Um suicídio gritante

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Kaique está morto. Dentes arrancados. Traumatismos variados. Uma barra de ferro enfiada na perna. Desfigurado na Av. Nove de Julho, centro de SP. Kaique era gay, negro, tinha 17 anos e está morto. Kaique Augusto Batista dos Santos. Foi enterrado sete palmos abaixo de um boletim de ocorrência que afirma seu suicídio. Um suicídio gritante. Tortura? Não, suicídio. Espancamento? Não, suicídio. Homofobia, racismo, descaso das autoridades públicas? Não.

 

A mãe de Kaique não descansou enquanto não encontrou seu filho – seu corpo ou o que sobrou dele. De outro modo, é bem provável que Kaique tivesse como destino a vala comum que reservamos aos anônimos, aos não-identificados, aos  sem-parentes. Graças à mãe de Kaique, no entanto, temos o corpo. Mas, vocês sabem, o corpo não basta para afirmarmos que houve um crime: por enquanto, suicídio. Se a investigação não confirmar o BO, passamos a ter uma suspeita de homicídio. Um corpo e uma suspeita de homicídio. Nada além disso. Daí até termos os nomes dos responsáveis, processá-los etc., o caminho é longo. A mãe de Kaique talvez não tenha pernas tão fortes assim para chegar até lá.

 

A família de Kaique não entende o que pode ter acontecido: “o menino trabalhava, estudava, era muito responsável”. Mas Kaique estava no centro da cidade, de uma cidade que não sabe muito bem o que fazer com jovens, negros e gays, tampouco com outras tantas parcelas da sociedade cuja existência é comumente negada. Num quadro assim tão adverso, é bem provável mesmo que Kaique encontrasse razões de sobra para o suicídio. Talvez tenha sido isso o que as autoridades tentaram dizer, cifradamente, no boletim de ocorrência.

 

Tenho minhas dúvidas, muitas. Em tempos de paz (!?), autoridades não costumam usar documentos oficiais para enviar mensagens cifradas, ainda mais assim tão “sociológicas”. Nem tenho razões para achar que Kaique queria algo mais que, nas suas justas horas vagas, curtir um narguilé com os amigos na balada. Era seu rolezinho. Nada mais. Como foi na rua, houve tempo para que seus possíveis assassinos fizessem todo tipo de violência contra seu corpo longe dos olhos da polícia. Se fosse dentro de algum centro comercial, Kaique, seu narguilé e seus amigos teriam sido enviados para longe dali, ou seja, para um recanto qualquer desses que os holofotes da lei e da ordem não alcançam.

 

Aliás, não são poucos os que estão chamando de idiotas todos aqueles que se levantaram nos últimos dias para dizer que o rolezinho deve ser visto como uma denúncia de que estamos nos transformando cada vez mais rapidamente numa sociedade em que os espaços de convivência são, na verdade, espaços de consumo, que restringem o fornecimento de paz e sossego a uma parcela pequena da população, tendo como outra face uma cidade que, da porta pra fora dos shoppings, é cada vez mais violenta, inóspita, suicida. Idiotas, né, Kaique?

 

http://noticias.terra.com.br/brasil/policia/,7dd57b1473b93410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

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19 comentários sobre “Um suicídio gritante

  1. Anônimo 16 de janeiro de 2014 / 18:29

    A sobriedade com que o Sr. disseca os fatos da nossa sociedade é particular e honrável.
    De fato, vivemos em uma sociedade discriminadora: discrimina-se pela cor, raça, crença, time de futebol, e por tantas outras coisas.
    Pior, a agressão percebida pela vítima é sentida também pela família dela; a autoridade pública que ignora os fatos, que se omite, aqueles que se fazem cúmplices da agressão, a indiferença de todos em face dos horríveis dados da realidade.
    É válido protestar contra o aumento da passagem de ônibus. Também é válido protestar contra o IPTU. Mas ninguém protesta pelos presos que, há anos, são tratados como animais; nem pela morosidade da polícia na tratativa dos milhares de homicídios não resolvidos; nem por tudo mais que faz desse país uma lástima social.

    • Humberto R. 18 de janeiro de 2014 / 13:50

      Tens razão, não vejo quase ninguém protestando por coisas mais importantes e urgentes tipo: aos abusos de autoridade de policiais e políticos, a superlotação nos presídios que fazem com que os prisioneiros vivam em condições extremamente desumana e sem chances de recuperação desses presos para que pelos menos alguns possam se tornar bons cidadãos. Não vejo ninguém protestando pelos desmando de Juízes e autoridades que criam Leis não compatíveis com a realidade social. Não vejo ninguém,protestando contra aos abusos de jovens e adolescentes que cometem crimes hediondos e depois ficam só 3 anos numa Instituição Sócio Educativa sem terrem um trabalho sério para serem recuperados. Não vejo ninguém protestando pelos os abusos que existem nos hospitais do SUS que atendem aos pacientes de formas desumanas. Não vejo manifestações em massa contra as intolerâncias religiosas e aos preconceitos em todos os sentidos. Essa discriminação aos gays se tornou uma doença terrível em muitos que precisa ser tratada urgentemente sobre a penas dessas pessoas se transformarem em monstros . Vivemos numa sociedade decadente, onde muitas famílias não sabem ou tem medo de colocar limites nos filhos. Vivemos numa sociedade em que nas famílias, desde cedo as crianças não são ensinadas a desenvolverem a sensibilidade e a compaixão pelo fato de muitos pais acharem que não é preciso. As crianças são ensinadas a serem gananciosas e competitivas. Muitos pais não dão exemplos de ética, já ensinam seus filhos em como passar a perna nos outros e não serem pegos. Políticos criam Leis por conveniências e que muito deles as vezes não cumprem essas . Empresários e comerciantes sem piedade se tornam cada vez mais gananciosos , só visando ao lucro e ao poder. Nas famílias não existem mais o diálogo entre famílias, todos vivem em seus próprios mundos de interesses e conveniências tanto jovens como os adultos, onde não existe a paciência para compreender e ouvir o outro que está ao seu lado. A reforma íntima de cada um é o primeiro passo para uma mudança radical para banir todas essas doenças psíquicas , de comportamentos…

  2. Anônimo 17 de janeiro de 2014 / 05:56

    Um pouco de curiosidade: não havia nenhuma pessoa perto? Só o menino e os assassinos? Ou o menino procurou encrenca ou ninguém sabe pegar o telefone e ligar para o 181. Minha opinião (que eu sei que não vale muito).

    • Anônimo 17 de janeiro de 2014 / 10:20

      Nesse caso sua opinião é de merda, mesmo. A culpa é dele que procurou encrenca. A culpa é da mulher, que aceita apanhar do marido. A culpa é da menina que saiu de mini-saia. Os culpados nunca são os agressores, são as vítimas que se deixaram tornar vítimas? A culpa é dele, que resolveu ser gay sabendo que tem um monte de homofóbico solto na rua… Que irresponsável, não?

      A culpa é sua, que se tivesse lá perto, não ia ligar pra denunciar, porque o problema não é seu, é dos outros. É sempre muito fácil culpar quem já morreu. Você é conivente com o “suicídio” do rapaz.

      Não é meio ÓBVIO que toda a agressão e tortura não ocorreu no meio de uma rua movimentada e cheia de pessoas omissas como você? Não é porque o corpo foi encontrado lá que a agressão ocorreu lá.

      Achei sua curiosidade meio burra, mas é só minha opinião.

      • Oscar Cox 17 de janeiro de 2014 / 11:51

        Importante menção ao “não ia ligar pra denunciar, porque o problema não é seu, é dos outros”. É bem provável que, mesmo tendo sido de madrugada, pessoas tenham passado perto e, em vez de acudir ou denunciar, simplesmente se mandaram dali o mais rápido possível. Aliás, também não duvido que alguém tenha tentado avisar a polícia e ouviu como resposta que “não podemos fazer nada”.

      • elisiane 17 de janeiro de 2014 / 12:37

        VERDADE. NUNCA VI PALAVRAS TÃO CERTAS COMO A SUA… O BRASIL ESTÁ PERDIDO, POR CORRUPTOS.

      • Anônimo 17 de janeiro de 2014 / 20:25

        (Y)

      • Humberto R. 18 de janeiro de 2014 / 13:27

        Pra que todo esse ódio e rancor em rebater as opiniões dos outros que não raciocinam como você ? Não é preciso isso, se você está certo em suas observações, apenas anuncie sem ofender as pessoas ? Quando se está certo no que se diz e pensa, simplesmente anuncia–se sem ficar condenando alguém se deveria ou ter pensado ou agido como você espera.

  3. Marcos V Portes 17 de janeiro de 2014 / 10:37

    Infelizmente vivenciamos diariamente com situações como esta, é lamentável, um governo se preocupar com coisas supérfluas, que não levam a nada, como COPA DO MUNDO, e a população está aí a mercê das inúmeras ocorrências , muitas fatais…..falta muito respeito do governo para com os cidadãos que são espoliados pelos impostos arrecadados (E NÃO É POUCO), que viram fumaça, enquanto deveriam ser convertidos pelo menos em parte, com saúde, segurança, educação, moradia etc etc etc………lamentável……

  4. Mauro Delgado 17 de janeiro de 2014 / 17:06

    sem comentarios.. como qse tudo que tem ocorrido. meu deus quero ir embora desse lugar de cao!!!!!!

  5. marcia 17 de janeiro de 2014 / 17:46

    É duro dar de cara com essa realidade, que, aliás, é nossa, responsabilidade de todos nós, desta sociedade. Só não entendo o que isso tem a ver com a Copa do Mundo, ou mesmo com a corrupção. Os assassinatos de jovens negros, gays ou não, não começaram a ocorrer agora, são história antiga, o que temos agora é mais visibilidade. Como também o assassinato de moradores de ruas, índios ou não, e de mulheres, esposas ou não. Sim, somos uma sociedade racista, homofóbica, machista… Não, o governo não é responsável por esse nosso caráter. E, sim, a polícia é racista, homofóbica, machista, mal paga, mal treinada, autoritária, uma das mais violentas do mundo. E isso, sim, é responsabilidade dos governos.

  6. Anônimo 17 de janeiro de 2014 / 20:25

    Não culpo a policia e nem o governo, a culpa toda é do povo brasileiro ignorante, machista, racista, homofóbico, intolerante. Acho que é quase uma doença social, é como se a sociedade estivesse contaminada com um conservadorismo irracional tolo, preza a tempos remotos diferentes dos de hoje. acredito também na força gigantesca das religiões protestantes fundamentalistas brasileiras, é lamentável tudo isso.

  7. Anônimo 17 de janeiro de 2014 / 20:26

    hora errada no lugar errado

  8. John 18 de janeiro de 2014 / 00:29

    Se morreu, foi porque quis! Devia estar em outro lugar, fazendo outras coisas! As minorias precisam viver nas minorias!! Fora disso, é dar sorte ao azar. Tenho dito.

    • Anônimo 18 de janeiro de 2014 / 12:42

      John eu espero que vc tenha uma morte mais sofrida do que o pobre menino teve, espero que vc tenha uma vida de merda, alias ja deve ter, para ter esse tipp de pensamento racista e escroto!!!! Desejo tudo de pior para vc e que um dia passe por uma situaçao dessa, para eu poder fazer um comentario escroto como esse na noticia referente a voce, seu grande pedaço de merda!!!

  9. Tha 18 de janeiro de 2014 / 13:12

    JOHN, vc é um cretino !!!

  10. José Sarlos Sartori 19 de janeiro de 2014 / 00:15

    Lamentavelmente e sem perspectiva de melhora vivemos uma sociedade de hipócritas, ninguém individualmente é hipócrita, mas inserido no meio em que se vive passa a ser um hipócrita em virtude das circunstâncias que te coagem a agir em desacordo com sua consciência.e o principal argumento para se omitir diante de um fato como esse primeiramente é a covardia, depois é saber que você estará sozinho na sua denúncia, e muito provavelmente você terá de ouvir que você não tem nada com isso.SOCIEDADE DE HIPÓCRITAS. É o que somos, falo por mim não se ofenda, ma reflita sobre essas palavras.

  11. Cidadão de bem 22 de janeiro de 2014 / 03:02

    E aí? Vai publicar o pedido de desculpas quando?

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