Do fb pra cá [abril]

[1/4] “Ô, vc viu que o Temer sancionou a terceirização irrestrita?” Chegamos a um 1º de abril sem coragem de brincar com política e direitos. Temos vivido todas as piadas sem graça. Como um pesadelo.

 

[3/4] (Triste demais ver gente querida que tinha no trabalho, além da evidente fonte de sustento, também alguma fonte de orgulho, prazer, amizade etc., perder toda esta parte positiva e ter que se torturar por causa daquela, que por sua vez é a cada dia mais pressionada. Mas é bom me acostumar, porque a tendência das coisas parece ser mesmo por aí. Com sorte.)

 

[3/4] Enquanto Gilmar Mendes dá sequência a seus ataques frontais à democracia e cada vez mais contra os direitos dos trabalhadores (desta vez, afirmou que o TST é um “laboratório do PT e da CUT”…), o que assistimos na realidade passa bem longe de corresponder à sua opinião. Nas palavras do prof. Jorge Souto Maior: “Essa situação de insegurança jurídica dos trabalhadores, proporcionada pelas normas de flexibilização e pela ameaça de desemprego, acompanhadas da impossibilidade de reação institucional dos trabalhadores, dada a fragilização do sindicalismo e da força repressiva estatal, o qual atribuiu para si o papel de levar adiante o projeto neoliberal, conduziu os trabalhadores a um autêntico estágio de submissão e os empregadores à plenitude da soberba. Isso permitiu o advento de uma concepção empresarial no sentido de que deixar de aplicar direitos já não era o bastante, vez que passava a ser possível desenvolver uma forma de tratamento que assumia o caráter descartável do trabalhador.”

 

[4/4] Notícias indesejadas do estranho país em que a política é a mais desacreditada das artes, mas ainda assim pode se sobrepor irresponsavelmente a decisões de caráter técnico, se passando por “gestão inteligente” e não política… O mesmo país em que experiências e inovações importantes (vale para a mobilidade urbana, vale para o Ciência sem Fronteiras, vale para o Mais Médicos, vale para as universidades públicas e tantos outros programas sociais importantes dos últimos anos) são sumariamente desmontadas sob a alegação de que têm este ou aquele problema. Para tudo que é novo, aqui, e quanto mais democrático for, qualquer problema (não nego que existam!) é mortal, mas a tolerância com o rearranjo do que sabemos que não tem conserto, por outro lado, é gigantesca. Não guardem ainda o caderninho de contar os mortos.

 

[4/4] Nunca havia digitado meu nome na Estante Virtual. Fui procurar um exemplar dos “Poemas 1999-2014”, que esgotou totalmente (eram apenas 300), e me deparei com uma coisa curiosa: um exemplar do meu primeiro livro, “A lapso”, de 1999, autografado, por 110 reais. Cento e dez reais! A quem interessar possa, registro que tenho ainda alguns exemplares, uma caneta e sei fazer autógrafos razoáveis, por bem menos que 110, às vezes zero. Fica a dica.

 

[4/4] Em palestra na Hebraica do RJ, um provável candidato à presidência (não faço propaganda de seu nome nem imagem) afirmou: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem pra procriador ele serve mais”. Aproveito o ensejo para pedir UM GRANDE FAVOR. Se, por acaso, você ainda estiver lendo esta minha postagem e consegue concordar com qualquer palavra desse escroto, faça um favor para nós: desfaça a amizade comigo, aqui e onde mais quiser. Não precisa me xingar, me bater, muito menos tentar me convencer. Minhas convicções antifascistas não têm cura. E acho que esse verme e quem “pensa” como ele, por outras razões, também não têm.

 

[4/4] Um vereador de São Paulo está fazendo “fiscalização surpresa” em escolas públicas para verificar a roupa dos professores (obviamente: se é vermelha), exigindo que apresentem seus conteúdos programáticos, inquerindo alunos para saber como os conteúdos são tratados e estimulando nas redes sociais que os alunos “denunciem” seus professores. É uma caça aberta ao que esse imbecil chama de “ideologização”. Pois bem, vereadores têm poder para tanto? Do prefeito e de seus secretários nada espero (só daí para pior), mas o que dirão os diretores de escola, os professores, os pais e os alunos? O que diremos nós? Lembro do tempo em que se dizia que, se um “comunista” fosse eleito presidente, ele colocaria famílias pobres pra morar nas casas da classe média. Mas o que estamos assistindo é uma caçada a “comunistas” que justifica tudo, desde um ministro do STF discursar contra um outro Tribunal inteiro até a suspensão/supressão de direitos que nós, inocentes, julgávamos estabelecidos, passando, é claro, como sempre passa, pela fossa mais fétida, a desses que “fazem justiça com as próprias mãos”, investem-se nas atribuições que eles mesmos inventam, atropelam pessoas, instituições e direitos em nome de uma “causa” que, a seu juízo, tudo justifica. E assim começam a ultrapassar as portas de escolas e atacar professores para, daqui a pouco, derrubar toda e qualquer porta que imaginem esconder um “inimigo”, roupas vermelhas, livros subversivos. Aliás, já entramos na fase em que juízes fundamentam prisões em “curtidas” do facebook. O que falta? Já faz quase 3 anos que Nuno Ramos dizia: “Suspeito que estamos fodidos”. Temos algum motivo para demovê-lo dessa suspeita ou cairemos todos para dentro dela?

 

[4/4] (Fazer de todos os seus gestos uma forma de militância contra as forças que agem para destruir o mundo em que você acredita. Da hora de acordar à de dormir, e até enquanto dorme. Sonhando ou não. O que faz, o que deixa de fazer, o que ajuda a fazer e a desfazer. O que ensina e o que aprende, o que quer e o que não quer, o que aceita e o que não admite. Quando ataca e quando acolhe, no atrito e no carinho. O que come, o que bebe, o que veste. O que fala e o que não fala. Do que ri, do que não ri, o choro que engole ou ostenta. O que dá, o que divide – e tudo tentar dividir. Em cada minuto do dia, de qualquer dia. Custe o que custar, julguem como quiserem julgar. Missão longa, árdua, para a vida toda, cuja recompensa é apenas garantir que você não será o terreno fértil para as sementes que você detesta. Apenas?)

 

[5/4] QUADRILHA

 

Gilmar golpeava Michel que golpeava Eduardo

que golpeava Renan que golpeava Aécio que golpeava Dilma

que não golpeava ninguém.

Sérgio foi pra os Estados Unidos, Rodrigo para o congresso,

Teori morreu de desastre, Alexandre ficou pra ministro,

Carmen aposentou-se e Marcela casou com M. Odebrecht

que não tinha entrado na história.

 

[5/4] Pronto. O STF acaba de decidir, com repercussão geral, que todas as categorias policiais e servidores diretos da Segurança Pública não têm direito de greve. Até hoje, a Constituição Federal dizia: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender” (art. 9º). Mas o entendimento de Alexandre de Moraes, proibindo completamente a greve, venceu o do relator Edson Fachin e foi acompanhado pelos ministros Luis Roberto Barroso, Luiz Fux, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. E enquanto você estiver aí avaliando se a decisão faz sentido, saiba que, na verdade, ela vai servir de modelo para ataques (ainda maiores do que os dos últimos anos) ao direito de greve de muitas outras categorias, públicas ou privadas. O golpe, meus tristes amigos, está ainda nos primeiros passos. Mais um capítulo do “grande acordo nacional” de que falou o vidente Jucá.

PS: só pra lembrar que “direito de greve” não é uma coisa abstrata. Pelo contrário, é aquele direito por meio do qual os trabalhadores conseguem melhorar suas condições de trabalho e impedir que sejam roubados os direitos que já têm. A possibilidade de que haja greve é, simplesmente, o pilar de todos os demais direitos.

PS 2: no caso específico dos policiais, um dos argumentos do STF foi de que “quem porta arma deve se submeter a regime jurídico diferenciado”. Os ministros devem imaginar que “quem porta arma” também pode achar outras formas de defender seus interesses?

 

[6/4] Você aí, meu caro, que acha exagero ou faz pouco caso dos debates que o feminismo tem proposto, basta dar uma olhada com atenção nos casos – do goleiro Bruno, do ator da Globo, do cantor sertanejo, entre tantos outros – e na forma como os acusados se defendem, são defendidos e “punidos”, e vai perceber a gravidade das condições a que as mulheres são submetidas no trabalho, em casa, no estudo, na vida – antes, durante e depois da violência que sofrem. Diante disso, todo grito é justo.

 

[6/4] SÉRIO: creio que já temos inteligência suficiente para perceber quando algum candidato se favorece eleitoralmente do escracho ou má fama que nós ajudamos a alimentar. Má fama é, também, fama. O político escroto não é um produto que todo o eleitorado deixará de comprar. Podemos muito bem contribuir para a demolição de suas “teses” (basta um pouco de informação boa como contraponto) sem divulgar suas fotos e nomes. Se um escroto diz absurdos sobre a história e a realidade do país, o melhor antídoto é pesquisar e divulgar informações, análises, críticas etc. de qualidade. O escroto nada na ignorância, depende dela e de aceitarmos fazer a luta nos limites do seu charco. Fora dele o escroto não respira e morre. Por favor, não façamos parte desse coro involuntário.

 

[6/4] Exercício: temos boas razões para crer que o ator global, na privacidade do seu lar, proferiu palavras de baixo calão quando soube que a figurinista havia publicado uma carta em que o denunciava de assédio. Anote num papel 5 palavras que você imagina que ele disse naquele momento e procure o significado profundo dessas palavras. Não se surpreenda se todas elas (1) forem muito comuns no nosso dia a dia e (2) representarem a cristalização da mesma violência de que ele é acusado.

 

[7/4] Trump faz o que sabíamos que faria: um mundo ainda mais feio, à sua imagem e semelhança. Cerca os EUA e parte para o ataque contra o resto do mundo. Do muro pra lá, o que ele vê é justamente “resto”. Make America great again? Sim, mas a humanidade pagará a conta. Diz que pediu sabedoria a Deus para atacar a Síria: levar, no coração das bombas, “justiça, paz e harmonia”. Sua América – em sua cabeça – é uma ilha cercada de terrorismo por todos os lados. Já ouvimos muito esse discurso. Normalmente, é assim que se inauguram pesadelos.

 

[7/4] Precisamos falar sobre isso. Quando soube da acusação de estupro contra o Rafael Schincariol nos EUA, minha primeira reação foi de perplexidade. Ele estudou comigo na pós-graduação, participou (com sua namorada) de um livro que organizei, convivemos durante um tempo no mesmo grupo de pesquisa sobre Teoria Crítica e Direitos Humanos e, de lá pra cá, o encontrei em alguns eventos de direitos humanos e defesa da democracia. Não sabia o que ele estava fazendo atualmente, porque não éramos próximos, mas era alguém que eu via como sendo “do mesmo campo”. E era. E é – e este é justamente o ponto que me deixa mais perplexo! Com todo respeito à presunção de inocência e ao direito que ele terá de se defender, o fato de que essa acusação se some a tantas outras da mesma natureza, dentro dos ambientes considerados “progressistas”, nos obriga a perguntar com sinceridade e urgência: por que nossas ideias de respeito à dignidade não têm conseguido ser plenamente eficazes nem na fatia minúscula dos militantes e pesquisadores da área? Li a matéria publicada nos EUA e logo depois a sua versão para o Brasil já incluía, com destaque, o fato de Rafael ser “militante de esquerda”, pesquisador dos direitos humanos, contrário ao golpe etc., tudo bem à brasileira, mas não temos razão para esquivar também de debater a cultura do estupro entre nós – “macho adulto branco sempre no comando”, como cantou Caetano Veloso -, porque toda a luta em defesa dos direitos humanos e, em especial, a luta em defesa dos direitos das mulheres como um de seus principais eixos, retrocede absurdamente quando a violência é cometida por quem tem plena consciência dela e, até então, estava entre seus defensores. Não ligo para quem vive esperando algo assim para bater nos direitos humanos, mas penso que se trata de algo grave demais (não só o caso dele, mas as diversas denúncias que se sucedem pelo mundo) para ser circunscrito a mais um “caso isolado” ou soterrado pelos argumentos todos que a cultura do estupro costuma lançar contra as vítimas. Já vimos muitas vezes onde isso termina – e é bem longe do que deveria ser.

 

[10/4] (Não vi nada disso de que estão falando aqui nas últimas horas. E isso é quase a felicidade.)

 

[11/4] Bom demais ver toda essa agitação em torno da obra de Pachukanis. Claro que o Brasil continua sendo o país estranho em que, de uma hora para outra, saltamos da inexistência de uma obra nas livrarias para o lançamento simultâneo de duas traduções… no caso, duas versões diretas do original russo, com aparato variado etc. Esperávamos há tempos por isso e, agora, é hora de torcer para que os esforços se somem e deem visibilidade para estudiosos que vinham, contra todas as dificuldades, batalhando na divulgação das ideias de Pachukanis por aqui. Meu desejo, mais uma vez, é de que, também no pequeno campo que a esquerda ocupa no direito, tais iniciativas se fortaleçam mutuamente. Vai ser muito triste se, por conta de alinhamentos outros (como já tenho ouvido por aí), fraturar-se mais e mais a pequena fatia da crítica marxista do direito, que tem sido cada vez mais necessária. De minha parte, essa união de esforços é uma das lutas a que vou continuar me dedicando.

 

[12/4] Estou vendendo a postagem abaixo. Os 100 primeiros ganham uma camiseta da CBF, um pau de selfie e um pato de borracha.

“Temer, Aécio, Serra, Alckmin, Aloysio, Padilha, Kassab, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Paulinho da Força, Renan, Jucá, Anastasia, Collor, Russomano? Meus exemplos de boa conduta, competência e espírito republicano. Homens que gritaram alto contra as imoralidades deste país e agora estão colocando as coisas no eixo! Esse petista do Fachin deve estar brincando. Tudo mentira. Duvido que meus heróis tenham algo a ver com essa bandalheira.”

 

[12/4] A bancada do PSDB está dizendo que essas acusações não podem travar a “agenda do país”, que eles têm que continuar votando as prioridades etc. Então, fica a dica para você que for preso roubando algum dinheiro por aí: explique ao policial que sua prisão vai bloquear os projetos que tinha para a grana e que “são cruciais para a reativação da [sua] economia”.

 

[12/4] Só mais uma coisinha: a gente está há alguns anos assistindo à depredação escancarada da sigla do PT, na tevê, na capa dos jornais e revistas, na boca de procuradores e juízes etc. Agora, quando o partido queridinho dessas mesmas empresas, instituições e pessoas, o PSDB, é colocado no centro das delações, aparece um discurso para “não partidarizar”, porque “a corrupção está em todos os partidos” etc.? Calma lá… a gente não pode dizer que o PSDB é uma “organização criminosa” e colocar no powerpoint e achincalhar em bloco? Já não basta toda a blindagem que a grande imprensa faz para o PSDB e a lavagem cerebral eficiente que isso implica (a pessoa, por exemplo, pode ter sido assaltada mil vezes nos últimos 20 anos em São Paulo e ainda assim aplaude os discursos numéricos do governador sobre segurança pública), agora vamos embaçar o noticiário para não ver o que salta aos olhos? Quero apostar com vocês: todo esse barulho vai passar, vão pegar os “pegáveis” de sempre e, nas próximas eleições, o PSDB não será atingido por essas denúncias. Se bobear, até Aécio estará vivo politicamente. E nosso desespero será ver Geraldo, Dória e todos esses prefeitos e deputados com suas bem passadas camisas azuis e gravatas amarelas ocupando os mesmos palanques de sempre, como se nada disso tivesse acontecido. Aliás, como se somente tivesse acontecido com relação a seus adversários. Como sempre.

 

[12/4] Um triplex que tem outro dono. Um sítio emprestado. Quarenta milhões que não foram sacados (!?!). Isso é tudo, produção? Definitivamente, já tivemos melhores “chefes de quadrilha”…

 

[13/4] GRANA BRUTA. Diante dessas notícias da Odebrecht, fiquei pensando numa coisa: os valores. A grana toda que circulou por fora dos caminhos oficiais para os próprios empresários, executivos, políticos, intermediários, doleiros etc. E também a grana toda que a empresa ganhou como lucro desses negócios. Tente somar tudo isso e, claro, não esqueça: a Odebrecht era apenas uma das empresas a ganhar e dividir tanta grana dessa forma. Tente somar aí. E agora pense no bolso dessa turma toda e lembre que (1) são esses empresários que dizem que os direitos dos trabalhadores inviabilizam o crescimento do país e (2) são esses políticos que estão mudando leis para tomar direitos trabalhistas e previdenciários, entre outros direitos sociais, porque “custam caro demais”. Todos esses milhões e milhões são o negativo de bolsos esquálidos, panelas vazias, geladeiras tristes. São a face rica de um país coberto de pobres, que vão se tornar ainda mais pobres para pagar essa conta. Ainda que alguns desses políticos e empresários saiam de cena, não temos nada a comemorar enquanto nossas vidas forem decididas (e destruídas) para caber nesse mesmo esquema de concentração de riqueza, ora mais sujinho, ora mais limpinho. Com ou sem delações, o nome disso continua sendo capitalismo.

 

[13/4] Ler sobre rodas. Escrever andando. Por onde você andaria com a bicicleta do Bruce Chatwin? A que lugares você iria depois de ter lido “Um bom par de sapatos e uma caderneta de anotações”, do Tchékhov? Que ruas sua mochila merece? Quantas páginas cabem em cada passo?

 

[16/4] Muito curioso ver a Globo falando de corrupção com tom de surpresa e escondendo, por exemplo, que um de seus xodós, Diogo Mainardi, é acusado de estar na mesa com Aécio na hora de acertar esquemas com empresários. Nóis é tudo tonto?

 

[17/4] De tudo que tem acontecido no Brasil nos últimos anos, uma coisa muito me intriga: quem teve a ousadia de usar a palavra “coxinha” para algo depreciativo? E mais ainda: como é que caímos nessa de acreditar numa oposição entre coxinha e mortadela, se bem sabemos que são complementares nos melhores cardápios rueiros deste pobre país? E hoje, aliás, descobri que a coxinha é “ingourmetizável”, o que só melhora sua reputação nos meus balcões. Vi um programa de um chef gringo que experimenta comidas de rua e depois faz “releituras” requintadas das iguarias que o povão adora. Pois bem, diante das coxinhas, ele se rendeu e admitiu que “não tem o que melhorar”. Eu já sabia. Acho que devíamos fazer um grande ato de retratação por termos envolvido essa instituição nacional em baixarias de virar o estômago. Pode ser num boteco qualquer por aí.

 

[17/4] Vai fazer uma semana que estamos ouvindo detalhes das delações durante todo o dia… e o mais louco é que não há, nisso tudo, uma surpresa sequer. Só um tapa ou outro na nossa cara pálida.

 

[18/4] Segue o pesadelo. Estamos vivendo dentro de um programa de televisão. Péssimo programa. Na semana passada era Silvio Santos “delimitando”, na frente das câmeras, a pauta de uma funcionária. E hoje aparece essa espécie de cover do Silvio Santos com Roberto Justus (que “ameaça” ir embora do país) demitindo uma secretária no youtube (ver no comentário). Luciano Huck ameaça ser candidato. No rádio ouço a notícia do alvoroço que o depoimento de BBBs causou na delegacia. A Globo, que apoiou golpe e ditadura anteriores, lança uma novela sobre ditadura logo após apoiar outro golpe. O presidente golpista dá uma entrevista elegante explicando as razões do golpe. Vazamentos de audiências sigilosas ocorrem ao vivo, sob a vista grossíssima do juiz, no site em que trabalha um dos investigados. Qual a graça dessas piadas todas? Quando é que os telespectadores saem do transe? A cada dia aumenta em mim a impressão de que até nossos desabafos, xingamentos, protestos etc. já fazem parte do cálculo dessa corja. Tudo parece ser já risonhamente esperado por esses donos do circo em que a atração são nossos sucessivos tombos da corda bamba. É urgente darmos passos que eles não esperem, muito menos de que possam rir.

 

[18/4] Nove mentiras e uma verdade sobre nosso presidente:

  1. ele é o autor de algumas das principais obras de Direito Constitucional de todos os tempos
  2. nunca tinha ouvido falar de Odebrecht até o Fantástico do último domingo
  3. a melhor piada de sua vida foi escolher o lema “Ordem e Progresso” para seu governo
  4. jamais manteria no cargo um ministro que fosse investigado por corrupção
  5. é o mais importante poeta brasileiro depois de Drummond, ou melhor, acima de Drummond
  6. nove entre dez mulheres pensam nele quando dizem que preferem homens mais velhos
  7. foi leal à presidenta até ser inevitável assumir o cargo para salvar o país da corrupção e da incompetência
  8. jamais enviou cartas magoadas com expressões em latim
  9. ensaiou discursos de posse no whatsapp, mas não sabia que é impossível desfazer envio
  10. tem medo de fantasmas, em especial o de Eduardo Cunha

 

[18/4] É claro que Luís Inácio é o ‘crush’ dos sonhos lá de Curitiba. Ou vocês conhecem uma cantada mais descarada do que obrigar a participar pessoalmente de 87 oitivas de testemunha?

 

[19/4] SOUTO MAIOR NO CENTRO DO RODA VIVA: na última segunda, o programa Roda Viva entrevistou o relator da reforma trabalhista, dep. Rogério Marinho (PSDB/RN). Em meio aos entrevistadores, a presença do prof. Jorge Luiz Souto Maior chamou atenção, não apenas pelo posicionamento frontalmente contrário à reforma, mas pelo conhecimento profundo da história e da situação atual do Direito e da Justiça do Trabalho, acumulado durante uma vida dedicada ao estudo, docência, pesquisa e magistratura na área. Mas, infelizmente, ele era apenas um dos entrevistadores, foi interrompido várias vezes e não conseguiu desenvolver como se deve sua reflexão e esclarecimentos sobre os diversos temas da reforma. Se a TV Cultura quer, de fato, colaborar com o debate sobre a reforma trabalhista, deve convidar com urgência o prof. Souto Maior para ser o entrevistado do programa. Este será o verdadeiro contraponto, desfazendo os mitos que a grande imprensa alimenta sobre o assunto e, assim, favorece a derrubada de direitos duramente conquistados pela classe trabalhadora. Por favor, ajudem a divulgar essa causa!

 

[19/4] CENSURA NO CULTURA LIVRE: está circulando uma alarmante denúncia de censura ocorrida no programa Cultura Livre, polo importantíssimo para divulgação das mais diversas faces da nossa rica cultura musical. Em 11 de abril, o grupo Aláfia participou do programa e cantou a música “Liga Nas de Cem”, que fala de segregação racial na cidade e denuncia também o papel que o poder público exerce, citando nominalmente o governador e o prefeito de São Paulo. Na versão que foi ao ar, a parte em que os políticos foram citados foi cortada. Sim, cortada, sem o consentimento dos músicos, obviamente, ou da criadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli. O nome disso é um só: CENSURA. Trata-se de fato gravíssimo, num canal público ou privado, seja por ordem dessas autoridades ou por receio de perseguições. A TV Cultura é bancada pelo Governo do Estado, mas não pode ser transformada num órgão de propaganda do partido que manda no Estado e na prefeitura. Ela pertence ao povo de São Paulo e deve ser usada para que o povo se expresse. Não vamos nos distrair com as versões ficcionais do que foi a ditadura anterior enquanto muitas de suas práticas nos cercam e ameaçam. Fiquemos ligados e cobremos das autoridades!

 

[24/4] Não apenas no Brasil, as derrotas de quem defende a ampliação da democracia e os esforços de justiça social têm sido cada vez mais duras, com perspectivas ainda piores logo à frente. Só não vê quem não quer. Por isso, e não só por isso, dia 28/4 é dia de parar a máquina: aderir à GREVE GERAL nos limites da sua força, da sua atuação. Ir para a rua nem que seja para ver quantas pessoas também aderiram. Ou ficar em casa ou num parque, numa praça, lendo a história que as lutas da classe trabalhadora não permitiram que fosse apenas de derrotas. A história dos direitos que estão sendo tomados sem cerimônia. Cruzar os braços na sexta-feira pode ser o recomeço dessa história de vitórias importantíssimas, que só pode ter como protagonistas e guardiões os próprios trabalhadores. Sei, no entanto, de vários amigos que temem ser perseguidos no trabalho se aderirem à greve geral. Entendo. E torço para que, de alguma maneira, consigam parar, nem que seja por dentro, para pensar o que significa essa relação constrangida em que muitos terão que passar o dia fingindo que está tudo bem, que nada está acontecendo com seus direitos, para não perderem seus empregos. Isso tudo tem muito a ver.

 

[24/4] No estranho país que passa os dias em frente à televisão assistindo às delações de empresários sobre como tiram os obstáculos públicos da frente dos seus interesses privados, mas ainda assim acha que a solução é entregar para esses empresários o comando da máquina pública, aviões da FAB são usados para levar “políticos e membros do judiciário” (distinção antiga…) para um encontro organizado pelos filhos (ãhã…) de João Dória, num resort 5 estrelas em Foz do Iguaçu, que inclui “coquetéis, torneios de tênis, golfe e de futebol society, aulas de vinhos, test drive de automóveis Mercedes Benz, degustação de uísques e um show com Sidney Magal no encerramento”. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

 

[25/4] Anote o nome: LAREG EVERG.

 

[26/4] Por que a advocacia também deve aderir à greve geral? Advogados – sejam autônomos ou empregados – normalmente se esquecem de que também são trabalhadores e que, portanto, em sua maioria, dependem dos mesmos direitos que seus clientes. Junto a isso, boa parte da advocacia também tem muitas outras razões para se posicionar contrariamente ao que temos assistido no Brasil: menos direitos e menos respeito aos direitos também significam menos advocacia e menos respeito à advocacia. A advocacia, que tanto se orgulha de estar na Constituição como “indispensável à administração da justiça” (art. 133), não pode perder oportunidades de deixar claro também que os direitos que defende são essenciais à sociedade em que vivemos. Todos à luta!

 

[26/4] (Alguns minutos de TV Câmara ao vivo… e você descobre que a desesperança pode atingir níveis que seu pessimismo ainda insiste em subestimar.)

 

[27/4] John Lacoste, alcaide do burgo principal desta capitania, já se entusiasmou com greve geral para derrubar presidenta, mas agora ficou magoado com greve geral contra derrubada de direitos e, como sói acontecer, buscou “parceiros na (iniciativa) privada” para garantir que tudo siga normalmente no país anormal em seu momento (mais?) anormal. “Não tem busão? Vem de Uber, ora bolas!”, disse o chefe. Tal qual atribuem por aí à distinta Maria Antonieta: se o povo não tem pão, que coma brioches; se não tem água, que tome champanhe.

 

[27/4] Meus malvados favoritos:

 

gente que ameaça ir pra Miami

e diz que grevista é partidário

vê a vida com olho de banqueiro

mas, com sorte, é bancário

 

[27/4] Greve: direito de não ir nem vir. Exerça-o. Respeite que o exerçam.

 

[30/4] Belchior: o sentido do mundo rareia.

 

[30/4] Pra cada 1000 Dorias que nascem, nasce um Belchior. Pra cada 100 Dorias que sobrevivem, sobrevive algum Belchior. Pra cada Doria que existe, 100 Belchiores desistem de existir, desistem da vida, dessa vida. Nossa tarefa é salvar Belchiores. É ter mais Belchiores – cheios de chama, alma, fibra – que Dorias. E hoje é dia disso: ouvir Belchior até não haver mais o mundo de que Belchior desista. Chapar de Belchior.

Do fb pra cá [março]

[1/3] Tomar um ar lá fora: sempre.

 

[1/3] ÚLTIMO BRINDIS
Nicanor Parra

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó…,
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.

 

[2/3] Demorou, mas Michel Miguel aderiu ao #ForaTemer. Não quer mais morar no Alvorada, vai voltar pro Jaburu. Nostalgia da vice-figuração. Não demora (tomara!), vai pedir para não ser chamado de presidente e voltar a mandar cartas lamuriosas para uma cadeira presidencial vazia que o despreza, que “nunca confiou em mim”, nem coberta de enxofre. Parece piada. E é. Mas é triste.

 

[3/3] Ê Brasilzão véio. Com Aloysio Nunes como chanceler e o goleiro Bruno assediado para selfies, talvez seja o caso de usar a quaresma pra prometer algo mais radical do que não comer carne ou beber. Tem que deixar de fazer algo realmente vital, uma grande provação para nossa fé. 40 dias sem falar palavrões, por exemplo.

 

[4/3] ALPHA 25 Tentando responder às perguntas de um jornalista sobre os 25 anos do Alpharrabio, lá naquela parte das respostas que normalmente ficam de fora da matéria, me ocorreu uma constatação tão óbvia, tão na cara, daquelas que sempre escapam: neste lugar do mundo em que as estações de trem são tão determinantes, tão organicamente responsáveis pelo que a cidade e a região são, o grande modelo para um “centro cultural” só poderia mesmo ser o das estações, lugares de chegadas e partidas, de conhecidos e desconhecidos. E logo começou a tocar na cabeça esse hino que parece ter sido feito para o Alpharrabio: “Mande notícias do mundo de lá diz quem fica me dê um abraço venha me apertar tô chegando coisa que gosto é poder partir sem ter planos melhor ainda é poder voltar quando quero todos os dias é um vai-e-vem a vida se repete na estação tem gente que chega prá ficar tem gente que vai pra nunca mais tem gente que vem e quer voltar tem gente que vai e quer ficar tem gente que veio só olhar tem gente a sorrir e a chorar e assim chegar e partir são só dois lados da mesma viagem o trem que chega é o mesmo trem da partida a hora do encontro é também despedida a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar”. Como é que não pensei nisso antes? Eis o segredo escancarado para que aquela casa da rua Eduardo Monteiro seja uma casa sem fim, sem limites, voando bem além de suas paredes. Pois é: um quarto de século na casa do infinito. É por isso que, em verdade, não conhecemos nem conheceremos completamente o Alpharrabio: pra ser o Alpha de sempre, ele é sempre um novo Alpha. E só temos a agradecer.

 

[4/3] João Victor Souza de Carvalho não vai mais ao Habib’s. O menino pedia dinheiro, como tantos neste país. Os pais são miseráveis, como tantos neste país. A testemunha é nóia, como tantos neste país. Os policiais fingem não enxergar um palmo à frente do nariz, como tantos neste país. Todos os ingredientes da tragédia cotidiana. Carne barata para o banquete da nossa covardia. Estranha sociedade que fica indiferente à morte do menino pobre, como se dissesse que, naquela situação, mais dia, menos dia, logo encontraria seu destino trágico e inevitável. Mais um: menos um. (Vocês já leram o “Mineirinho”, da Clarice Lispector?) Carregado como lixo – ou menos que isso – de um lado para outro da rua. Descartável, descartado. João Victor Souza de Carvalho não vai mais ao Habib’s. E vocês?

 

[5/3] Chegou o dia. Eu tinha certeza de que, em pouco tempo, leria essa manchete: “Flagrado em atos de corrupção, mercado de construção vira alvo de empresas estrangeiras”. Junto ao projeto de bem-estar social inscrito na Constituição, sempre me pareceu que eram o pré-sal e os bilhões das obras de infraestrutura que estavam no alvo do golpe. Eis que, cada vez mais, os frutos vão se escancarando diante da nossa cara triste.

 

[5/3] Participação na semana Marxismo e Direito, da PUC/SP, novembro 2016:

https://www.youtube.com/watch?v=UBnDmWQ7UHI&feature=youtu.be

 

[7/3] A versão judiciária do “a bola é minha, se eu não jogar, ninguém joga”. Vale lembrar, no entanto, que nenhum perna-de-pau foi muito longe agindo assim. Um dia outra bola aparece no campinho.

http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2017/03/faca-concurso-para-juiz-diz-moro-apos-ser-questionado-por-advogado.html

 

[8/3] Uma ideia com meia hora de atraso: acho que o melhor que um homem tem a fazer neste 8 de março é não dizer uma única palavra aqui. Quase tudo que ouvimos e lemos, aqui e além, são vozes e palavras de homem. Que o dia hoje seja apenas dedicado a ouvir e ler o que as mulheres têm a dizer. O meu será.

 

[9/3] Temer devia ter seguido meu conselho e ficado quieto ontem, prestando atenção ao que as mulheres têm a dizer. Mas aí ele não teria sido fiel a si mesmo, porque sua função como presidente sempre foi tripudiar dos direitos mais importantes da população, na prática e no discurso. Aliás, ele nunca alimentou a esperança de que pudesse dizer algo melhor do que disse ontem sobre as mulheres. Um golpista que chegou à presidência apoiado num ataque ao papel que a mulher pode exercer, mantém-se multiplicando esse ataque. Com a coerência de uma ratazana: (cor)roendo tudo.

 

[9/3] A declaração de Rodrigo Maia sobre não dever existir a Justiça do Trabalho (assim como a “homenagem” deplorável de Michel Temer ao Dia da Mulher) está no campo do absolutamente previsível vindo de quem vem. E é muito útil que se exponha assim, para que ninguém mais duvide que a sociedade tem lados (quase escapou um “classes”), que há disputas (quase escapou um “lutas”) entre esses lados e que, neste momento, os políticos nas principais cadeiras representam apenas um desses lados. Vocês sabem qual.

 

[9/3] «Devo seguir até o enjôo? / Posso, sem armas, revoltar-me?»

A gente lê as notícias da USP, da UERJ, da Previdência, do Direito do Trabalho, de tudo… e essas perguntas do Drummond, em “A flor e a náusea”, ficam cada vez maiores e explodem na cabeça.

[10/3] Bom dia. Contam por aqui que os âncoras da grande imprensa estão se esforçando em dar razão (ó que surpresa!) para Rodrigo Maia, afirmando que a Justiça do Trabalho não deveria existir. Vale lembrar, de pronto, que esses âncoras, normalmente, são “pejotas” bem remunerados, então têm essa sensação de que não precisam de direitos, só de dinheiro, e que isso vale pra todo mundo. Tontos e cruéis. Mas o mais importante é lembrar que o que não deveria existir mesmo é essa anomalia antidemocrática: empresas de “jornalismo” gigantes como as que aqui existem, poderosíssimas e associadas aos poderosíssimos para manter seus privilégios a todo custo.

 

[10/3] Li a notícia de que Bruno voltou a ser goleiro e lembrei que meu TCC, no distante ano 2000, foi sobre direitos do preso e ressocialização. Nem lembro bem o que escrevi na época, mas tenho certeza de uma coisa: esse tratamento que Bruno está recebendo não tem nada a ver com “direitos do preso” e “ressocialização”. No caso dele só consigo ver privilégio, ou seja, ele matou a moça que havia engravidado (negou a ela, assim, o direito de continuar viva para lutar pelos direitos de seu filho) e agora tem acesso a um nível de ressocialização que, infelizmente, não conseguimos — como política pública — garantir a ninguém neste país. Por aqui, as políticas públicas tropeçam, mas o futebol, a grana, a fama operam milagres. Milagres e privilégios, bem sabemos, não têm nada a ver com direitos. Nada. Enfim, já que nesta terra temos a cada dia que nos contentar com menos, talvez valha torcer para que os atacantes adversários encerrem a carreira do Bruno logo. Gols valem mais que tudo por aqui, inclusive vidas.

 

[11/3] Acho que foi o prof. Franklin Leopoldo e Silva que disse uma vez: Sócrates é “o patrono da Filosofia”; se visse o que a Filosofia virou, teria vergonha desse título. É bem verdade que, a meu ver, nem toda Filosofia cabe nessa crítica, mas lembrei disso hoje por causa da foto do “pensador” com o “juiz”. Haja aspas. E lembrei porque lembrei de Sócrates, cuja imagem sempre me remete à ideia de que o filósofo talvez fique mais confortável apanhando na praça ou sendo condenado à morte por causa de suas ideias, do que recebendo aplausos por elas ou, ainda menos, por falar bonito. Quem quer mesmo ir até onde a Filosofia pode nos levar não aceita atalhos, nem se deixa levar pelas aparências. Vai até as raízes e — como diria um outro barbudo, já no século XIX, que bem poderia ter sido um parceiro de surras do Sócrates — sangra para levar suas ideias à ação, que é, afinal, o que realmente importa.

 

[13/3] Alegria participar desse dossiê em homenagem a Max Martins, na revista Moara (n. 46), do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPA. Escrevi o artigo há quase 15 anos, quando andava para lá e para cá com um exemplar da poesia reunida do Max Martins (1926-2009) falando pros amigos o quanto aquilo me encantava, e por isso comemoro que, atualmente, haja um dossiê como esse dedicado a Max (bem como o seminário que o precedeu na UFPA) e que a reedição de sua obra livro a livro esteja avançando, sob os cuidados de Age de Carvalho. Passem por lá: Max merece!

http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/moara/issue/view/252

 

[13/3] Algumas linhas para Thiago Ponce de Moraes, conversando sobre “dobres sobre a luz”, seu recente livro de poemas, do inbox para a Revista Caliban.

https://revistacaliban.net/dobres-sobre-a-luz-um-email-e-um-ps-6f5a52fc4b8

 

[13/3] Com a cabeça cheia das notícias sobre as Deformas da Previdência e da legislação trabalhista, avaliando um artigo sobre anarquia e desarticulação do poder e pensando nos murais trazendo revolta a esta tela e nos muros cobertos de tinta cinza e nas outras formas de silenciamento que cada vez se esparramam mais ao nosso redor, as cenas de EU, DANIEL BLAKE bateram forte. O pronome pessoal e o nome próprio, único, em destaque, podem levar a enganos: há outras tantas vidas na trama do desmanche e muitas outras mais a que elas se referem. E tudo vai bem além do nonsense da burocracia em contraposição às formas tímidas de solidariedade e assistência social que pontuam a história. Tem um chamado ali, uma conclamação. Tem a demonstração de um limite. A constatação do labirinto em que estamos. Alguém já decidiu o que as paredes desse labirinto vão significar para nós, em todos os sentidos. Só nos resta não acatar.

 

[14/3] Como é que se quebra a máquina? Pergunto em voz alta em meio ao esforço diário e crescente para não ser vencido pela convicção de que, assim como nossos “não vai ter golpe” não impediram tudo que aconteceu desde então, nenhum “fora Temer” tirará Temer de lá; que nem todos os “sou contra a Reforma da Previdência” barrarão isso que é bem mais que uma reforma; que nossos gritos de “respeitem nossos direitos” continuarão sendo motivo de piada; que a famigerada “delação do fim do mundo” não acabará com o mundo de quem deveria; que nosso repúdio generalizado não fará cócegas no “projeto de país” que está sendo executado com orgulho diante dos holofotes parcialíssimos da grande imprensa. Por quê? Porque do outro lado, de ouvidos e olhos e interesses blindados, vem um trator que já conhece bem nosso comportamento e não liga minimamente para nossos gritos, antes, durante ou depois de nos atingir.

 

[14/3] (Quando entro aqui, tarde da noite, e vejo 5 ou 6 dos meus amigos mais inteligentes e eruditos gastando uma energia incrível para atacarem uns aos outros — e chego a ter medo de dizer que, apesar dos pesares, vejo todos como pertencentes ao mesmo lado na guerra em que estamos metidos –, fico pensando que o Zuckerberg, enquanto achamos que queria apenas soterrar a inteligência sob tanto barulho, na verdade criou o facebook para que as melhores possibilidades de compreensão da realidade se destruíssem mutuamente. Sem outros frutos. Sem os frutos que importam.)

 

[15/3] Aparece a lista do Janot aos poucos. Nela, até onde vi, tem toda a turma do Temer, os presidentes da Câmara e do Senado, diversos outros senadores, deputados, 10 governadores. Mas, em todo lugar em que foi publicada, o primeiro comentário é “Mas o PT isso”, “o PT aquilo”. É a alegria de Renan, Padilha, Aécio, Serra, do PMDB e do PSDB todos, que atingiram um novo tipo de blindagem. Por isso que ninguém se espanta muito com um ministro do STF que diz que há caixas 2 que são crime e outros que não… E eu só queria saber fazer memes com aquele menininho: “Mis i piti qui ribi, i Lili qui tim qui si prisi”…

 

[15/3] Com a maior das boas intenções, creio, está circulando bastante hoje uma postagem que fala de ser “escravo do século XXI no Brasil pós-golpe”. A postagem é irônica, claro, até sarcástica, com dicas para se tornar esse escravo. De todo modo, mesmo com sarcasmo, eu acho problemática a abordagem. Primeiro porque, tragicamente, esse escravo do século XXI aqui no Brasil ainda vai conviver com o escravo dos séculos anteriores, que continua sendo conservado a duras porradas (vide a lista do trabalho escravo que o governo Temer tentou esconder) e, ao lado disso, porque coloca peso demais nas condutas individuais de cada trabalhador (“saque o FGTS”, “torre o dinheiro”, “fique desempregado”, “aceite um trabalho terceirizado”…), como se fossem decisões livres e irresponsáveis dele e não a imposição cruel do sistema capitalista que eu acredito que é. Tenho cá pra mim, por exemplo, que boa parte dessa grana do FGTS vai sair direto da Caixa para outros bancos e operadoras de cartão de crédito, como uma forma de aliviar o massacre dos juros sobre os trabalhadores endividados. E sei da crueldade que isso significa, porque o FGTS dizia respeito ao futuro, mas Temer deu um jeito de fazer com que ele salvasse também o seu presente e reduzisse, se eu estiver certo, boa parte da inadimplência bancária. Todas as minhas acusações se voltam contra esse uso espúrio do FGTS, mas jamais vou criticar o trabalhador que está correndo para sacar o quanto puder e acertar suas contas ou comprar seja lá o que for. Enfim, este é só um exemplo para mostrar porque acho tão complicado tratar essa “escravização do século XXI” como uma espécie de “servidão voluntária” dos trabalhadores. (A expressão “aceite um trabalho” já faz pouquíssimo sentido em geral, mas é ainda pior vê-la relacionada à terceirização.) Podemos até discutir em que medida os trabalhadores contribuíram para chegar até aqui, mas não deixar de problematizar a medida em que essa sua contribuição foi determinada pelas condições de existência a que foram rebaixados e vêm sendo cada vez mais.

 

[15/3] Os protestos de hoje contra os ataques à Previdência Social — melhor dizer: os protestos que começam hoje e que espero que se mantenham, ampliem e intensifiquem — não têm espaço para outras cobranças, disputas e rancores. Não importa sua posição nas manifestações dos últimos anos, é hora de marcar posição contra o que Temer e sua gangue estão fazendo contra todos, não apenas contra quem disse “não vai ter golpe”. Vai muito além de qualquer vingança contra quem nunca o quis como presidente; é um ataque contra quem estava a favor, quem estava em dúvida, quem estava indiferente, contra todo mundo. Claro: contra todo mundo que depende da Previdência Social ou que reconhece sua importância para nosso país. Se não for este o seu caso, Temer talvez não seja problema seu. Por enquanto.

 

[15/3] Não me perguntem a razão, mas professoras e professores têm muita cara de… professoras e professores. Há um certo jeito de colocar os óculos, carregar a bolsa, falar com todo mundo… que só professor tem. A Paulista estava linda, difícil até se mexer (pelos meus cálculos, éramos cerca de 7.365.232 pessoas lá), mas subir a Consolação toda no meio daquele monte de professores foi a parte mais marcante. Quando os PMs passavam com motos e carros voando em meio a pessoas distraídas, em clara intimidação, eu só pensava na absurda gratuidade de fazer aquilo no meio daquela imensa sala dos professores. Li em algum cartaz que “a aula hoje é de cidadania”. Tomara que tenha sido, porque não faltaram professores dessa e de outras matérias lá.

 

[16/3] Dias atrás circulou a notícia de um juiz que cancelou audiência porque o lavrador estava de chinelo. Hoje li sobre uma outra audiência que foi tumultuada porque o juiz se negava a deixar o procurador sentar à mesa sem gravata. (Nos dois casos, pelo que soube, o desfecho acabou sendo positivo, a despeito da vontade dos juízes.) Estamos em 2017. É sério. Direitos são obstruídos pelo fato de usar chinelo ou não usar gravata. Toda vez que leio algo parecido, mais do que notícias que acabam chamando muito mais atenção, bate uma tristeza terrível: se não passamos desse nível mais superficial, mais aparente, mais formal e cosmético, como é que podemos querer que os direitos e suas instituições (não só o Judiciário, mas também o Ministério Público, a Advocacia, as Faculdades, tudo) nos ajudem a fortalecer a cidadania, a democracia, os direitos humanos por aqui? Quero estar vivo para ver isso tudo perder sentido.

 

[16/3] A convite do Alberto Pucheu, escrevi um pouco sobre o livro de Rubens Rodrigues Torres Filho na Coleção Postal, para o blog “O cuidado da poesia”, no site da revista Cult. Passem por lá!

https://revistacult.uol.com.br/home/desde-que-seja-leve/

 

[16/3] TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL.

 

[17/3] A gente faz piada, mas só pra lembrar como são graves essas notícias de hoje: JBS e BRF envolvem empresas como Sadia, Perdigão, Qualy, Bertin, Bordon, Friboi, Swift, Maturata, Organic Beef, Seara, Danúbio, Doriana, Faixa Azul, Leco, Serrabella, Vigor, Itambé, Minuano, entre muitas outras… E não temos razões para acreditar que as outras grandes marcas, que conseguem concorrer com esses grupos na alimentação de larga escala, consigam (ou queiram) produzir em condições muito diversas. Na sociedade capitalista, não custa lembrar, comemos comida capitalista, isto é, comida que tem que dar muito lucro. E quem quiser comer melhor, claro, é só pagar mais (e ter fé…). É de virar o estômago, não?

 

[19/3] Pra demonstrar confiança na carne brasileira, Temer levou seus convidados a uma churrascaria que só vende carne importada. Nada demais. Temer é coerente. Antes disso, pra fortalecer a democracia, ele usurpou o voto popular. E pra acabar com a corrupção, vocês sabem, ele dá cada vez mais poder aos investigados. Estamos no rumo certo, não?

 

[20/3] (Um alerta pra quem gosta da culinária japonesa e de tudo que a acompanha: passem longe das séries “Midnight Diner: Tokyo Stories” e “Samurai Gourmet” [acho que havia mil nomes melhores para a série…], da Netflix. As histórias são leves, mas as cenas viciam e você passa a madrugada sonhando com hashis voadores.)

 

[20/3] Rodrigo Maia colocou na pauta de amanhã o PL 4302 da terceirização. É tão grave o ataque aos direitos trabalhistas que, pra boa parte dos trabalhadores, a aprovação dessas mudanças significa não ter mais porque se preocupar com a Previdência, quero dizer, sem ironia, boa parte da mão de obra será negociada bem longe do sistema em que a Previdência se estrutura e justifica. Uma tragédia.
Se for aprovado (e tudo indica que será), o recado é o seguinte: o art. 7º da Constituição pode ficar como está, como peça decorativa, mas o caminho até aqueles direitos vai ficar insuportavelmente árduo e longo. É a anulação prática dos direitos trabalhistas para a imensa maioria dos brasileiros.
Desde o início, quando Temer ainda era interino, uma estratégia já me parecia bastante clara: um ataque múltiplo, veloz, simultâneo, em todos os setores dos direitos sociais, da infraestrutura pública etc., para que a sociedade, mesmo suas parcelas mais organizadas, não tenha tempo de reagir à altura. Vai ficando cada vez mais evidente que o golpismo opera dessa maneira: dá um tranco ou mais por dia na nossa atenção e, enquanto estamos atordoados, realiza seus principais projetos. Vai ser assim até passarem tudo. Informe-se e informe quem estiver por perto.

 

[20/3] Vocês não se incomodam de saber que nossos parlamentares estão aprovando leis e emendas que jamais tiveram ou terão coragem de defender durante suas campanhas eleitorais? Desfazendo em meses, sem debate, uma rede de direitos que resulta de décadas e décadas de muita luta? O MÍNIMO que devemos é deixar claro o quanto de traição há nessas “reformas” e fazer de tudo para que essa corja, se concluírem seus mandatos e o caminho ainda for a urna, nunca mais seja reconduzida — NEM 1 VOTO!

 

[21/3] Como esse lance de defender direitos anda muito incerto, estou bolando uns roteiros para filme de terror. Num deles, Michel Temer nomeia Marcela para substituir Carmen Lúcia no Supremo. Em outro, Capez ganha uma indenização do Estado porque a carne das merendas desviadas não era de boa qualidade.

 

[21/3] Sejamos todos – na miúda, na calada, na larga, nos muros, nas salas, nas mesas, nas redes, no palco, nas páginas – a imprensa que a autoridade não quer deixar falar. Até faltar jaula pra nossa vontade de gritar.

 

[22/3] Advertência: os “recuos” de Temer, Maia ‘et caterva’, assim como seus “avanços”, afagos e tudo mais, NUNCA são confiáveis, muito menos elogiáveis. “Expect poison from the standing water”, sempre.

 

[22/3] Todos os caciques do PSDB aparecem nas delações premiadas e continuam dormindo tranquilamente, o que ajudou, certamente, o PSDB a retomar muitas cadeiras legislativas e executivas nos últimos anos. É mais fácil a Lava-Jato mandar prender blogueiro de esquerda do que incomodar senador que já foi citado dezenas de vezes em delações premiadas sob acusação de receber dezenas e dezenas de milhões de reais.
Pois bem, o procurador Dallagnol estava dando uma entrevista no rádio na semana passada e perguntaram na lata: quando é que vai chegar ao PSDB? Ele falou do PP, do PMDB e, claro, do PT. O jornalista voltou ao ponto: e o PSDB? Ele tomou um gole de água, abaixou a cabeça, gaguejou e começou a explicar que o PSDB não pertencia à base aliada dos governos Lula e Dilma e, portanto, não tinha indicado diretores para Petrobrás etc. Ora bolas: delações não valem mais? Diretores? Alguém ainda circunscreve toda essa avalanche às indicações de diretores de uma estatal? Chega a ser constrangedor ver o rapaz naquela situação, tentando driblar o óbvio.

Uma das primeiras coisas que a gente ouve na faculdade de direito é a máxima: “o que não está nos autos não está no mundo”. Com ela, os juristas se comprazem das limitações do direito para dar conta da realidade, que é sempre mais complexa do que sua expressão judicial. Imaginem, então, quanta realidade fica de fora da cabeça de quem acredita no seguinte: “Quod non est in POWERPOINT non est in mundo”.

EM TEMPO: toda vez que faço a crítica da Lava-Jato por tratar diferentemente (ou proteger cuidadosamente) os políticos do PSDB, logo vem a acusação de que estou defendendo o PT (ou PP ou PMDB…). Nada disso: o buraco é muito mais embaixo. Puna quem tiver que punir, mas não posso me conformar que um partido tão ou mais envolvido com as mesmas denúncias saia fortalecido depois de todo esse barulho que a Lava-Jato causou, porque o PSDB tem suas garras na parcela do Judiciário, do Ministério Público, da imprensa que fez da Lava-Jato essa máquina de moer adversários políticos. É o que parece que vai acontecer.

 

[22/3] Se você, quando ouve a palavra “terceirização”, pensa na figura do terceirizado que já existe (o porteiro, o faxineiro, o segurança), você não entendeu nada do que foi aprovado hoje. O ataque agora é na larga faixa entre aqueles terceirizados de uniforme e os PJs, como médicos, advogados e outros. É na larga faixa em que todos os demais trabalhadores estão: todos aqueles de que a CLT ainda não havia sido roubada. Tanto que o projeto foi ressuscitado de 1998! Se chegamos ou não ao fundo do poço, agora é irrelevante. O poço é cova.

 

[22/3] 22 de março de 2017. No mesmo dia, Alexandre de Moraes chegou ao STF e deram um tiro no coração dos direitos sociais. Não é por acaso. Duas faces do mesmo golpe: desfigurar o Estado previsto na Constituição de 1988 e, para garantir isso, entregar funções estratégicas desse Estado desfigurado a agentes políticos que o mantenham assim. Notícias que nos chegam com um tempero ainda pior: saber que ainda não terminaram o ataque.
(Neste momento, se tenho ainda algum otimismo, se deve à violência, velocidade e covardia com que estão batendo. E fico imaginando que podemos levantar como um Rocky Balboa, no último round, com a cara demolida, para reverter a luta. Mas aqui não é ficção. É a mais cruel realidade.)

 

[23/3] Uma coisa deve ser dita insistentemente: o Brasil como conhecemos deve sua melhor parcela aos direitos trabalhistas. A parte que presta em nossa sociedade (e que deveríamos ampliar, jamais destruir) é fruto de um conjunto de direitos que estamos longe de garantir a todos que vivem do seu próprio trabalho neste país: salário (e, claro, 13º), FGTS, INSS, seguro-desemprego, salário mínimo, irredutibilidade do salário, PLR, jornada de trabalho, gozo de férias sem prejuízo da remuneração acrescida de 1/3, licença à gestante, licença-paternidade, segurança do trabalho, reclamação trabalhista, proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência, entre muitos outros que estão no art. 7º da Constituição e, na prática, vão ser atropelados pela terceirização aprovada hoje. E não pára por aí: nesse debate, num país em que tantos desempregados e subempregados são obrigados a partir para o “empreendedorismo”, não podemos esquecer que “empreender” só é viável porque a distribuição de riqueza é garantida por aqueles direitos. Ou seja, simplificando bastante: se eu decidir produzir e vender marmitas, vou depender em grande medida de trabalhadores com ocupações regulares para comprar minhas marmitas. É uma cadeia de consequências muito diversas, como pedras de dominó derrubando umas às outras velozmente. Portanto, o alcance desse desmanche é muito maior e socialmente perverso do que aparenta numa visão superficial. Vai ter muita gente engolindo o “não é da minha conta” muito antes do que imagina, mas nem imagina…

 

[23/3] Se você for procurar um emprego, vão investigar as suas condições financeiras. Se passar nessa peneira, o emprego passa a ser a referência de quase tudo na sua vida. Se você for alugar uma casa, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for financiar um apartamento, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for comprar um carro, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for visitar outro país, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for adotar uma criança, vão investigar as condições do seu emprego. Se você e seu parceiro decidirem ter filhos, vocês mesmos vão investigar as condições do seu emprego. Se você for abrir uma conta no banco ou na quitanda da esquina, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for fazer uma matrícula na escola ou na faculdade, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for pedir um empréstimo, vão investigar as condições do seu emprego. As pessoas ao seu redor, de um modo ou de outro, vão investigar as condições do seu emprego. Os bancos sempre vão te ferrar, mas vão ferrar mais ou menos em razão do seu emprego. Digo isso para esclarecer, com o perdão das palavras: empregos de merda geram vidas de merda numa sociedade de merda. Se você está acima disso, é minoria neste país e no mundo. Se está abaixo disso, saiba que em breve terá muita gente na mesma condição que você. Esteja onde estiver, tem razões para lutar. Lutemos juntos. Todos. Com urgência. O espelho do que vai faltar para a maioria é o que vai sobrar para poucos, muito poucos. E não acho que conheço alguém que estará entre esses poucos.

 

[24/3] Olhem para a UERJ. Informem-se. Depois de estrangular a universidade, Pezão anuncia corte de 30% nos salários. Cada vez vai ficando mais claro que a UERJ é o laboratório do desmanche que outras universidades públicas vão enfrentar em breve. Em várias, os primeiros passos já foram dados. Rumo ao abismo.

 

[24/3] TIRE O SEU SORRISO DO CAMINHO. Anotei umas datas aqui. 2 de dezembro de 2015: Eduardo Cunha abriu o processo de impeachment contra Dilma. 30 de março de 2016: Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr. foram explicar aos deputados a gravidade das pedaladas fiscais. 17 de abril: os deputados aprovaram o prosseguimento do processo, num domingo todo dedicado não apenas a votar, mas a declarar seu amor ao país, à democracia e a suas famílias… No dia seguinte, Eduardo Cunha passou o processo para Renan Calheiros. 6 de maio: a comissão especial no Senado aprovou o parecer do Anastasia. 12 de maio: Dilma foi afastada da Presidência. 10 de agosto: o plenário do Senado decidiu levar Dilma a julgamento. 31 de agosto: Dilma perdeu definitivamente o cargo e Temer assumiu a Presidência. Entre a primeira e a última dessas datas, boa parte dos brasileiros viveu um crescendo de empolgação: com a queda de Dilma e a derrocada do PT, claro, mas também com o fim da corrupção e a volta da prosperidade. Mais de meio ano depois, ainda consigo ouvir os gritos de comemoração, ao longe, enquanto o som de outros gritos – de dor, de desespero, de luta – se avolumam. Mas algo me diz que, em breve, só vão restar estes.

 

[24/3] (A maldição do didididididiê: alguém canta isso e você passa dias sendo surpreendido por essas sílabas até nos sonhos. E, no meu caso, o mais preocupante é que foi meu filho de 10 anos que trouxe essa contaminação pra casa.)

 

[25/3] Imagina que louco se a gente fizesse um mundo – em cada mínimo recinto, em cada mínimo encontro – em que quem está errado se sentisse constrangido, e não a gente?

 

[26/3] Estranho isso de chegar a 5000 amigos aqui. E não ter mais a oferecer do que ideias tortas, desabafos, versos obscuros, fotos do já visto e o talento alheio. Por exemplo, fiquem com esse recado do Gonzaguinha, que diz muito do que pretendo continuar dizendo, enquanto vou procurar um boteco em que caibamos todos, pra conversarmos pessoalmente sobre essas paradas. Bora?

https://www.youtube.com/watch?v=Cokqqpb8fCE

 

[26/3] Gosto de fazer listas: das coisas que vou fazer durante o dia, do que tenho que fazer nos próximos, dos livros que quero ler, discos para ouvir, filmes para assistir, mas também das angústias e ansiedades que rondam a cabeça. Se as primeiras são listas pra não esquecer, estas últimas cumprem uma estranha função: quando coloco no papel o que está me preocupando e organizo em lista um punhado de ideias (sobre as questões mais variadas da vida), é como se aquilo tudo se organizasse também dentro da minha cabeça. É meio mágico isso. De uns tempos pra cá, fuçando nos cadernos do Renato Russo, descobri um verdadeiro maníaco por listas de todo tipo, desde melhores canções até amigos prediletos. E estava aqui agora pensando nisso: ver as listas que as pessoas fazem talvez seja a forma mais interessante de desvendá-las. E o melhor: ver suas próprias listas é uma forma muito eficaz de desvendar-se, de ver a si mesmo num espelho que vai além da pele. Vocês fazem listas?

 

[27/3] Taí, gente: troquei meia dúzia de palavras com o Sergio Maciel sobre poesia e agora elas estão no escamandro. Se não valer grande coisa, ao menos tem lá o poema do Ricardo Aleixo e essa montagem engraçadíssima. Entrem, por favor.

https://escamandro.wordpress.com/2017/03/27/entrevista-com-tarso-de-melo/

 

[27/3] A Cris Venntura está fazendo uma série de leituras de poemas muito bacana lá no Soundcloud. E eu tive a sorte de entrar nesse barco com o poeminha “Escritas”. Oiçam:

https://soundcloud.com/cris-ventura-6/escritas-em-antologia-1999-2014-de-tarso-de-melo

 

[28/3] Anota aí: os Correios morreram. A Globo está lendo o rascunho bem avançado da certidão de óbito. E não é só morte, não. É o laboratório, mais um, de um jeito de se livrar de serviço público e pavimentar a fatia boa pra exploração privada. Não se anime: os bancos vão dar um jeito dos boletos continuarem chegando até seus destinatários.

 

[28/3] Sentado meio de banda, o chapéu surrado, o casaco no ombro. A fala-canto saindo quase sem esforço. Como alguém que estivesse passando, encostasse no cara do violão e falasse nas frestas dos acordes para não atrapalhá-lo. Coisa de gigante: tudo parece acontecer naturalmente. Porque, no seu caso, é bem naturalmente que acontecem.

https://www.youtube.com/watch?v=eV_astp3BjM

 

[28/3] A gente ainda nem tinha saído da fase precária anterior (com instituições que ainda só registram seus professores na marra; quando o fazem, cobrem tudo de maquiagem e, claro, sequer pagam plano de saúde aos professores) e demos uma salto para uma fase pior ainda: em que tudo isso continuará acontecendo, poderá ser aprofundado e, detalhe dos detalhes, não poderá mais ser levado à Justiça do Trabalho ou aos sindicatos para cobrança. Vamos bem assim… imaginem que lindo, durante algum tempo, as salas dos professores e as salas de aula sendo compartilhadas por professores desses dois “regimes”: o antigo ganhando X + benefícios (sabendo que isso vai desabar) e o novo ganhando 1/3 de x, quando muito (e também sabendo que isso, rente ao chão, ainda desaba). A gente não ouve por aí que a Educação é a solução? Então tentem pensar o que é o contrário disso…

 

[28/3] A Folha escalou hoje um de seus colunistas para fazer um discurso contra “os direitos”. O colunista, que se apresenta como “palestrante ativo do movimento liberal brasileiro” (WTF?), faz poucas firulas e, falando em nome do que chama de “política menos moralista (e portanto mais democrática) e mais atenta às demandas da realidade”, propõe “abolir os direitos da discussão”. Isto é, se quisermos resolver os problemas do país, não podemos nos deixar limitar por “direitos”, porque “não dá para dar tudo a todos”. Quase ia concordando com ele, quando achei que esses “direitos” a que se referia eram do porte do direito de propriedade privada, direito de herança, os direitos que os mais ricos usam pra proteger a multiplicação de seu patrimônio, os direitos que os banqueiros usam pra voar por cima de outros direitos, todos esses direitos intocáveis. Achei que era essa briga de cachorros grandes que ele estava comprando, mas não era nada disso. Era só mais um desses jovens senhores, “palestrantes ativos”, cuja razão sempre leva – imparcialmente – ao ataque dos mesmos alvos: os direitos que a sociedade tem que prover para os mais pobres, os direitos que dependem de recursos, o “desequilíbrio fiscal”, aposentadorias, a “lei trabalhista”… E o jornal, é claro, para não deixar dúvidas, também faz sua parte e ilustra a coluna com uma foto do ato contra as deformas da Previdência e da legislação trabalhista. Nesse arroubo para trocar os direitos por um discurso gerencial sobre prioridades e recursos, dá para perceber a excitação do texto quando ele diz “a conta não fecha”. Pois é… é uma conta que vai dizer para nós que país queremos e podemos ter. Mas acho que ainda temos o direito (hehehe…) de perguntar: por que não fecha? Quem fez as contas? Quem vai decidir o que cortar dessa conta? Por que, se esses direitos agora passaram a ser um “conto de fadas”, vamos aceitar que quem sempre nos contou outros tantos contos de fadas decida que não quer contar mais aquele e nos envolva com outros?

 

[29/3] Folheando aqui diversas edições artesanais recentes de poesia (recolhidas pela Luzia), admirando os formatos, os papéis, os textos, tudo, fico pensando na importância de fazer essa beleza caber em preços mais baixos. O preço das coisas, na sociedade das mercadorias, é o lugar do encontro, e principalmente do desencontro. Sem considerar isso, podemos estar reproduzindo um modelo de fracasso comercial, de um lado, e de fracasso cultural, de outro, no papel que, muitas vezes, apenas as pequenas editoras sabem desempenhar. Há um abismo – e em grande parte o compreendo – entre o preço de venda dessas edições e o bolso do leitor, e isso é problema sério para quem sabe da importância de fazer os textos chegarem aos seus improváveis e indispensáveis destinatários, aqui neste estranho país em que o acesso a qualquer livro começa na casa dos 5% do salário mínimo. Não o digo como ataque a ninguém, mas com a preocupação de imaginar que tantos textos bons podem ficar reféns do preço do objeto em que foram impressos, portanto inalcançáveis à maioria dos leitores (e existem, sim, os leitores e eles têm bolsos e desses bolsos nem sempre sai toda a grana que gostariam de ter para chegar até os textos). Atacar isso, na medida do possível, me parece mesmo uma boa causa.

 

[29/3] Morre João Gilberto Noll, de quem li tão pouco e gostei muito. Daí fico vendo as postagens entusiasmadas de alguns dos melhores leitores que conheço e bate aquela sensação de ter deixado de ler exatamente o que não devia. Vida dura essa de caçar palavras.

 

[31/3] No país em que, como poucos, os grandes problemas são criados e/ou alimentados por uma empresa de televisão, há quem acredite que a solução desses problemas vai vir de figuras construídas por essa mesma empresa de televisão. Tão compreensível quanto deprimente.

 

[31/3] (No palco principal do festival de música das outras esferas entram Sérgio Sampaio e Raul Seixas. E, claro, o Belchior, que deve ser o único que entra e sai de lá quando quer.)

[31/3] Várias pessoas publicando que Pepe Mujica morreu. Calma lá! Até onde pude investigar, a notícia é falsa. De todo modo, aconteça o que acontecer, esse vídeo aqui continua muito vivo e não tem morte que o apague da minha memória. José fica!

https://www.youtube.com/watch?v=FpfsXQKG8vY&feature=youtu.be

 

[31/3] “na noite desta sexta-feira”: esta é a frase mais importante dessa matéria. Temer calcula o momento em que aplicará suas rasteiras. Não é esperteza, é covardia. Ele sabe que, no momento em que sancionou o fim da CLT, boa parte dos brasileiros está nas ruas rejeitando sua presença e suas medidas na presidência. E quem não está lá está ocupado com outras coisas (do trabalho e estudo aos happy-hours). Mas principalmente, na sexta à noite, todos estamos esgotados após mais uma longa semana de trabalho, busca de trabalho, ansiedade, indefinição, indignação. É assim que Temer nos quer: quebrados. É assim que Temer tem coragem de nos atacar. E com isso fica claro que algum medo de nós ele ainda tem. Devemos honrar isso.

http://m.folha.uol.com.br/mercado/2017/03/1871722-para-evitar-retaliacoes-temer-sanciona-proposta-que-regulamenta-a-terceirizacao.shtml?cmpid=facefolha

 

[31/3] A fama do Paraguai por aqui é de falsificação e baixa qualidade. Mas hoje, depois de queimarem o Congresso por causa da aprovação da reeleição presidencial, se compararmos a forma como nossas sociedades reagem às manobras antidemocráticas dos políticos, nós é que ficaremos no papel de bugiganga…

Do fb pra cá [fevereiro]

[10/2] Calma, gente.

Tem algo errado em um presidente investigado pela Lava-Jato nomear seu ministro da Justiça para ser revisor da Lava-Jato no STF?

Tem algo errado em um presidente criar um ministério para ser ocupado pelo seu parceiro que é investigado pela Lava-Jato?

Tem algo errado em escolher para relatar a Reforma da Previdência um deputado cuja campanha foi financiada por uma empresa de Previdência Privada?

Tem algo errado em um ministro cujo patrimônio é de 1,8 milhão comprar um imóvel de 28 milhões?

Tem algo errado em escolher um senador enrolado com muitas acusações para presidir a sabatina do candidato a Ministro do STF?

Tem algo de errado em um candidato a Ministro do STF fazer “sabatinas informais” com senadores que terão seu destino julgado por esse mesmo Ministro?

Tem algo errado em um senador megadelatado influenciar a decisão do presidente sobre quem ocupará o Ministério da Justiça e, por acaso, seu indicado ser também delatado na Lava-Jato?

Tem algo errado em uma mensagem do presidente da Câmara perguntando à empreiteira sobre um valor que tinha que entrar na conta de seu pai e, no dia seguinte, esse valor aparecer no extrato da conta?

Tem algo errado numa lei que libera os partidos para funcionarem mesmo que não tenham prestado contas à Justiça Eleitoral?

Vocês estão ficando paranoicos.

Ficam vendo problema em tudo.

Relaxem.

 

[13/2] O país é mais bonito quando visto de dentro de um banco?

«O Brasil tem rumo, o governo tem uma agenda e pela primeira vez em muito tempo as políticas fiscal e monetária combinam. Graças a isso tem sido possível apostar no recuo da inflação e, com segurança, baixar os juros básicos. Há ainda muitos problemas pela frente, mas a sensação de estar num trem desgovernado passou. […] As ideias de uma agenda, de um rumo e de um esforço de articulação de políticas compõem um cenário animador. Nada será fácil, mas a existência de um roteiro sensato e bem definido já é um dado extremamente positivo.» (editorial do Estadão)

 

[14/2] Imagino como nossos senadores ficaram indignados com essa acusação de plágio pesando sobre Alexandre de Moraes. Logo eles…

Imagino como nossos ministros ficaram indignados com essa acusação de copia-e-cola pesando sobre Alexandre de Moraes. Logo eles…

 

[15/2] Quando vejo a surpresa dos amigos (digo: os que já diziam que o golpe era… golpe) com os rumos do noticiário e a atuação de todos aqueles em que Jucá confia, fico me perguntando: será que meus amigos diziam GOLPE sem muita convicção?

 

[16/2] Reviro os jornais diariamente e nunca vi UMA incoerência de Michel Temer: todos seus atos são golpes, inclusive os que não parecem.

 

[16/2] Presta atenção no Epicuro (341-270 a. C.):

《Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. […]

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal. Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. […]

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. […]

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? […]

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.》

“Carta sobre a felicidade (a Meneceu)”, trad. Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore, Ed. UNESP, 2002.

 

[17/2] Dia de chegar em casa, sacar a obra completa do Raduan da estante, colocar num lugar de destaque e aplaudir de pé. Todo mundo querendo saber por que ele escreveu “tão pouco” e agora veio assim a resposta: fazendo falar, pelo fígado, um governo que representa tudo o que sua obra tão vivamente denunciou. Monstro.

PS: dica de leitura: o ensaio inédito no Brasil que está nas obras completas é precioso. Parece feito para ler hoje. Mais tarde vou pegar um pedacinho e dividir com vocês…

 

[17/2] (O ministro achou que ia encontrar escritor Nutella?)

 

[17/2] TEMPOS SOMBRIOS

Em seu discurso já histórico, Raduan Nassar falou em “tempos sombrios”. Lembrei dessa expressão no uso forte que dela fez Brecht no poema “Aos que vierem depois de nós” (em tradução de Manuel Bandeira):

 

“Vós, que surgireis da maré

em que perecemos,

lembrai-vos também,

quando falardes das nossas fraquezas,

lembrai-vos dos tempos sombrios

de que pudestes escapar.”

 

E lembrei também do belíssimo livro de Hannah Arendt, “Homens em tempos sombrios”. No texto que Arendt escreve para receber o Prêmio Lessing, ela diz algo que me parece se encaixar à perfeição na figura de Raduan Nassar hoje:

 

“[…] as homenagens nos dão uma convincente lição de modéstia, pois pressupõem que não nos cabe julgar nossos próprios méritos da mesma forma como julgamos os méritos e realizações de outras pessoas. Em relação a prêmios, o mundo fala abertamente, e se aceitamos o prêmio e expressamos nossos agradecimentos, só podemos fazê-lo ignorando-nos a nós mesmos e agindo totalmente dentro do quadro de nossa atitude em relação ao mundo, em relação a um mundo e a um público a quem devemos o espaço onde falamos e somos ouvidos. Mas a homenagem não só nos lembra enfaticamente a gratidão que devemos ao mundo; também nos obriga a isso num grau altíssimo. Visto sempre podermos recusar a homenagem, ao aceitá-la não só nos fortalecemos em nossa posição no mundo, como também aceitamos uma espécie de compromisso em relação a ele.”

E algo me diz que hoje ficou claro, no caso de Raduan, qual é esse compromisso e também que ele passa a ser de seus leitores.

 

[17/2] “Não existe nada mais belo e comovente do que perseguir utopias”, escreveu Raduan Nassar (desculpem a insistência, mas hoje o dia é dele!), no ensaio “A corrente do esforço humano”, escrito em 1981 e publicado na Alemanha em 1987, mas apenas agora saído em edição brasileira, na sua “Obra completa” (Cia. das Letras, 2016).

 

[17/2] Raduan Nassar levantou e leu o belo discurso. Deu um recado duro. Depois ouviu calado os ataques do “ministro” e mesmo toda a discussão acalorada. É provável que, como em sua obra, estivesse calado por saber que já dissera tudo o que havia de mais preciso para ser dito. (E seria engraçado saber que, por dentro, talvez ele risse de ter ganho 100 mil euros para ler na cara de um representante de Temer o relato do que ele e sua gangue infligem ao país. Ainda mais porque sabe que, provavelmente, foi o último “adversário” a ter uma oportunidade dessas.)

 

[17/2] Dizem que Temer está caprichando nos poemas pra ganhar o Prêmio Camões no ano que vem só pra fazer um discurso desmentindo o Raduan. Veremos.

 

[20/2] Unidos do Nem Me Viu.

Cordão do Deixa Quieto.

Acadêmicos do Vazei.

 

[20/2] A ALERJ acaba de aprovar a venda da CEDAE.

Sabem quem deve comprar?

“O maior grupo privado de saneamento básico atuante no país é o Águas do Brasil, que já demonstrou interesse pela compra da estatal fluminense. Com atuação no estado do Rio, em São Paulo, em Minas Gerais e no Amazonas, a organização foi criada pela união de quatro empresas, das quais três são envolvidas em esquemas investigados na Lava Jato: Developer S.A. do grupo Carioca Engenharia , Queiroz Galvão Saneamento e Cowan S.A.”

 

[22/2] Aplaudir ou vaiar as cenas no Teatro da Legitimação são condutas toleradas e até esperadas do público. Cada palma ou urro, pouco importa, se converte em maquiagem, figurino, cortina, que esconde o que se passa de real no palco, bem à frente dos olhos estupefatos de quem concorda ou discorda da encenação. Pouco importa. Até se admite que o público falte ao Teatro, porque a peça será encenada normalmente. Mas a reação do elenco é violenta quando o público repudia não apenas uma ou outra cena, mas toda a peça, toda a encenação farsesca de “funcionamento normal das instituições”, porque não esquece a forma ilegítima como subiram ao palco e não cansa de exigir que desçam dele sem encenar mais nada.

(Levar Alexandre de Moraes ao STF é apenas a cereja azeda sobre um bolo podre: enquanto nos distraímos com ela, engolimos todo o resto. Não podemos esquecer. Bem mais grave que o problema com o nome escolhido para a vaga de Teori é a forma como esse “governo” chegou ao e se mantém no poder, deixando sequelas que dificilmente o país superará.)

 

[22/2] Recapitulando: Teori Zavascki morreu em 19/1. Temer indicou Alexandre de Moraes para substituí-lo em 6/2. Em 21/2, ontem, ele foi “sabatinado” até o fim da noite pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, conquistando 19 contra 7 votos. Na manhã de hoje, cerca de 12 horas depois, o Senado aprovou em plenário a indicação de Alexandre de Moraes para o STF, por 55 votos a 13. Um outro número merece ser lembrado: o novo ministro ficará no STF por 27 anos. Foi essa a decisão que nossas autoridades tomaram entre dia 19/1 e hoje, 22/2, depois da morte de um ministro e em meio a uma convulsão institucional. Foi essa a decisão que nossas autoridades tomaram sentadas sobre os infinitos abaixo-assinados que receberam contra a nomeação de Moraes. Parece que não ligam muito para outras opiniões. Que tal revermos nossas esperanças? Ou mudarmos de estratégia?

 

[25/2] Políticos que escolhem seus jornalistas de estimação. Jornalistas que escolhem seus políticos de estimação. Num e noutro caso, sabemos bem de quem é a derrota: nossa.

Gomapseumnida

DSC01931

Gomapseumnida

 

(Coréia do Sul, setembro 2014)

 

1

 

quando você sai do chão

e sabe que há tanto mar sob os pés

e não há pouso ou pausa possível

pode pensar como seria

não pousar nunca mais

na própria vida

 

mas você se move

a cabeça na mira (ando, ando)

e o corpo entre mosteiros

e a alma entre ponteiros

tentando escorregar

em meio a multidões

de sandália com meia

executivos bêbados

fumantes compulsivos

velhinhos recolhendo bitucas

protestos que parecem

treinos de taekwondo

crianças risonhas

velhos mal-encarados

policiais em duplas

desenhados a lápis

quase branco

pincéis, papéis

carimbos, tintas

impressos na tela veloz

dos carros que cortam

tudo – e você segue

 

poeta perdido num lugar

em que todas suas palavras

não servem para nada

 

você segue, com a língua nua

indefesa, vulnerável

soterrada sua pretensão

de saber dizer tudo

e agora o silêncio

o desencontro

o estranhamento

do outro lado do mundo

do outro lado da língua

 

2

 

aprendi o que é cidade antípoda

você percorre exatos 180 graus da terra

ou faz um furo perfeito de um lado

a outro da terra e assim vai de Manila

a Tangará da Serra de Taipei a Formosa

de Rukua a Tombuctu de Lima a Pursat

 

se eu cavasse o solo preto de Jeju

sairia em Santa Vitória do Palmar

os cientistas dizem que o diâmetro da terra

é de 12742 quilômetros

e que a distância do voo de São Paulo a Jeju

é de 18539 quilômetros

mas Santa Vitória do Palmar fica

a apenas 1628 quilômetros de São Paulo

 

e eu abriria assim um caminho

para a língua entrar

e dizer novamente casa

Toda sentença é um antipoema

rafael

TODA SENTENÇA É UM ANTIPOEMA

 

“Parece que foi preso 60 pessoas. Todo mundo era claro.

De preto só tinha o Rafael. Todo mundo foi solto.

Só o Rafael foi condenado.”

 

Adriana de Oliveira Braga

 

“o ministério público ofereceu denúncia

contra rafael braga vieira

pelos seguintes comportamentos ilícitos

descritos na denúncia, a saber:

 

no dia 12 de janeiro de 2016

por volta das 09 horas, na rua 29

em localidade conhecida como ‘sem terra’

situado no interior da comunidade vila cruzeiro

no complexo de favelas do alemão

bairro da penha, nesta cidade

 

o denunciado, com consciência e vontade,

trazia consigo, com finalidade de tráfico,

seis decigramas da substância entorpecente

cannabis sativa acondicionados

em uma embalagem plástica fechada por nó

bem como nove gramas e três decigramas de cocaína (pó)

distribuídos em 06 cápsulas plásticas incolores

e 02 embalagens plásticas fechadas por grampo

contendo a inscrição ‘cv-rl/pó 3/complexo da penha’

tudo sem autorização e em desacordo

com determinação legal e regulamentar.

 

nas mesmas condições de tempo e lugar acima descritas,

o denunciado, com consciência e vontade,

estava associado a outros indivíduos não identificados,

todos subordinados à facção criminosa

que domina o tráfico de drogas na comunidade,

para o fim de praticar, reiteradamente,

o crime previsto no art. 33 da lei nº 11.343/06.

 

policiais militares estavam em operação

no interior da comunidade,

quando foram informados por um morador

acerca da presença de um homem portando entorpecente

com a intenção de comercializá-lo.

 

destarte, ao chegarem ao logradouro indicado,

os agentes visualizaram o denunciado rafael braga vieira

em poder de uma sacola de conteúdo suspeito.

de imediato, ao perceber a presença dos agentes da lei,

o denunciado tentou se desfazer do material,

arremessando a referida sacola ao solo.

 

ato contínuo, após a abordagem do denunciado,

os agentes lograram arrecadar os objetos abandonados,

oportunidade em que verificaram tratar-se de

vasta quantidade de material entorpecente,

bem como um morteiro.

 

é o relatório, passo a decidir.

 

a preliminar de inépcia da denúncia

suscitada pela nobre defesa não pode ser acolhida,

eis que a prefacial acusatória descreve

fatos penalmente relevantes

e atribui a autoria delitiva a pessoa certa.

dessa forma, não colhe ensejo

o pleito defensivo aqui referido.

portanto, rejeito a questão preliminar de inépcia

da denúncia suscitada pela defesa,

porquanto os fundamentos invocados

não se aplicam ao presente caso.

registre-se que a localidade

em que se deu a apreensão do material entorpecente

mais precisamente na região conhecida como ‘sem terra’,

no interior da comunidade vila cruzeiro, no bairro da penha,

nesta cidade, é dominada pela facção criminosa ‘comando vermelho’,

conhecida organização criminosa voltada a narcotraficância.

 

neste sentido, verifica-se que as várias embalagens

das substâncias entorpecentes apreendidas

ostentavam inscrições fazendo menção à facção criminosa

‘cv’, ou seja, ‘comando vermelho’.

 

acrescente-se que as substâncias entorpecentes apreendidas

já se encontravam devidamente fracionadas,

prontas para a mercancia.

somando-se as circunstâncias

que envolveram a prisão do acusado,

onde segundo relato dos policiais que efetuaram

a prisão do réu e a apreensão do material entorpecente,

o local é conhecido como ponto de venda de drogas.

 

por consequência, levando-se em conta

a quantidade de droga apreendida, forma de acondicionamento

e local da apreensão, resta inquestionável que

a substância entorpecente destinava-se a traficância,

portanto, não tenho qualquer dúvida quanto à adequação

do fato ao tipo penal previsto no art. 33 da lei de tóxicos.

 

a autoria do nefasto comércio, em sentido idêntico,

resultou cabalmente demonstrada na pessoa do acusado,

embora este, como de costume na seara criminal,

tenha negado o obrar criminoso quando foi interrogado neste juízo.

apesar do réu rafael braga vieira

quando interrogado neste juízo

ter negado a prática das infrações,

sustentando que não tem envolvimento

com o tráfico de entorpecentes

da localidade acima mencionada,

alegando em sua autodefesa que era morador da comunidade,

que se dirigia até uma padaria

sem qualquer substância entorpecente em seu poder,

quando foi abordado pelos policiais militares,

suas declarações não ostentam base probatória.

 

alegou, ainda, o acusado rafael braga

que, em seguida, os policiais militares o conduziram até um

beco

e lhe exigiram informações acerca de

armas, drogas e traficantes da localidade.

contou o réu que, após sua negativa,

os agentes apresentaram uma bolsa

contendo material entorpecente

e ameaçaram que iriam lhe atribuir a posse das drogas,

caso não prestasse as informações solicitadas por eles.

 

ato contínuo, narrou o réu rafael braga

que foi agredido fisicamente pelos policiais militares

e que os mesmos o incentivaram a consumir droga

no interior da viatura policial, durante o percurso até à 22ª dp.

 

note-se que as declarações do réu rafael braga

durante o seu interrogatório neste juízo

restaram divorciadas do conjunto probatório, senão vejamos.

frise-se, por oportuno, que o réu rafael braga vieira

foi preso em flagrante delito.

as testemunhas, arroladas pelo ministério público,

quais sejam, policiais militares,

ouvidas neste juízo, através do sistema audiovisual,

que participaram da prisão em flagrante do réu

e apreensão das substâncias entorpecentes e outro material,

apresentaram depoimentos harmônicos entre si,

cujo teor de suas declarações faz prova robusta

que as substâncias entorpecentes descritas no laudo pericial

foram encontradas em poder do réu destinavam-se à venda.

 

narrou a testemunha policial militar

que estavam em patrulhamento de rotina,

com intuito de garantir a segurança de trabalhadores

que implantavam blindagem no posto policial,

na comunidade da vila cruzeiro,

quando um ‘morador’ foi até a guarnição policial

informar que havia um grupo de pessoas

comercializando drogas nas proximidades.

 

narrou, ainda, a testemunha

que ao proceder até o local informado

avistou um ‘grupo’ correndo

mas que o réu rafael braga

‘foi o único que permaneceu parado,

distraído, com uma sacola na mão’

e ao perceber a aproximação policial

tentou se desvencilhar da referida sacola.

 

ato contínuo, contou a testemunha policial

que feita a busca foram encontrados

na sacola plástica que o réu segurava

fogos de artifícios (‘um ou dois morteiros’) e drogas.

 

disse a testemunha policial

que o local em que o réu foi capturado

era dominado pela facção criminosa ‘comando vermelho’.

 

na mesma linha, a testemunha policial militar,

que também participou da prisão em flagrante delito do réu,

em depoimento prestado neste juízo,

confirmou, na essência, as declarações da testemunha anterior,

seu colega de farda, narrando que estavam fazendo

a segurança de uma equipe de engenharia na vila cruzeiro,

quando foram acionados

em razão de uma outra guarnição policial

ter sido informada por um morador acerca

da existência de um grupo de elementos

que realizava tráfico de entorpecentes nas proximidades,

mais precisamente na ‘rua 29’.

 

narrou, ainda, a testemunha policial

que, em seguida, procederam até o local informado,

oportunidade em que o réu rafael braga

ao avistar o seu colega de farda soldado

tentou se desvencilhar de uma sacola plástica,

enquanto os outros elementos

que estavam próximos ao aludido réu

se evadiram do local.

 

ato contínuo, contou a testemunha policial

que o acusado rafael braga foi abordado,

sendo arrecadada a sacola dispensada pelo mesmo

e encontrado em seu interior material entorpecente,

bem como fogos de artifício.

acrescentou a testemunha policial militar

que o local em que se deu a prisão em flagrante do réu

rafael braga

era conhecido como ponto de vendas de drogas,

local este dominado pela facção criminosa

‘comando vermelho’.

 

‘(…) quando avistei o acusado com sacola na mão,

ele estava parado numa curva mais o pessoal,

quando fizemos a curva ele se desfez;

aí soltou a sacola e veio andando e os demais saíram;

tudo que aconteceu nós vimos (…)’.

 

acrescentou, ainda, a testemunha policial

que o réu permaneceu no local

e não se evadiu com os demais elementos,

o que possibilitou a sua abordagem e captura.

 

extrai-se dos depoimentos acima,

das testemunhas policiais militares

que o réu foi preso em flagrante delito

em poder de material entorpecente.

as aludidas testemunhas policiais militares,

em juízo,

confirmaram que o local em que foi abordado o réu

era dominado pela facção criminosa ‘comando vermelho’.

 

note-se que os policiais militares,

agentes da lei que abordaram o réu

e apreenderam o material entorpecente em poder do mesmo,

em seus respectivos depoimentos,

sob o palio do contraditório,

descreveram a conduta delituosa

levada a cabo pelo acusado.

 

nos depoimentos policiais acima mencionados,

nada há que elida a veracidade das declarações

feitas pelos agentes públicos

que lograram prender o acusado em flagrante delito.

 

não há nos autos qualquer motivo para se

olvidar da palavra dos policiais,

eis que agentes devidamente investidos pelo estado,

cuja credibilidade de seus depoimentos

é reconhecida pela doutrina e jurisprudência.

 

os testemunhos dos policiais acima referidos

foram apresentados de forma coerente,

neles inexistindo qualquer contradição de valor,

já estando superada a alegação

de que uma sentença condenatória

não pode se basear neste tipo de prova.

 

ademais, os policiais militares

que efetuaram a prisão do acusado

não o conheciam anteriormente,

razão pela qual não tinham qualquer motivo

para acusá-lo falsamente.

 

é certo que algumas contradições

são perfeitamente previsíveis

em depoimentos de policiais militares

que participam de várias ocorrências policiais,

porém, na essência os depoimentos prestados

pelos policiais militares neste juízo

são convergentes.

 

por outro lado, a testemunha vizinha do réu,

ouvida neste juízo, disse que era amiga

e frequentava a casa da genitora do acusado por muitos anos.

segundo a aludida testemunha,

foi possível observar da varanda de sua casa

o réu rafael braga sozinho,

sem qualquer objeto em suas mãos,

sendo abordado e agredido pelos policiais militares.

 

ato contínuo, narrou a aludida testemunha

que o acusado foi arrastado por um policial até a parte baixa da rua,

o que comprometeu a sua visão.

 

ao meu sentir, as declarações da testemunha,

arrolada pela defesa do réu,

visavam tão somente eximir as responsabilidades criminais

do acusado rafael braga

em razão de seus laços com a família do mesmo

e por conhecê-lo ‘por muitos anos’ como vizinho.

 

embora a testemunha tenha afirmado em seu depoimento

que o réu rafael braga foi vítima de agressão

por parte dos policiais militares que o abordaram,

fato este também sustentado pelo acusado quando interrogado

neste juízo,

o exame de integridade física a que se submeteu

o réu rafael braga vieira não constatou

‘vestígios de lesões filiáveis ao evento alegado’.

 

dessa forma, por ser isolada do acervo probatório,

não há como acolher a versão apresentada

pelo réu rafael braga vieira em ato de autodefesa.

 

portanto, os depoimentos prestados pelos policiais militares

neste juízo,

que efetuaram a prisão em flagrante do réu rafael braga vieira

e arrecadaram o material entorpecente em poder do mesmo,

depoimentos estes corroborados pelas declarações das testemunhas,

policiais que também participaram da operação policial

que resultou na prisão do acusado,

fazem prova robusta em desfavor do acusado

em apontá-lo como autor do crime narrado na denúncia.

 

não há nada nos autos que fragilize

os depoimentos das testemunhas do ministério público.

consigne-se que a negativa de autoria

ou a tese alternativa, que coloca dúvida acerca da autoria delitiva,

vai de encontro à prova produzida,

sobretudo os depoimentos prestados pelos agentes do estado.

portanto, a defesa não se desincumbiu do ônus processual

no sentido de provar fatos impeditivos,

modificativos ou extintivos do direito estatal.

sendo assim, a prova é firme e suficiente para

condenar o acusado por tráfico,

eis que evidente que o material apreendido

se destinava à ilícita comercialização,

não só em razão da quantidade,

forma de acondicionamento e local da apreensão,

mas também em razão das circunstâncias

que nortearam a prisão do réu.

 

quanto ao crime de associação para fins de tráfico,

a materialidade delitiva é cristalina

desde a prisão em flagrante do acusado

em razão da operação policial

que culminou na deflagração da presente ação penal.

 

os elementos que instruem o processo,

sobretudo os depoimentos prestados pelos policiais militares

neste juízo, são conclusivos neste sentido.

os depoimentos prestados em juízo

pelos policiais militares responsáveis pela prisão do acusado

merecem credibilidade, porquanto seguros e coerentes,

guardam afinidade com a realidade fática

trazida no contexto probatório.

 

ademais, não há qualquer motivo nos autos

capaz de macular a isenção dos mesmos como testemunhas.

 

no caso presente

a posse do material entorpecente (maconha e cocaína)

embalado em saco plástico, fracionado,

inclusive, contendo inscrições ‘cv’,

que sabidamente destinava-se à venda,

evidencia a estabilidade do vínculo associativo

com a facção criminosa ‘comando vermelho’

que controla a venda de drogas no local dos fatos.

 

ademais, com o réu houve a apreensão de um rojão,

sendo certo que no momento da prisão em flagrante

do réu rafael braga,

conforme relato dos próprios policiais neste juízo,

havia inúmeros elementos que se evadiram.

 

dessa forma, restou inequívoca

a estabilidade do vínculo associativo

para a prática do nefasto comércio de drogas,

sendo certo que a facção criminosa “comando vermelho”

é quem domina a prática do tráfico

na localidade conhecida como ‘sem terra’,

em que o réu foi preso,

situada no interior da vila cruzeiro.

 

por outro lado,

a regra de experiência comum

permite concluir que a ninguém é oportunizado

traficar em comunidade sem integrar a facção criminosa

que ali pratica o nefasto comércio de drogas,

sob pena de pagar com a própria vida.

 

portanto, não poderia o réu atuar como traficante

no interior da comunidade vila cruzeiro,

sem que estivesse vinculado à facção criminosa

‘comando vermelho’ daquela localidade.

 

ademais,

as testemunhas arroladas pelo ministério público

não deixam qualquer dúvida a esse respeito.

 

culpável, por fim, é o acusado,

eis que imputável e estava ciente do seu ilícito agir,

devendo e podendo dele ser exigida

conduta de acordo com a norma proibitiva

implicitamente contida nos tipos por ele praticado,

inexistindo qualquer causa de exclusão de antijuridicidade

ou culpabilidade aplicável ao caso presente.

 

diante do exposto,

não é possível acolher as teses expostas

pela douta defesa do acusado em suas derradeiras alegações,

considerando, como exposto acima,

ser o conjunto probatório robusto em desfavor do réu.

 

impossível, data venia,

a desclassificação da conduta delitiva,

não só pelo fato do conjunto probatório ser desfavorável ao réu,

como exposto acima, mas, também,

em razão do acusado, em momento algum,

ter afirmado que os entorpecentes consigo apreendidos

destinavam-se ao seu próprio uso,

muito pelo contrário,

negou a posse do material apreendido.

 

verifica-se que o acusado ostenta maus antecedentes,

constando três condenações, já transitadas em julgado,

em datas anteriores aos crimes tratados nestes autos.

 

a sua personalidade é voltada para a criminalidade,

não se podendo olvidar que o acusado

no ocasião de sua prisão

encontrava-se em gozo de benefício extramuros,

inclusive fazendo uso de tornozeleira eletrônica.

 

ex positis,

julgo procedente a denúncia

para condenar como ora condeno

o réu rafael braga vieira

às penas de 11 anos e 03 meses de reclusão

e ao pagamento de 1.687 dias-multa,

à razão unitária mínima.

 

condeno, ainda, o réu

ao pagamento das custas e da taxa judiciária.

 

o regime inicial para o cumprimento da reprimenda é o fechado.

o que se justifica não só pelo quantum da pena aplicada,

mas pelo fato de que esse regime se afigura o mais adequado

para atender a finalidade da pena,

cujos aspectos repressivos e preventivos

ficariam sem efeitos na hipótese de um regime mais brando,

ante a possibilidade do réu não ser suficientemente intimidado

a não mais delinquir.

 

quanto às substâncias entorpecentes apreendidas,

determino que sejam destruídas por incineração.

determino, ainda, a destruição do rojão apreendido e já periciado.

 

após o trânsito em julgado,

lance-se o nome do réu no rol dos culpados.”

 

 

Rafael Braga Vieira

é um jovem negro brasileiro como tantos outros.

Foi réu em processo criminal como tantos outros.

Foi condenado como tantos outros.

Após um processo como tantos outros.

O texto acima foi retirado,

em protesto e homenagem,

de uma sentença como tantas outras.

Como tantos outros brasileiros,

o destino desse jovem negro preso,

com o processo em que foi condenado

e as palavras todas da sentença,

é ser varrido para debaixo do tapete

da banalização e do esquecimento.

Adriana de Oliveira Braga é a mãe de Rafael.

Seu CPF é 148.955.027-59 e sua conta poupança

é na Caixa Econômica Federal:

Ag. 4064, Conta 21304-9, Op. 013.

Qualquer ajuda para ela

não é um ato como tantos outros.

Do fb pra cá

[6/2] ROMERO E MACHADO

[esta é uma obra de ficção, baseada num suposto diálogo entre um senador e um empresário, num hipotético país chamado Brasil, em março de 2016: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.]

 

— Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima. Eu ontem fui muito claro. Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Tem que ter um impeachment. Não tem saída. E quem segurar, segura. Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar. Odebrecht vai fazer. Seletiva, mas vai fazer. Queiroz não sei se vai fazer ou não. A Camargo vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho. Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. Tem que ser política. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria. Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra. É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Com tudo, aí parava tudo. É. Delimitava onde está, pronto. O Renan é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não. Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem. A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com isso. E pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já. Caiu. Todos eles. Aloysio, Serra, Aécio. Caiu a ficha. Tasso também caiu? Também. Todo mundo na bandeja para ser comido. O primeiro a ser comido vai ser o Aécio. Todos, porra. E vão pegando e vão… O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? Amigo, eu preciso da sua inteligência. Não, veja, eu estou à disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar. Porque se a gente não tiver saída… Porque não tem muito tempo. Não, o tempo é emergencial. É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês. Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? Eu acho que você deve procurar o Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar. Acha que não pode ter reunião a três? Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é… Depois a gente conversa os três sem você. Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande. É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma… Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não. O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições sem ela. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar. Eu acho o seguinte, a saída para ela é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento… E burro. Tem que ter uma paz. Eu acho que tem que ter um pacto. Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem ninguém. Não tem. É um cara fechado, foi ela que botou. Um cara burocrata.

FIM?

 

[6/2] Parei com as notícias. Fui ver o filme do Gandhi pra mudar de ares. Começa com ele tomando 3 tiros no peito. Não está sendo fácil.

 

[7/2] Em 2030, se ainda existir STF, Gilmar Mendes se aposentará. Da composição atual, estarão lá ainda Barroso e Fachin (ambos, então, com 72 anos) e os jovens Toffoli e Alexandre de Moraes (ambos, então, com 63 anos). O Mario Rui tem razão: é bom fazer essas contas. Mas cruel é imaginar quem estará sentado nas outras 6 cadeiras aguardando o substituto de Gilmar. Cruel é constatar que, em 2033, o STF terá Toffoli, Moraes e outros 9 que nem (ou bem?) imaginamos como chegarão lá. E ainda mais cruel é pensar em quantas petições online teremos feito até lá.

Vou comprar um cubo mágico pra me distrair.

 

[7/2] Gosto de reler a carta de Temer a Dilma, de dezembro de 2015. Encadernei e coloquei na prateleira entre “O Príncipe” e a “Teoria do Medalhão”. Cada vez que releio, mais fico impressionado. Hoje destacarei o seguinte trecho: “sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção”. E Michel diz isso logo depois de se queixar porque Dilma perseguia seus aliados, em especial Moreira Franco e Eliseu Padilha. Dilma sabia das coisas, pelo jeito. E aproveito para lembrar que a gente pode até perder um tempão chorando e gritando e rindo de nervoso porque Alexandre de Moraes no STF é uma tragédia, mas não pode jamais esquecer que a grande tragédia é ter Michel Temer solto, na cadeira presidencial, decidindo seja lá o que for, ainda mais o que nos afetará por décadas e décadas.

 

[8/2] Beleza de texto. Homenagem a Ricardo Benzaquen de Araújo, professor de História da PUC-Rio e do IUPERJ, que faleceu na semana passada. Em tempos de exigências cada vez mais deprimentes sobre a atividade docente (perseguições ideológicas surrando as cabeças e o açoite das “metas e parâmetros” batendo nas costas), o texto do Fred Coelho tem o peso de um manifesto. Difundam!

 

ANÔNIMOS E ETERNOS

Fred Coelho

 

O trabalho intelectual é silencioso. Ele é feito, quase sempre, face a face. Um corpo a corpo de quem se olha — seja em uma sala, em uma conversa de orientação, em um papo no bar depois das aulas ou em outros momentos de encontro entre as pessoas. É uma tarefa que nunca para. Não há corte no pensamento. Não há cartão batido que desligue a cabeça cismada com um problema, uma hipótese, uma raiva que move, um amor que mesmeriza uma pesquisa. Quando um professor e pensador morre, só quem esteve perto dele sabe o que um país perde. E, na última semana, um dos grandes de sua geração se foi.

Ricardo Benzaquen de Araújo era parte de um grupo de pesquisadores que, hoje, são cada vez mais raros dentre as novas gerações. Talvez tenha sido a última leva de pensadores do século XX que ainda colocaram o Brasil e seus problemas profundos no centro de suas preocupações e delírios. A tradição dos “intérpretes” vem desde o fim do século XIX, mas, nos últimos tempos, perdeu força — não como produção, ainda robusta, mas como pauta central de pesquisadores cujas transversalidades contemporâneas do mundo em rede deslocaram radicalmente o tema do nacional em prol de ideias mais ligadas ao sujeito e suas rupturas com as grandes narrativas hierarquizantes do Ocidente. Estudar o Brasil, sua história, suas derrotas, suas esperanças e suas frustrações era a especialidade de Benzaquen.

Esta coluna não deseja ser um necrológio ou uma apresentação infelizmente póstuma sobre uma carreira acadêmica exitosa e brilhante. Poderia gastar todos os caracteres para apresentar apenas alguns dos livros e trabalhos de Ricardo. Mesmo sem nunca ter sido próximo ou íntimo, eu repetiria o que pessoas muito mais preparadas do que eu já fizeram e farão. Quero justamente falar com quem nunca conheceu Ricardo Benzaquen. É porque não conhecemos aqueles que, em salas de aula, escrevem com as palavras e os gestos um saber abstrato, que não fica para além de quem ouve. No final das contas, não são os livros e artigos que sobrevivem ao corpo que se vai, mas sim o que afetou de alguma forma uma série de vidas ao seu redor. Ser professor, orientador, palestrante, participante de bancas é ser, enfim, uma fala constante sobre temas que atravessam escutas em diferentes momentos da vida. Professores são passagens, um momento em que algo a mais se inscreve na formação alheia. Alguns, claro, permanecem entre nós para além de um único momento de aula ou escrita.

Quando um professor morre, o que lemos como homenagens e lembranças são as marcas que ele deixou nas pessoas, e não seus feitos individuais. Um intelectual, um escritor, um professor, no fundo, não “faz” nada. Ele não faz matéria, não faz coisa ou objetos de consumo. Como o poeta, ele funda mundos invisíveis, porém de alto impacto comunitário. Abre sendas no escuro dos dias. Sua utilidade, ao contrário do que equivocados de escolas sem partido pensam, é justamente o dissenso. Pensar. PENSAR. E não passar mecanicamente conteúdos pré-definidos, seja de que matriz ideológica for. Nenhum professor que realmente seja importante na trajetória de um aluno ou de um colega de profissão se torna importante por suas ideologias. Eles ficam para além da vida porque transcendem o particular em prol de um encontro amplo e geral com as ideias. O professor “desencaminha” porque é muito fácil escolher caminhos que já estão preconcebidos. E, mesmo para escolhê-los, vale sempre saber o porquê de suas opções.

Ricardo Benzaquen ficará — como muitos outros que, infelizmente, nos deixaram tão jovens. E isso corre a despeito de seu trabalho silencioso e sua dedicação quase anônima. O trabalho de pesquisa é solitário e anônimo. Escrever — um artigo, uma dissertação, uma tese, um livro — é solitário. Às vezes, muitos nessa posição se ressentem disso durante o processo, mas no fim entendem que (talvez) aquela solidão silenciosa seja um dos poucos momentos na vida em que você teve de lidar frente a frente com você mesmo, suas conquistas e seus limites. O pesquisador, o pensador dos problemas públicos, o interessado nas ideias que circulam e nos formam, está nesse momento existindo aos milhares: mal pagos, dedicados, mal vistos, empenhados, mal lidos, insistentes. Sempre há, porém, a sala de aula, o momento em que a solidão se encontra com as outras solidões e todos se tornam uma única grande solidão povoada.

Homenageio aqui Ricardo Benzaquen, na certeza de que muitos, talvez a amplíssima maioria dos leitores, não saiba de quem estou falando. Assim, homenageio todos os professores, pesquisadores, alunos e pessoas que optaram por viver na troca diária e anônima de ideias e desejos ao redor de uma aula. O mais trágico de tudo é que o país que ele tanto estudou não tem ideia do que perdeu com sua morte. E, em tempos em que perdemos tanto, a dor cava desse registro anônimo só pode servir de sol para que iluminemos todos que, como Ricardo, vivem em prol do ensino e da pesquisa. Obrigado a todos.

 

[8/2] De um dia para o outro, para todo lado que a gente vira aparece uma propaganda de um certo Banco Original. Eu já fico com o cabelo em pé quando vejo uma empresa, que se gaba de 2,2 bilhões de patrimônio e 7,4 bilhões de ativos, dizer que é “100% digital”, ou seja, os clientes farão o trabalho que poderia gerar alguns empregos por aqui. Mas tem algo ainda mais intrigante, que talvez vocês já saibam. São Google me acudiu e descobri uma curiosidade: ele nasceu da cabeça de Henrique Meirelles, nosso Ministro da Fazenda, com grana pesada do grupo JBS. Meirelles, aliás, trabalhava lá até assumir a pasta de Temer. Mundo pequeno, viu? Olhos abertos.

 

[8/2] O Senado que aprovou hoje a “reforma” do Ensino Médio é o mesmo para o qual estamos pedindo cordialmente que rejeite Alexandre de Moraes? A Câmara que aprovou ontem um salvo-conduto para os partidos não prestarem contas é a mesma para a qual temos pedido que proteja os interesses do país? O presidente que criou um ministério para proteger seu amigo e indicou outro amigo para protegê-lo no STF é o mesmo de que temos cobrado respeito à Constituição? Sinceramente, depois de todos os tapas na cara que levamos de uns anos pra cá, acho que só teremos alguma esperança verdadeira quando conseguirmos arrancar de nossos horizontes qualquer esperança de que essa mesma corja tenha pudor em fazer mais do que já tem feito bastante. Quem sabe, então, no lixão nasçam flores.

 

[9/2] Toda minha solidariedade e admiração à juíza Kenarik Boujikian, que foi punida por parte dos seus pares no TJ-SP porque determinou a soltura de presos cujas penas já estavam excedidas. Todos aqui temos na memória casos escabrosos de juízes que cometeram crimes e foram aposentados sem perder um centavo. Em todo boteco da Praça da Sé circulam histórias que provam a flexibilidade dos critérios do Tribunal para definir o que é admissível ou não na conduta dos juízes. Parece, enfim, que a regra geral é punir apenas quem abusou demais… No entanto, no caso da Kenarik o que vemos é de um rigor extraordinário (descumpriu o princípio da colegialidade!?), aquele rigor que o direito costuma invocar quando quer perseguir alguém. Não por acaso, é uma juíza numa instituição dominada por juízes. Não por acaso, é uma militante pela democratização do Judiciário e do país num ambiente reacionário. Não por acaso, é uma mente progressista numa estrutura arcaica. Mas a luta não acaba aí. Força, Kenarik!

Do fb pra cá

[31/1] Quando você toma a decisão, de um dia para o outro, de mudar algo que você costuma fazer (comer, beber, gastar, ser etc.), por acaso considera que tudo o que você faz (come, bebe, gasta, é etc.) não se construiu em você de um dia para o outro? Pedras talhadas a ondas e mais ondas dependem de pancadas e mais pancadas para talhar em si outras formas

 

[1/2] (O noticiário deprime, sim,

mas apesar de, apesar de,

apesar de, apesar de tudo,

tem uns bons camaradas

fazendo coisas bem bonitas

das suas vidas! E aí talvez

esteja a senda a seguir.)

 

[1/2] Vocês têm acompanhado a coluna “O cuidado da poesia”, que o Alberto Pucheu coordena no site da revista Cult? Está cada dia mais incrível o conjunto de reflexões reunidas lá. Tem o próprio Pucheu, tem o gigante Leonardo Fróes, tem Bruno Machado sobre Annita Costa Malufe; tem Vicente Franz Cecim, Guilherme Heurich, Roberto Corrêa dos Santos; tem Susana Scramim escrevendo sobre Angélica Freitas, Paula Glenadel, Lu Menezes, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto e Ana Martins Marques; tem Flavia Trocoli sobre Simone Brantes, Piero Eyben sobre Age de Carvalho, Betty Mindlin sobre Josely Vianna Baptista, Simone Brantes sobre Caio Meira, Claudio Oliveira sobre Renato Rezende, Leonardo Gandolfi sobre Horácio Costa, Heleine Fernandes de Souza sobre Marília Garcia, Maurício Gutierrez sobre Leonardo Gandolfi; tem Victor Heringer, Edimilson De Almeida Pereira, Tatiana Pequeno, Marcelo Diniz, Danilo Paiva Ramos, Ricardo Aleixo. Passem por lá!

http://revistacult.uol.com.br/home/category/alberto-pucheu/

 

[1/2] Parte dos servidores do Estado no RJ está há meses sem receber seus salários regularmente. Quando se revoltam, a “grande” imprensa trata de pintar os trabalhadores como inimigos. Lembramos uma dura lição: temos que ser mesmo inimigos de tudo que conspire, em qualquer dos poderes públicos e privados, para a naturalização desse estado de coisas, que, infelizmente, é apenas a antessala caótica de uma derrubada ainda mais ampla de direitos, serviços, universidades etc.

Todo apoio à luta dos servidores.

 

[2/2] Essa imprensa porca e seu público espúrio têm tanta pressa de noticiar a morte de Marisa Letícia que trocam os pés imundos pelas mãos sujas e, de modo contundente, noticiam, isso sim, que “nossa” imprensa e a sociedade que a engole a seco sofreram uma irreversível morte cerebral.

Já sabíamos que eles não ligam para a verdade, para qualquer verdade, porque se transformaram num ramo menor da publicidade barata e da propaganda política mais rasteira, mas sua irresponsabilidade, gigante, ainda cresce. Tanto ódio cego assusta.

Quem se presta a isso, lamento, não tem cura.

 

[2/2] Um nó na cabeça e no coração. Sempre fui o cara que gastava tempo tentando convencer os amigos de que o melhor lugar para nós era aqui mesmo, não “apesar dos problemas do país”, mas “por causa” deles, para ajudar a resolvê-los, para fazer frente a todos que insistem em reproduzir e aprofundar nossos problemas. Mas, de uns tempos pra cá, é cada coisa que acontece neste país que, se não chego a defender que meus amigos sigam para outros países, ao menos não tenho ânimo para demovê-los da vontade de ir embora – ainda que nem sempre seja pelas mesmas razões que se movem. As notícias que chegam dos professores que vão sendo demolidos junto com as universidades a que tanto se dedicam, o ruído da máquina de destruir sonhos que se tornou a vida pública no país, todo esse grunhido que o ódio espalha até na porta de hospitais, o caldo disso engasga até o mais otimista dos pessimistas. De outro lado, no entanto, a gente levanta a cabeça do noticiário brasileiro e olha para o que o mundo vai se transformando e vai ficando cada vez mais apertado o coração cheio de amigos que estão espalhados por aí, em alguma medida expostos a outras tantas formas de ódio que nosso tempo tem sido pródigo em alimentar. Onde é a saída?

 

[2/2] “Aécio definiu conluio em licitação em Minas”… estava refletindo sobre o estilo da manchete que a Folha deu hoje sobre mais uma delação que envolve Aécio Neves. Alguém usa a expressão “definir conluio” para falar que um governador exigiu propina dos empreiteiros? Sei lá, fico achando que doeu no peito do redator ter que falar abertamente “Aécio exigiu propina de empreiteiras” e ele foi buscar esse “definiu conluio em licitação”… alguém que passe distraído pela manchete pode até sair dizendo que “esse Aécio é bom mesmo, definiu conluio em licitação. Não é qualquer um que define conluio, ainda mais em licitação. Cabra bom!”. Na próxima, é bem provável que digam “Servidoria logra encontrar numerário não-declarado em conta de adversário de Dilma em banco sediado na Schweizerische Eidgenossenschaft”. Bobagem da minha parte?

 

[2/2] Vim de escolas públicas desde os 6 anos de idade. Do “pré” ao doutorado. Meus amigos mais próximos também. E sempre me chamou atenção que, nesse longo percurso, nunca tenha feito amizade com alguém que virou ou é médico. Ninguém. Não tenho um telefone de médico gravado no meu celular. Até onde sei, meus familiares também não têm. Hoje em dia, tenho alguns amigos fazendo curso de medicina (em boa parte viabilizados por políticas desenvolvidas pelos governos Lula e Dilma). Enfim, digo tudo isso para destacar: o lugar social que a maioria dos médicos ocupa é vergonhosamente elitista e, por isso, tão gritantemente insensível ao que chamamos de vida neste triste país.

 

[5/2] É difícil explicar, mas em algumas manifestações públicas – de luta, revolta, protesto ou, como a de ontem em SBC, de respeito e solidariedade – a gente sente que as pessoas estão no seu lugar mais natural, totalmente à vontade ali no meio da rua reencontrando velhos amigos, puxando papo com desconhecidos e vendo de perto algumas pessoas famosas. Tinha tristeza lá, claro, mas tinha muito mais vontade de homenagear, agradecer e comprometer-se com o futuro das mesmas lutas. As ruas, as calçadas, os botecos, a padaria, tudo se enchendo com a naturalidade de pessoas que parecem nunca ter saído dali. No meio daquele fluxo, tudo que você quer é que aquelas pessoas não voltem para casa. Que chamem outras pessoas. Que transformem outras ruas e bairros também em lugares de encontro, partilha, sorriso, luta e defesa de uma vida melhor para todos. Que assim seja.

 

[6/2] Eyjafjallajökull

 

só os mais atentos

ao som do fogo antes da chama

sabem que amanhã pode ser

o dia em que aviões terão medo

de passar perto de seu grito

e voar sobre sua cabeça

quente, quente

 

[6/2] Tem luta que é para a vida toda. Tem outras que, de cara, sabemos que são perda de tempo. Para quem quer tanto a morte de Lula, não adianta pedir que não comemore a morte de Marisa. Para quem quer tanto a morte de Lula, não adianta explicar o sentido e a conveniência do discurso que ele fez no velório. A resposta a uns e outros coloca-se de forma bem concreta: a morte que querem ainda não veio e, enquanto não vier, muitos outros discursos roucos incomodarão seus ouvidos, tanto quanto aquecerão os corações de quem segue na luta.

 

[6/2] Se se confirmar, a nomeação de Alexandre de Moraes para o STF pode nos causar qualquer sensação, menos a de surpresa. Ou alguém ainda acha que Temer e seu bando têm pudores que os impeçam de levar a cabo todo o projeto de desmonte constitucional e impunidade de que o golpe era apenas o primeiro ato? Ademais, Alexandre de Moraes será a nomeação mais descaradamente partidária que assistimos no STF das últimas décadas, ainda que outras tenham chamado muito mais atenção das torcidas partidárias, ainda que outras tenham se revelado mais partidárias do que pareciam. E tem algo ainda pior: a marca que Alexandre de Moraes pode deixar no STF vai bem além de salvar um ou outro dos seus parceiros. Certamente, teremos nele a certeza de posicionamentos abertamente contrários à proteção dos direitos fundamentais e, de quebra, expostos sempre com a truculência que marca sua atuação e discurso, ainda mais porque, cabeça por cabeça, não temos atualmente um STF em que suas posições reacionárias precisem ficar na manga… Ele encontrará bons parceiros (5, 6, talvez 7) para desfazer a Constituição. Perto disso, uma manobrinha aqui, outra ali para salvar Temer, Serra, Aécio e outros será um ruído besta no meio do bombardeio.

 

[6/2] Alexandre de Moraes no STF: pior que isso

(a) SÓ se o Temer indicasse a si próprio para o STF

(b) NEM se o Temer indicasse a si próprio para o STF

 

[6/2] Como o Temer se preocupa muito com nossa opinião e perde o sono quando é xingado nas redes sociais, acaba de indicar seu ministro para a vaga deixada por Teori no STF. Da mesma forma, o Senado, que morre de medo de hashtags negativas, deve aplaudi-lo durante o que deveria ser uma sabatina. E nós vamos à festa?