas salas de aula, não pode ter movimentos sociais, não pode ter lutas por direitos fora dos tribunais, não pode ter partidos de esquerda. Na ótica deles, ninguém pode vestir vermelho, afirmar-se de esquerda, defender o socialismo. Na boca deles, “pobre”, “analfabeto”, “nordestino”, “preto”, “puta” são xingamentos. É por isso que não basta, para eles, prender Lula; precisam também criminalizar sua defesa, criminalizar seus apoiadores, criminalizar qualquer palavra de apoio a Lula e a suas lutas, que são nossas. Mas, assim como o Brasil não cabe nos seus esquemas, Lula não cabe em suas gavetas. Era evidente que prenderiam Lula, porque todo o espetáculo dos últimos anos precisava entregar sua atração principal. Mas em Curitiba, na Globo, no STF já devem ter percebido o óbvio: prender Lula foi possível, mas mantê-lo preso é um problema imenso. É e tem que ser. Porque Lula vai ser lembrado todos os dias daqui em diante, não apenas em manifestações em todo o país, mas também por lideranças políticas, religiosas, artísticas etc. de todo o mundo. Imaginem aí uma lista de visitas para Lula nos próximos dias e nela estarão nomes grandes demais para qualquer carceragem. Mesmo enquanto estiver preso, a voz e a imagem de Lula estarão levando suas ideias pelo país, pelo mundo. Já há alguns anos que a direita tem tentado impor um toque de recolher para nossas ideias. Temos que ouvir, no ambiente de trabalho ou no encontro com os amigos, as piadas mais estúpidas sobre os símbolos da esquerda, mas reagir a elas era sempre visto como uma radicalização de nossa parte, como uma outra prova de que os “esquerdistas” são intolerantes. Se a prisão de Lula for o último ato de alguma história, que seja da história do nosso silêncio cordial, do constrangimento que lançaram sobre nós. Para além disso, que tudo o mais seja começo. Que nossos gritos – de dor, de luta, de apoio – sejam ouvidos e respeitados. Guardem seus rojões que o jogo ainda não terminou.

heineken

Domingo [15h48] Ouvi dizer que comunistas estão espalhando por aí uma cerveja que tem uma estrela vermelha e que isso tem a ver com a alegria do Lula na final do Paulistão.

 

Domingo [18h18] É pra você, Lula!

lula sócrates

Domingo [20h30] LUÍS INÁCIO NA CELA

Manuel Bandeira [adaptação]

 

Luís Inácio preto

Luís Inácio bom

Luís Inácio sempre de bom humor

 

Imagino Luís Inácio entrando na cela:

— Licença, meu branco!

E o carcereiro bonachão:

— Entra, Luís Inácio. Você não precisa pedir licença.

 

Segunda [7h58] Primeira segunda-feira da era #lulalivre. Tempo de manter a calma, a concentração e a atuação perseverante. Tempo de reflexão e de reforçar posições. Tempo de luta. Os últimos dias foram muito intensos, saímos cansados, mas melhor orientados sobre os caminhos a seguir. As palavras e imagens que circularam aqui (mesmo quando eram mais provocativas…) cumpriram a função de unir quem estava sofrendo em todos os cantos e transformar a angústia em energia para a luta. E cumpriram também a função de demarcar o território: desfazer amizades com quem não apenas comemora a prisão de Lula, mas quer tripudiar sobre quem pensa diferente, espalhando ofensas que vão bem além de Lula. E, de outro lado, fazendo amizades novas no meio da luta. É disso que mais precisamos agora: afinar, dentro do nosso campo, as ideias que vão nos manter unidos e possibilitar que saiamos dessa tempestade mais fortes. Não é hora de gastar energia respondendo a provocações, piadas, mentiras. É hora de impor nossas pautas. Manter a atenção na liberdade de Lula, mas não esquecer que ela é o primeiro passo de uma caminhada longa. Bora lá. Boa semana a todos.

Na Cult: “Império da mentira”

Diante desse “império da mentira”, em que os requintes do convencimento são dos mais criativos e inescrupulosos, nossos cuidados individuais com os conteúdos que consumimos, produzimos e divulgamos têm que ser cada vez maiores. Se um dos grupos políticos mais alardeados e influentes dos últimos anos está disposto a atacar com mentiras um cadáver que sequer havia esfriado; se uma empresa que é símbolo das inovações da nossa relação com a produção cinematográfica atual se empenha assim em ecoar o noticiário político mais enviesado, não podemos esperar nada muito melhor dos pretensos – e prováveis – protagonistas da próxima eleição.”

https://revistacult.uol.com.br/home/o-imperio-da-mentira-uma-reflexao-sobre-a-crise-politica-e-o-mecanismo/

Lula é o (único) alvo?

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Lula paga um preço absurdo por ter sido o presidente mais popular da nossa história. Popular: por ter alta popularidade, claro, mas também por ter realizado diversas políticas sociais que, de fato, chegaram até o povo nos diversos cantos do país.
É atacado pela imprensa de modo sistemático e sem quaisquer pudores. É perseguido pelo Ministério Público e pelo Judiciário de modo absolutamente descarado. É o principal alvo das campanhas de difamação que lotam as redes sociais (e também a Netflix!). O segundo mandato de Dilma, que se devia em grande parte à popularidade de Lula, foi bloqueado por um golpe que envolveu Legislativo, Judiciário, grande imprensa e empresariado.
A estratégia é clara e suas razões são evidentes: já que não se pode ganhar de Lula nas urnas, é preciso tirá-lo do páreo. Mas a escala dos esforços tem subido desde então: depois de esgotar todas as formas de desmoralização, deram início a uma verdadeira caçada judicial que deve culminar com sua prisão no ano eleitoral.
No entanto, não há surpresa ao constatar que resulta dessa estratégia um grau ainda mais alto de violência contra Lula e sua militância. Xingamentos, faixas e bonecos infláveis converteram-se em chicotadas, pedradas e, hoje, tiros. Lamentavelmente, é um fruto esperado de tanto ódio.
E é inevitável relacionar essa violência com aquela que tem atingido diversas lideranças de esquerda e militantes dos direitos humanos pelo país, também para perceber uma crescente.
Enfim, se isso aconteceu contra o mais importante ator da curta novela da nossa democracia, podemos até não saber ou ligar para o que vai acontecer com ele, mas temos que ser muito ingênuos para não ver que as vítimas dos próximos capítulos seremos todos nós.

Lafetá e Graciliano

O prof. João Luiz Lafetá (1946-1996) morreu bem novo. Não o conheci (alguém aqui deve ter tido aulas com ele!), mas sempre gostei bastante de todos os seus textos. Ontem, por acaso, encontrei esse vídeo longo em que ele fala sobre Graciliano Ramos. Uma coisa bonita demais. Antonio Candido, que foi seu orientador, disse: “João Luiz Lafetá era discreto, mas participante, reservado e cordial, cumpridor estrito do dever, capaz de concentrar-se a fundo nas tarefas, procurando sempre produzir o melhor. Como professor, era incomparável, desde a presença serena e magnética até a voz admiravelmente impostada, que lhe permitia falar em tom normal e ser ouvido no fundo dos anfiteatros; sem contar o essencial, isto é, a capacidade de expor a matéria de modo perfeito e seguro, depois de ter preparado a aula com aplicação quase angustiada, como quem duvida de si e por isso acha-se moralmente obrigado a fornecer o máximo. E de fato era o máximo que fornecia sempre – na aula, na palestra, no ensaio, no livro –, manifestando em cada uma dessas atividades a sua grande e sólida inteligência”. Pois é. Acho que Antonio Candido tinha essa aula em mente.

Paulinho e a madeira

paulinho

“Mexer com madeira ajuda a criar uma certa ordem interior”. Pego, por acaso, a meio caminho, o documentário sobre Paulinho da Viola. Meu tempo é hoje. Já vi dezenas de vezes. Mas, a cada vez, Paulinho salva o dia. Salva a noite. Penso no peso que o passado joga sobre todas as noites. Penso no peso que o futuro joga sobre todos os dias. Paulinho vem e instaura outro tempo: um outro hoje. Um vão. Paulinho vem com seu elogio da madeira. Do trabalho com a madeira. A paixão por tirar música da madeira e a paixão por tirar outras coisas úteis da madeira. Outras: porque a música ali se faz como um polimento da madeira, como um aperfeiçoamento da e pela madeira. O samba como uma das ferramentas a serviço da madeira. Dar vida ao samba na madeira. Dar vida à madeira no samba. E para além dele. Ajustar a vida à madeira. Ajustar-se no ajuste da madeira. E no ajuste das cordas à madeira. Fazer notas da madeira, deslizar pelos nós da madeira, encontrar-nos na madeira. Não é só cuidar da madeira porque violão. Não só cuidar da madeira porque útil: gaveta, porta, martelo, taco, samba. Cuidar-se no cuidar de algo, criar seu veio no tempo: lição de mestre.